Meu pai fez parte da base da pirâmide do Poder Judiciário (era oficial de Justiça). Estava, portanto, a anos-luz de distância dos magistrados que formam o topo dessa pirâmide.
Cresci ouvindo meu pai repetir, à exaustão: "Um juiz só fala nos autos". Ele acreditava cegamente na frase (santa ingenuidade!).
Ou seja: um juiz evita comentar fatos que tenham qualquer ligação com processos que esteja analisando e em nenhuma hipótese torna público, antecipadamente, um convencimento seu sobre tema em julgamento ou que possa um dia cair em suas mãos. O que ele tem a dizer, dirá no processo, em sua decisão após se debruçar sobre as provas apresentadas.
Juízes não davam entrevistas, não iam a programas de TV. Juízes só falavam nos autos. Era assim.
Destaquemos outra frase, apresentada aos estudantes de economia já no primeiro semestre: "Não existe almoço grátis".
Em linguagem de conversa de botequim: se alguém está lhe dando alguma coisa, saiba que ela teve um custo e que a conta quase certamente lhe será apresentada em algum momento.
Jamais passaria pela cabeça de meu pai (autodidata) a possibilidade de um juiz aceitar que um empresário lhe pagasse as despesas de uma viagem, de uma hospedagem, de almoços e jantares.
Que isenção teria esse magistrado (assim concluía meu pai, em sua inocência), para julgar contra os interesses desse empresário?
O escândalo diário do Banco Master, apresentado a conta-gotas pela imprensa ao (estarrecido ou anestesiado?) povo brasileiro, me fez, pela primeira vez, considerar que, sim, ainda bem que meu pai está morto.
Seria insuportável, para ele, perceber que aquilo em que acreditou por toda a vida era somente um conto da carochinha.
