
O fim de ano, marcado por celebrações como o Natal e o Réveillon, costuma ser associado a momentos de alegria, união e renovação. No entanto, para muitas pessoas, esse período pode acentuar sentimentos de tristeza, solidão e até sintomas de depressão.
A cobrança por felicidade, a ausência de entes queridos ou o balanço de metas não alcançadas contribuem para esse estado emocional mais vulnerável.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), dezembro costuma apresentar um aumento nos relatos de angústia e crises emocionais.
No Brasil, dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e do Ministério da Saúde indicam que sintomas como ansiedade, insônia, irritabilidade e tristeza persistente crescem de 20% a 30% nesse período, impulsionados pelo estresse acumulado do ano e pelas pressões sociais que cercam as festividades.
“A síndrome de final de ano surge quando o indivíduo se vê pressionado a dar conta de tudo ao mesmo tempo. É como se o calendário acelerasse e o corpo não conseguisse acompanhar”, explica a neurocientista e psicanalista Ana Chaves.
“É fundamental reconhecer os próprios limites. Quando o indivíduo aprende a observar suas emoções sem se culpar, ele se protege de excessos e atravessa essa fase de forma mais leve”, afirma.
Sílvia Santana, psicóloga e psicanalista, diretora do Centro de Especialização e Acompanhamento Psicológico & Psiquiátrico (CEAPP), diz que o equívoco social é acreditar que o fim de ano exige alegria obrigatória.
“Muitos pacientes relatam culpa por não se sentirem felizes nessa época. O que precisamos lembrar é que o sofrimento não tem recesso. As festas mexem com afetos profundos, com memórias e, principalmente, com expectativas irreais. Aceitar o próprio estado emocional já é, em si, um cuidado importante”, afirma.
Por que as festas causam sofrimento?
Diversos fatores influenciam a forma como as pessoas vivenciam o fim de ano. A solidão, especialmente entre idosos, pessoas que vivem longe da família ou enfrentam luto recente, pode ser intensificada pela comparação com imagens idealizadas de famílias felizes.
Outro fator importante é o encerramento simbólico do ano, que muitas vezes traz frustrações pessoais ou profissionais. "As festas funcionam como um espelho que reflete tanto conquistas quanto ausências, o que pode gerar sofrimento psíquico", afirma o psiquiatra Marcos Leal, do Instituto de Psiquiatria da USP.
Além disso, o consumo excessivo de álcool nas festas pode agravar quadros depressivos, sendo um alerta para pessoas com histórico de transtornos mentais.
Dezembro e janeiro registram aumento na procura por serviços de saúde mental. Centros de atendimento emergencial observam maior incidência de crises de ansiedade severas, recaídas depressivas e episódios de desesperança. Para quem já convive com transtornos emocionais, o período pode representar vulnerabilidade adicional - especialmente se há histórico de ideação suicida.
“O sofrimento psíquico se intensifica quando a pessoa acredita que ‘não deveria’ estar sentindo aquilo. O julgamento externo e interno pode ser devastador e, por isso, o acolhimento não é só terapêutico, mas preventivo”, explica Sílvia Santana.
Como se proteger emocionalmente
Para enfrentar o período com mais equilíbrio, a neurocientista e psicanalista Ana Chaves.recomenda estratégias práticas, como organizar antecipadamente tarefas e compromissos para evitar acúmulos, estabelecer limites saudáveis, reduzir expectativas irreais, e praticar descanso ativo, incluindo pausas, atividades prazerosas e exercícios físicos. Técnicas de respiração e momentos de silêncio também ajudam a diminuir a tensão do cotidiano.
Outro ponto importante, segundo ela, é buscar apoio quando necessário. Conversar com amigos, familiares ou profissionais de saúde mental pode aliviar o peso emocional típico dessa época. “A ideia de que precisamos encerrar o ano perfeitos é ilusória. O mais saudável é atravessar dezembro com gentileza consigo mesmo, entendendo que cada pessoa tem seu próprio tempo”, destaca Ana Chaves.
A psicóloga e psicanalista Sílvia Santana reforça que o cuidado psicológico, nestes casos, não deve ser adiado.
“A dor emocional pede atenção. Terapia não é apenas tratamento, é também prevenção. Nos consultórios, nesse período, costumamos ver pessoas que chegam sentindo vergonha de estarem mal justamente quando o mundo parece feliz e o principal papel do profissional é oferecer escuta, legitimidade e ferramentas para que elas atravessem essa fase com menos dor e mais consciência de si.”
Para enfrentar esse período de forma mais saudável, os especialistas recomendam algumas estratégias de proteção emocional, como:
-- Reduzir expectativas irreais: Evitar idealizações sobre como o fim de ano "deveria ser" ajuda a lidar melhor com a realidade.
-- Criar novos rituais: Mesmo sozinho, é possível preparar uma ceia simbólica, fazer uma caminhada, escrever metas ou mensagens de gratidão.
-- Buscar apoio: Conversar com amigos, participar de encontros comunitários ou até grupos de escuta pode amenizar a sensação de isolamento.
-- Estabelecer limites: Recusar convites que geram desconforto ou gatilhos emocionais é um ato de cuidado consigo mesmo.
-- Procurar ajuda profissional: Psicoterapia é indicada para quem enfrenta sofrimento persistente.
Construindo relações mais humanas e solidárias
O período de festas pode também ser uma oportunidade para construir vínculos mais solidários. Participar de ações voluntárias, oferecer ajuda a quem está sozinho ou apenas enviar uma mensagem de afeto pode transformar a experiência de fim de ano.


