
Quem foi à tradicional caminhada da Lavagem do Bonfim nesta quinta-feira (15 de janeiro), em Salvador, encontrou uma fita de 85 metros de comprimento, instalada na Avenida Jequitaia, próximo ao bairro de Água de Meninos. A iniciativa, da Prefeitura de Salvador, tem o objetivo de valorizar o trajeto até a Colina Sagrada com um novo marco visual.
A estrutura, que remete à famosa fitinha do Senhor do Bonfim, foi colocada no viaduto de acesso à Via Expressa, em frente ao Largo de Água de Meninos, local escolhido por sua relevância cultural e comercial, abrigando, entre outros pontos, o Mercado do Peixe.
Segundo o diretor de Turismo da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), Gegê Magalhães, esta é a maior fita do Senhor do Bonfim já produzida. “Como Salvador gosta de recordes, já temos o maior Carnaval de trio elétrico do mundo e, agora, a maior fita do Senhor do Bonfim, com 85 metros”, afirmou.
De acordo com Gegê Magalhães, a fita gigante será mantida em exposição durante todo o ano, funcionando como um ponto turístico e espaço para registros fotográficos. A proposta, segundo ele, é criar um novo símbolo de fé e pertencimento para a cidade.
As fitinhas do Senhor do Bonfim estão entre os símbolos mais conhecidos de Salvador e da Bahia. Presentes em igrejas, feiras e no pulso de moradores e turistas, elas vão além de um souvenir e carregam uma história ligada à fé, ao sincretismo religioso e à cultura popular, atravessando gerações como parte da identidade baiana.
A origem das fitinhas remete a um período em que o utensílio tinha outra forma e função, ainda no século XIX. Segundo o historiador Murilo Mello, a confecção era artesanal e bem diferente da atual. “A fitinha do Bonfim não tinha essa confecção em moldes industriais que conhecemos hoje. Ela era feita de cetim ou linho, muito mais bem trabalhada, bordada e com tintas na cor de ouro, além de ser bem maior do que a que vemos atualmente”, explicou.
Naquele período, o item era chamado de “medida do Bonfim”, por seguir uma proporção ligada à imagem do santo. “Essa fita seguia a medida do braço da imagem, do peito até a ponta dos dedos”, afirmou o historiador, lembrando que o termo aparece em diversas manifestações culturais. Inclusive, há canções da música popular brasileira que fazem referência, a exemplo de "Trocando em Miúdos", de Chico Buarque, lançada em 1977 no disco "Passaredo".
A produção da "medida do Bonfim" tinha relação direta com a manutenção da Igreja. “Ela começou a ser confeccionada como uma fita maior e mais elaborada, com o objetivo de angariar fundos para ajudar a Irmandade do Senhor do Bonfim”, destacou Murilo. Apesar de custar mais caro na época, o objeto teve boa aceitação. “Foi um sucesso absoluto, mesmo sendo muito mais cara naquele período”, pontuou.
Com o tempo, a forma de uso também mudou. O item era pendurado em bolsas, usado no dia a dia, colocado no pescoço e amarrado com nós. Não se usava no punho. A versão menor e mais acessível surge apenas a partir da segunda metade do século XX, quando passa a ganhar ainda mais popularidade. A partir daí, esse costume se expande e o acessório passa a inspirar outras devoções.
Painel e pórticos
Além da “fitona”, foi instalado ao longo do percurso um painel com os dizeres “A Guarda Imortal da Bahia”, trecho do hino do Senhor do Bonfim. A decoração também faz referência à maior galeria de fé católica do mundo, dedicada a Santa Dulce dos Pobres, localizada nos Dendezeiros.
A Lavagem do Bonfim deste ano também conta com painéis artísticos que fazem referência ao padroeiro da festa e das santas Dulce dos Pobres e Nossa Senhora da Conceição da Praia.
Depois que os festejos terminarem, essas estruturas vão permanecer fixas na capital baiana, reforçando o tema do Caminho da Fé, que liga as Basílicas da Conceição da Praia e do Senhor do Bonfim, passando pelo Santuário de Santa Dulce dos Pobres, na Cidade Baixa.
Os oito painéis foram confeccionados pelo artista plástico Francisco KMJ.
Mural homenageia baianas
Um mural de grafite foi inaugurado nas proximidades da Igreja do Bonfim, em Salvador, como forma de homenagear as baianas, figuras emblemáticas da Lavagem do Bonfim, uma das mais tradicionais celebrações religiosas e culturais da Bahia. A obra integra o projeto Viva Salvador.
A intervenção artística destaca a importância simbólica das baianas, protagonistas da Lavagem do Bonfim. São elas que conduzem o ritual de purificação das escadarias da Basílica com água de cheiro, flores e cantos, pedindo proteção e bênçãos para o novo ciclo. A festa, que mescla o catolicismo com as religiões de matriz africana, atrai multidões todos os anos no cortejo que parte da Igreja da Conceição da Praia em direção à Colina Sagrada.
Assinado pelos artistas Bigod e Prisk, membros do Coletivo MUSAS (Museu de Street Art de Salvador), o mural faz parte do projeto Viva Salvador: arte, fé e tradição, criado para promover a valorização do patrimônio imaterial da cidade por meio do grafite. A iniciativa integra as comemorações pelos 20 anos da Viva Agência de Ideias, sob coordenação de Paula Hazin.

O artista Prisk ressaltou o objetivo central da obra. “Hoje a gente vem com um painel homenageando as baianas, que são quem realmente fazem a Lavagem. São elas que lavam a escadaria, que nos trazem as bênçãos”, afirmou.
Morador da Cidade Baixa, Bigod compartilhou a conexão pessoal com a obra. “Cresci vendo a Lavagem, passando no meio das baianas, dos cavalos, vivendo isso desde pequeno. Deixar essa obra aqui, no meu bairro, por onde passo com meu filho para ir à escola, é muito especial. É uma forma de devolver algo para a cidade”, disse.
Para Paula Hazin, idealizadora do projeto, o grafite fortalece o vínculo entre arte, fé e espaço urbano. “As imagens unem tradição religiosa e estética urbana, fortalecendo a relação entre fé, memória e expressão contemporânea”, afirmou.
