Política

Padre nega eucaristia por causa de política e diocese diz que ele errou

A Diocese de Caratinga afirmou que tomará medidas para evitar situações semelhantes

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Um padre de Pingo D’Água, em Minas Gerais, negou a Eucaristia a fiéis que apoiam o deputado Nikolas Ferreira, durante uma missa. O caso gerou ampla repercussão. A Diocese de Caratinga afirmou que a Eucaristia não deve ser usada para divisão política.

Durante a celebração da missa na Capela São Sebastião, em Pingo D’Água (MG), nesse domingo (8 de fevereiro), o padre Flávio Ferreira Alves declarou que não concederia a Eucaristia -- sacramento central da fé católica -- a fiéis que apoiassem politicamente o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

A afirmação, feita em meio à homilia, rapidamente se espalhou pelas redes sociais e desencadeou debates sobre a relação entre religião, política e os limites da atuação de líderes religiosos no espaço litúrgico.

Segundo imagens gravadas por fiéis presentes e publicadas nas redes, o padre Flávio Ferreira Alves afirmou que alguns católicos da comunidade apoiavam o parlamentar e o criticou diretamente.

Foto: Diocese de Caratinga

Padre Flávio Ferreira Alves

Em sua fala, o sacerdote vinculou o apoio político ao deputado à recusa da Eucaristia, dizendo que aqueles que concordassem com Nikolas e sua postura em relação a políticas públicas não “mereciam receber a Eucaristia” e deveriam se retirar da igreja.

A declaração ocorreu em meio a uma crítica direta ao posicionamento de Nikolas Ferreira em relação à Medida Provisória 1313/25, seu voto contra o projeto que reformulou o programa de distribuição de gás no Brasil.

O texto da MP alterou regras do anteriormente chamado “Gás dos Brasileiros”, substituindo o benefício financeiro direto pelo recebimento do botijão em locais credenciados pelo governo -- agora chamado de “Gás do Povo”.

De acordo com apoiadores do parlamentar, o deputado votou contra a medida por entender que ela poderia limitar a autonomia das famílias beneficiadas, retirando o valor em dinheiro direto para o beneficiário e passando a obrigar a retirada física do produto em pontos específicos sem prazo claro de duração do benefício.

Reações

Após a repercussão do vídeo, o deputado Nikolas Ferreira utilizou suas redes sociais para se manifestar sobre o episódio. Em sua resposta, ele criticou o uso do espaço religioso para fazer críticas políticas

Diante da repercussão, a Diocese de Caratinga -- responsável pela paróquia onde ocorreu o episódio -- divulgou uma nota oficial reafirmando o compromisso com o livre exercício da democracia e o respeito à pluralidade de opiniões dentro da comunidade católica.

A nota ressalta que o ambiente litúrgico deve ser um espaço de acolhida, paz e oração, enfatizando que a Eucaristia é um sacramento de unidade e não deve ser usada como instrumento de divisão ou exclusão.

Ainda segundo a diocese, o padre Flávio Ferreira Alves reconheceu que suas palavras foram proferidas “em um momento de forte emoção” e que tais declarações não condizem com as orientações pastorais da Igreja.

A Diocese de Caratinga afirmou que tomará medidas para evitar situações semelhantes e promoverá diálogo interno para restaurar o clima de fraternidade e respeito mútuo entre os fiéis.

Nota da Diocese de Caratinga

“A Diocese de Caratinga, por meio de seu Bispo Diocesano e em comunhão com todo o clero, vem a público manifestar-se acerca do fato isolado ocorrido durante a celebração da Eucaristia na Paróquia Santa Efigênia, em Córrego Novo e Pingo D’água, envolvendo o Padre Flávio Ferreira Alves.

A Igreja Católica de nossa Diocese de Caratinga reafirma seu compromisso inabalável com o livre exercício da democracia e com o respeito à pluralidade de opiniões. O ambiente litúrgico deve ser, primordialmente, um espaço de acolhida, paz e oração, onde todos os fiéis se sintam integrados à comunhão com Cristo, independentemente de suas convicções políticas individuais.

Informamos que o Padre Flávio Ferreira Alves reconhece que sua fala, proferida em um momento de forte emoção, não condiz com as orientações pastorais da Igreja. O sacerdote expressa seu profundo arrependimento e pede perdão a toda a comunidade e aos fiéis que se sentiram ofendidos ou excluídos por suas palavras. A Igreja ensina que a Eucaristia é o sacramento da unidade e não deve ser utilizada como instrumento de divisão ou segregação.

Diante do ocorrido, a Diocese de Caratinga assume o compromisso de tomar as devidas providências necessárias para que episódios dessa natureza não voltem a ocorrer, preservando a sacralidade da Missa. Reiteramos a nossa responsabilidade com o diálogo aberto na comunidade para restaurar o clima de fraternidade e respeito mútuo.

A Diocese de Caratinga clama ao Espírito Santo que nos conduza pelo caminho da reconciliação e que a nossa fé seja sempre um elo que nos une no amor de Deus.”

A nota é assinada pelo bispo diocesano Dom Juarez Delorto Secco.

Religião e política

O episódio reacende um debate mais amplo sobre os limites entre a prática religiosa e a atuação política dos líderes religiosos, sobretudo em uma sociedade plural e democrática. A Eucaristia, considerada pela Igreja Católica o sacramento da comunhão com Cristo, é tradicionalmente entendida como um momento espiritual reservado a todos os fiéis em estado de graça, independentemente de sua filiação ou preferência política.

Especialistas em direito canônico e teólogos frequentemente alertam que a liturgia não deve ser usada para impulsionar ou criticar posições políticas específicas, especialmente quando envolve a negação de sacramentos.