
Um estudo econômico do Banco Santander mostra que o chamado Índice de Miséria no Brasil vem caindo desde 2022, impulsionado principalmente pela redução do desemprego e pela desaceleração da inflação. O levantamento analisa a evolução do indicador em diversas regiões metropolitanas do país ao longo da última década.
Em Salvador, o índice caiu de 17,1% em 2012 para 13,1% em 2025, mas, a cidade ainda permanece acima da média nacional (próximo dos 10%).
O Índice de Miséria combina dois indicadores centrais da economia -- taxa de desemprego e inflação -- para medir o nível de desconforto econômico enfrentado pela população. O indicador foi popularizado pelo economista norte-americano Arthur Okun e busca sintetizar, em um único número, os efeitos simultâneos da perda de poder de compra e da dificuldade de acesso ao emprego.
Recife registrou índice de aproximadamente 12,4%, enquanto Belém, na região Norte mas frequentemente comparada ao Nordeste em estudos regionais, apresentou queda ainda mais acentuada, atingindo cerca de 11,2%. Os dados indicam que Salvador permanece com um dos níveis mais elevados entre as capitais analisadas.
O relatório aponta que essa diferença regional está ligada principalmente ao comportamento do mercado de trabalho. Capitais do Nordeste historicamente apresentam taxas de desemprego mais altas, reflexo de fatores estruturais como menor diversificação econômica, maior informalidade e menor presença de setores industriais e de serviços altamente especializados.
Durante a recessão brasileira entre 2015 e 2017, o desemprego nas capitais nordestinas atingiu níveis particularmente elevados. Em Salvador, por exemplo, as taxas chegaram a superar 17% e em alguns momentos se aproximaram de 20%, situação semelhante à observada em cidades como Fortaleza e Recife. Esse período marcou o ponto mais crítico do Índice de Miséria na região.
A partir de 2018, houve estabilização gradual das taxas de desemprego, embora ainda em patamares elevados. Já entre 2022 e 2024, com a retomada das atividades econômicas após a pandemia, ocorreu uma redução mais consistente do desemprego em todas as regiões do país. Mesmo assim, as capitais do Nordeste continuaram registrando níveis superiores à média nacional.
O papel da inflação
Outro fator importante para a melhora do Índice de Miséria foi o comportamento da inflação. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) apresentou forte aceleração durante a pandemia, entre 2020 e 2022, quando os preços subiram rapidamente em todo o país. Capitais como Salvador e Fortaleza registraram picos ligeiramente acima da média nacional nesse período.
Com a normalização da economia a partir de 2022, a inflação começou a recuar e passou a convergir entre as diferentes regiões. Em 2024, por exemplo, cidades como Salvador e Recife chegaram a apresentar índices abaixo da média nacional, indicando que as pressões inflacionárias estavam mais controladas.
Em 2025, os dados mostram estabilização ampla da inflação entre 3% e 4%, com diferenças relativamente pequenas entre capitais. Essa convergência ajudou a reduzir o Índice de Miséria em todo o país, já que a inflação exerce impacto direto sobre o poder de compra das famílias.
O relatório também destaca o papel da inflação de alimentos, que afeta de forma mais intensa as famílias de menor renda. Durante a pandemia, entre 2020 e 2022, os preços dos alimentos chegaram a crescer próximo de 10% ao ano, superando o ritmo do IPCA geral. Isso ampliou a sensação de perda de renda, principalmente entre os grupos mais vulneráveis.
Com a desaceleração recente desses preços, o impacto sobre o orçamento das famílias diminuiu, contribuindo para a melhora das condições econômicas nas regiões metropolitanas. Esse movimento foi acompanhado também por crescimento real da renda em praticamente todos os estados brasileiros, o que reforçou o poder de compra da população.
De acordo com os economistas do Santander, essa combinação de queda do desemprego, inflação mais baixa e crescimento da renda ajudou a reduzir o Índice de Miséria em todo o país. Ainda assim, as diferenças regionais permanecem significativas.
No caso de Salvador, apesar da melhora expressiva ao longo da última década, a capital baiana continua com indicador mais elevado do que o observado em diversas cidades do Sul e Sudeste. Essas diferenças refletem não apenas o nível de atividade econômica local, mas também características estruturais do mercado de trabalho e da economia regional.
Demanda por imóveis
O estudo também sugere que a melhora das condições econômicas pode ter impacto em outros setores da economia. Uma das possíveis consequências observadas é a aceleração dos preços imobiliários em cidades onde o Índice de Miséria se aproxima de níveis mais baixos. Entre as capitais com crescimento recente nos preços de imóveis estão Salvador, Belo Horizonte, Vitória, Fortaleza, Belém e Curitiba.
Segundo os pesquisadores, quando o Índice de Miséria cai para níveis próximos de 11%, a demanda por imóveis tende a aumentar, pois mais famílias passam a ter renda estável e maior capacidade de financiamento. No entanto, o relatório ressalta que essa relação não é necessariamente causal, já que fatores como crédito, oferta de imóveis e crescimento populacional também influenciam o mercado imobiliário.
As projeções apresentadas no estudo indicam que o Índice de Miséria nacional pode atingir cerca de 9% no primeiro semestre de 2026, o menor patamar da série recente. No segundo semestre, o indicador pode subir levemente e encerrar o ano em torno de 10%, ainda em nível considerado baixo para os padrões da última década.
Mesmo com esse cenário favorável, os economistas destacam que as diferenças regionais devem continuar presentes, especialmente entre capitais do Norte e Nordeste e as regiões mais ricas do país. Para cidades como Salvador, a continuidade da queda do desemprego e o crescimento sustentado da renda serão fatores decisivos para reduzir gradualmente essa distância.
