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Como o governo cubano espera sobreviver à escassez de energia

Cortes de eletricidade chegam a durar até 20 horas diárias

Foto: Pixabay | Creative Commons
Cuba: apenas 4 horas de energia por dia
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A escassez de combustível em Cuba, agravada por pressões dos EUA e pela perda do petróleo venezuelano, aprofundou a crise econômica e social. O cenário reacende especulações sobre negociações políticas, enquanto a população enfrenta apagões, desabastecimento e dificuldades crescentes.

A grave escassez de combustível em Cuba, agravada por pressões dos Estados Unidos e pela interrupção do fornecimento venezuelano, vem deteriorando rapidamente o cotidiano da população e alimentando especulações sobre possíveis mudanças políticas no país, mais de três décadas após expectativas frustradas de colapso do regime socialista.

Com o fim abrupto, em janeiro, do já reduzido fornecimento venezuelano de petróleo, que chegou a 100 mil barris diários nos anos 2000 e havia caído para cerca de 35 mil, Cuba enfrenta uma situação considerada crítica.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, tentou mitigar parcialmente o déficit enviando aproximadamente 22 mil barris por dia, como parte da compensação pela atuação de cerca de 3 mil médicos cubanos no país. No entanto, dificuldades financeiras de Havana e pressões de Washington levaram a estatal mexicana Pemex a suspender parte dos carregamentos.

Como consequência, relata o portal de notícias Gazeta do Povo, o cotidiano da população tornou-se ainda mais difícil. Filas extensas para abastecimento tornaram-se comuns, com o litro da gasolina custando mais de dois euros em um país onde o salário médio não chega a sete euros.

A falta de transporte público impede muitos trabalhadores de chegar aos seus empregos, enquanto os cortes de eletricidade chegam a durar até 20 horas diárias, devido à dependência de um petróleo nacional pesado, insuficiente e prejudicial às usinas termoelétricas.

A crise energética afeta diretamente a produção, o transporte de mercadorias e o abastecimento de alimentos, cujos preços aumentaram de forma significativa. A instabilidade no fornecimento elétrico também ameaça o acesso à água potável, já que grande parte do bombeamento depende de equipamentos elétricos instalados em residências e prédios.

Cuba produz cerca de 40% do combustível necessário para suas atividades diárias, destinado principalmente às usinas termoelétricas e fábricas de cimento. O principal gargalo está nos combustíveis leves importados, como diesel e óleo combustível, cuja escassez afetou inclusive o abastecimento de gasolina para veículos particulares.

O Granma, jornal oficial do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, informou que o Governo cubano aprovou um amplo conjunto de medidas para assegurar serviços essenciais, proteger conquistas sociais e reorganizar atividades econômicas, em resposta ao recrudescimento sem precedentes do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos e à complexa situação energética do país.

Segundo o jornal cubano, o vice-primeiro-ministro e ministro do Comércio Exterior e do Investimento Estrangeiro, Oscar Pérez-Oliva Fraga, explicou no programa televisivo Mesa Redonda que a perseguição a navios que transportam combustível para Cuba e o posicionamento de unidades navais norte-americanas no Caribe têm dificultado as importações.

Diante desse cenário, destacou a necessidade de otimizar o uso dos recursos disponíveis no país e diversificar as fontes de receitas externas para sustentar os programas de desenvolvimento econômico e social.

O dirigente afirmou que todo o combustível disponível será direcionado prioritariamente à manutenção de serviços essenciais, como saúde e abastecimento de água, além das principais atividades econômicas.

Também serão asseguradas as ações de preparação para a defesa nacional, dentro da concepção de Guerra de Todo o Povo, e, sempre que possível, preservadas as atividades geradoras de divisas, fundamentais para os programas de desenvolvimento.

No setor elétrico, o Governo mantém o programa de investimentos em parques solares fotovoltaicos, com o objetivo de acelerar a transformação do Sistema Elétrico Nacional e reduzir gradualmente a dependência de combustíveis importados.

A geração de energia continuará baseada, principalmente, nas usinas térmicas que utilizam petróleo nacional, no gás associado à produção de petróleo e nas fontes renováveis, que registraram crescimento significativo e maior participação em 2025.

Paralelamente, avança um programa de instalação de sistemas solares fotovoltaicos em nível familiar e comunitário. Estão previstos 20 mil sistemas para residências por via estatal; 10 mil em processo acelerado de entrega a profissionais da saúde e da educação; 5 mil módulos para eletrificar todas as moradias isoladas do país; e outros 5 mil destinados, no primeiro semestre, a centros sociais como lares de idosos, casas de acolhimento e serviços comunitários essenciais.

O vice-primeiro-ministro anunciou ainda a ampliação de incentivos para a instalação de fontes renováveis, inclusive permitindo, pela primeira vez, que pessoas físicas ou entidades vendam diretamente a terceiros a eletricidade que gerarem.

De acordo com o Granma, o Governo também descentralizou a importação de combustíveis, autorizando que qualquer empresa com capacidade o faça, com apoio de parceiros e países solidários. Para reduzir o consumo energético, decidiu-se concentrar as atividades administrativas essenciais de segunda a quinta-feira, buscando maior eficiência e menor impacto nos fins de semana.

Na produção de alimentos, será priorizado o aumento da produção em nível territorial, especialmente nos polos com maior potencial. O país planeja plantar 200 mil hectares de arroz em 2025, com apoio de cooperação internacional, além de fortalecer a agricultura urbana e familiar e o uso de energias renováveis na irrigação. 

No Sistema Nacional de Saúde, informou o Granma, serão assegurados os produtos fabricados no país, além de um esquema especial para pacientes crônicos, como os de hemodiálise, residentes em áreas com dificuldades de transporte. 

No turismo, será aplicado um plano de eficiência e compactação de instalações para aproveitar a alta temporada. Na cultura e no esporte, a programação será reorganizada, mantendo-se a Série Nacional de Beisebol até o fim, com medidas para reduzir o consumo de combustível.

Já nas áreas de ciência, tecnologia e comunicações, estão assegurados os recursos necessários para sistemas de alerta precoce e para a manutenção dos serviços de informação à população.

Sobre o transporte, o ministro Eduardo Rodríguez Dávila anunciou, segundo Granma, uma reorganização da mobilidade de cargas e passageiros, priorizando serviços essenciais, comércio exterior, saúde e educação. No transporte ferroviário, os trens nacionais de passageiros passarão a circular a cada oito dias, a partir de 8 de fevereiro, com alternativas específicas para o deslocamento de estudantes e professores nos períodos sem circulação.

As saídas de ônibus nacionais serão reduzidas, mantendo-se viagens diárias às capitais provinciais, com ajustes específicos para algumas rotas. O ferry entre Nueva Gerona e Batabanó realizará dois trajetos semanais, condicionados ao clima, complementados por serviços intermodais. 

A educação superior transitará para o regime semipresencial, conforme informou o ministro Walter Baluja García. O modelo será adaptado a cada curso, universidade e território, com reorganização territorial do ensino e prioridade para que estudantes em fase final concluam seus estudos. Já o processo de ingresso no ensino superior será reorganizado, com informações divulgadas pelos canais oficiais.