
O ex-presidente da Câmara dos Deputados e pré-candidato a deputado federal pelo PT, João Paulo Cunha, defendeu que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva adote postura mais combativa diante dos desafios políticos e econômicos. A declaração foi feita durante seminário sobre a crise mundial e os rumos da esquerda.
Durante o seminário “Desafios do Brasil e da Esquerda na Atual Crise Mundial”, organizado por João Paulo Cunha, o ex-presidente da Câmara avaliou que o governo federal tem atuado de forma defensiva, o que, segundo ele, compromete a capacidade de disputa política e narrativa. O encontro reuniu lideranças políticas, especialistas e militantes para discutir o cenário nacional e internacional.
Cunha afirmou que o governo e o Partido dos Trabalhadores precisam antecipar movimentos e assumir maior protagonismo. Segundo ele, a falta de reação diante de problemas pode ampliar o desgaste político. "O governo e o partido precisam deixar de correr atrás dos fatos e passar a antecipar os movimentos. Quando se identifica um problema e não se age, ele se agrava", declarou.
O ex-presidente da Câmara também destacou a importância da presença no ambiente digital. Para ele, a esquerda enfrenta dificuldades para mobilizar sua base nas redes sociais e precisa estruturar uma estratégia mais organizada de engajamento, especialmente com foco nas eleições. "A vida hoje acontece no ambiente digital. Não basta ter razão no conteúdo, é preciso disputar narrativa e presença onde as pessoas estão", afirmou.
Críticas ao Banco Central
Na área econômica, Cunha criticou a condução da política monetária e questionou o nível atual da taxa básica de juros, fixada em 14,75% ao ano. Segundo ele, a manutenção de juros elevados dificulta o crescimento econômico e prejudica a economia. "Não é razoável que o país continue travado por uma lógica que impede o crescimento e penaliza a economia real", disse.
Ele também defendeu maior protagonismo do governo na definição da estratégia econômica e na discussão sobre metas de inflação. "O Brasil não pode ficar refém de uma lógica que impede o crescimento. A discussão sobre juros e meta de inflação precisa ser enfrentada com responsabilidade, mas também com coragem política", afirmou.
Ao abordar o cenário internacional, Cunha avaliou que há uma reorganização das forças globais com impacto direto na América Latina e no Brasil. Segundo ele, a atuação dos Estados Unidos, sob influência de lideranças como Donald Trump, tem buscado reposicionar o equilíbrio global por meio de alianças estratégicas e demonstrações de força.
O ex-presidente da Câmara citou episódios recentes e comparações com a Guerra do Iraque para sustentar que narrativas internacionais podem ser utilizadas como justificativa para intervenções políticas e econômicas. Nesse contexto, ele alertou para o risco de interferência externa nas eleições brasileiras.
"O Brasil é peça-chave nesse novo tabuleiro global. Isso significa que nossas eleições e nossas decisões internas têm impacto além das nossas fronteiras", afirmou.
Soberania
Cunha também destacou a importância de proteger a soberania nacional diante do interesse internacional por recursos estratégicos, como lítio e terras raras. Segundo ele, disputas geopolíticas envolvem interesses econômicos e exigem preparação do país para defender seus ativos.
"Disputas geopolíticas envolvem interesses econômicos concretos. O Brasil precisa estar preparado para defender seus ativos estratégicos", declarou.
Pré-candidato a deputado federal, João Paulo Cunha defendeu ainda a construção de um projeto nacional de longo prazo, com planejamento entre 10 e 20 anos, para enfrentar desafios econômicos, sociais e ambientais. Ele afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá papel relevante na condução inicial desse processo.
O ex-presidente também destacou a necessidade de reorganização da esquerda para o período posterior a 2030, com fortalecimento das estruturas partidárias e menor dependência de lideranças individuais. "A sucessão política não pode estar baseada apenas em nomes. Precisamos construir uma força institucional capaz de sustentar um projeto de país no longo prazo", afirmou.
Cunha afirmou que o momento exige visão estratégica e coordenação política. "O Brasil precisa decidir que país quer ser nas próximas décadas. E isso exige coragem para enfrentar os desafios e organização para construir o futuro", disse.
Memória
João Paulo Cunha foi deputado federal pelo PT de São Paulo por cinco mandatos e presidiu a Câmara dos Deputados entre 2003 e 2005.
Ele foi condenado pelo STF a 9 anos e 4 meses de prisão por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro, renunciando ao mandato em 2014.
Cumpriu pena no Complexo da Papuda (semiaberto) e progrediu para o regime domiciliar em 2015. Recebeu indulto da pena em 2016, assinado pela então presidente Dilma Rousseff.
