
Entre trios elétricos, blocos lotados e madrugadas embaladas por música alta, o Carnaval cria um ambiente singular para encontros afetivos. A pergunta que atravessa gerações, no entanto, permanece atual: romances nascidos nos dias de folia conseguem sobreviver ao fim da festa?
A neurocientista Ana Chaves desvenda como essas paixões acontecem ao explicar como o cérebro reage aos estímulos da festa e o papel dos neurotransmissores nas emoções envolvidas. “O Carnaval é uma bomba de estímulos. Tem a música alta, as cores, as multidões, a euforia coletiva. Isso tudo provoca o que a gente chama de excitação emocional, que é a liberação de muita dopamina pelo cérebro”, diz a especialista.
Segundo Ana Chaves, a dopamina é um neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. Assim, ao beijar alguém durante a festa, o folião facilmente sente atração e bem-estar. Além disso, por se tratar de uma festa associada à liberdade e à fuga das amarras sociais, a pessoa também fica mais propensa a perder a timidez, se conectar com alguém e se entregar às emoções.
A atmosfera carnavalesca reúne fatores que favorecem conexões rápidas. O clima de liberdade, a suspensão temporária de rotinas e a convivência intensa em curto espaço de tempo ampliam a sensação de proximidade emocional. Psicólogos explicam que esse contexto estimula a desinibição e potencializa a percepção de afinidade, mesmo entre pessoas que mal se conhecem.
Esse cenário, porém, também impõe limites claros. O Carnaval é um recorte da vida cotidiana, marcado por excessos e por uma temporalidade própria. Emoções vividas nesse período tendem a ser intensas, mas nem sempre sustentáveis fora dele. Quando a festa termina, retornam compromissos, expectativas e diferenças que haviam sido momentaneamente deixadas de lado.
Ainda assim, há histórias que desafiam o ceticismo. Casais que se conheceram durante a folia e mantiveram o vínculo relatam que o sucesso do relacionamento dependeu menos do contexto do encontro e mais da disposição para construir algo depois. Conversas francas, interesse genuíno e a capacidade de integrar o outro à vida real foram decisivos para que o romance não ficasse restrito à lembrança do Carnaval.
Especialistas em comportamento afetivo destacam que a pergunta central não deveria ser se o amor de Carnaval dá certo, mas em que condições ele pode evoluir. Quando a relação permanece ancorada apenas na intensidade da festa, tende a se dissipar. Quando há continuidade, com encontros fora do ambiente festivo e reconhecimento das diferenças, as chances aumentam.
Mas depois da entrega e das conexões vividas, depois que o bloco passa, será que a paixão dura?
Para a neurocientista, depois que a poeira baixa, a tendência é voltar à normalidade e nem sempre aquela paixão da folia vai encaixar bem na rotina diária.
Mas isso não deve invalidar a paixão vivida. Ela continua sendo muito especial porque não importa o tempo que durou, mas as sensações boas que ela provocou. E, claro, é possível que uma paixão de Carnaval vire amor verdadeiro e duradouro, desde que seja saudável do ponto de vista emocional.
“Para isso, três passos iniciais são necessários: identificar o desejo de levar adiante, garantir que a relação faz sentido na normalidade da vida real e conversar para alinhar expectativas. Se os dois estão em sintonia, por que não? E o conselho que eu dou é não deixar de comunicar o interesse por receio da resposta do outro. Se as duas pessoas forem de cidades diferentes, uma boa dose de confiança será o segredo”, finaliza Ana Chaves.

