A endometriose é uma doença relativamente comum e bastante conhecida pelos ginecologistas – estima-se que 1 em cada 10 mulheres em idade fértil sofrem com o problema.
Ainda assim, os estudos demonstram que o diagnóstico demora entre 7 a 9 anos, exatamente como aconteceu com a cantora Anitta, que contou recentemente nas suas redes sociais que descobriu ter endometriose após passar nove anos sofrendo com dores. Afinal, se é uma doença comum, por que o diagnóstico é tão demorado?
“A doença se manifesta de formas diferentes entre as mulheres, algumas passam anos com o problema sem ter sintoma nenhum. Outras têm muita dor, mas costumam confundir com cólica menstrual e achar que essa dor é normal. Em muitos casos, a mulher só vai descobrir que tem endometriose por causa da dificuldade de engravidar”, diz o ginecologista Sérgio Podgaec, do Hospital Israelita Albert Einstein ao destacar que cerca de um terço das mulheres com endometriose tem problemas para engravidar.
A endometriose é caracterizada pelo crescimento do endométrio (tecido que reveste o útero e é eliminado na menstruação) fora da cavidade uterina.
O endométrio cresce nos ovários, trompas, abdômen, em volta da bexiga e até no intestino, provocando uma inflamação ao aderir nesses outros órgãos. Os sintomas mais comuns são dor durante ou fora do ciclo menstrual (como se fosse uma cólica), dor durante a relação sexual, dor para urinar (parecido com uma infecção urinária) e dor para evacuar – mas eles podem variar bastante de mulher para mulher.
Ter dor não é normal
Segundo Podgaec, a demora no diagnóstico pode ocorrer por três fatores principais: primeiro porque em muitos casos a própria paciente considera “normal” ter dores durante o período menstrual ou durante a relação sexual, e por isso não costuma relatar esse problema durante a consulta de rotina ao ginecologista. Segundo porque quando a mulher relata as dores para o médico, pode acontecer de o médico não se aprofundar na queixa e não pedir os exames necessários.
Por fim, o terceiro fator que impacta no diagnóstico é que os exames de imagem (ultrassonografia ou ressonância magnética) precisam ser feitos por um radiologista treinado e acostumado a identificar a doença, senão o problema pode passar despercebido, especialmente nas fases iniciais.
“Não existe uma forma de evitar que a doença aconteça. Por isso é tão importante reduzirmos esse tempo de demora no diagnóstico. Quanto mais cedo a mulher souber que tem o problema e iniciar o tratamento, menos risco de a doença aumentar e se tornar mais grave”, afirmou Podgaec.
Após o diagnóstico, em geral, o tratamento é feito por meio de hormônios (DIU, comprimido ou injeção) e, dependendo da extensão das lesões, é necessário fazer uma cirurgia para remoção desse tecido que cresceu fora do útero. “Não existe tratamento melhor ou pior. Todos são muito eficazes e o controle é excelente, melhorando muito a qualidade de vida dessas mulheres. Cerca de dois terços das pacientes que fazem o tratamento com hormônio ficam bem e 90% das que fazem cirurgia também”, afirmou Podgaec.
Sintomas
-- dor em forma de cólica durante o período menstrual que pode incapacitar as mulheres de exercerem suas atividades habituais
-- dor durante as relações sexuais
-- dor e sangramento ao urinar e evacuar, especialmente durante a menstruação
-- fadiga
-- diarreia
-- dificuldade de engravidar
A infertilidade está presente em cerca de 40% das mulheres com endometriose.
Tipos
Os locais comuns da endometriose são: ovários, peritônio pélvico, trompas e nas áreas entre o útero, vagina e o reto (septo retovaginal). Sendo menos comum no intestino, bexiga, diafragma, vagina e parede abdominal.
Dependendo da área afetada será classificada por uma subcategoria do CID-10:
-- N80.0 Endometriose do útero
-- N80.1 Endometriose do ovário
-- N80.2 Endometriose da trompa de falópio
-- N80.3 Endometriose do peritônio pélvico
-- N80.4 Endometriose do septo retovaginal e da vagina
-- N80.5 Endometriose do intestino
-- N80.6 Endometriose em cicatriz cutânea
-- N80.8 Outra endometriose
-- N80.9 Endometriose não especificada
Causa - No momento da menstruação, parte do sangue eliminado passa pelas trompas e cai dentro da barriga. Esse sangue contém células que têm a capacidade de crescer em locais como o ovário. Quando o sistema imunológico responsável pela defesa do organismo não consegue eliminar essas células, a doença endometriose se estabelece.
Diagnóstico - O exame ginecológico clínico é o primeiro passo para o diagnóstico, que pode ser confirmado por exames laboratoriais e de imagem, porém, o diagnóstico de certeza, depende da realização de biópsia.
Complicações - Qualquer órgão na cavidade abdominal, bacia, pode ser afetado. Quando a doença surge nos ovários pode provocar o aparecimento de um cisto denominado endometrioma, de tamanho grande e que compromete a capacidade de a mulher engravidar. Outros órgãos também podem ser acometidos, como, parte do intestino grosso, bexiga, apêndice e vagina.
Tratamento - A endometriose é uma doença crônica que regride espontaneamente com a menopausa, em razão da queda na produção dos hormônios femininos e fim das menstruações. Mulheres mais jovens podem utilizar medicamentos que suspendem a menstruação; lesões maiores de endometriose, em geral, devem ser retiradas cirurgicamente. Quando a mulher já teve os filhos que desejava, a remoção dos ovários e do útero pode ser uma alternativa de tratamento.
Tratamentos com plantas medicinais - Em uma metanálise foram identificados os compostos bioativos derivados de plantas específicos mais estudados são resveratrol, epigalocatequina-3-galato, curcumina, puerarina, ginsenosídeos, xantohumol, álcool 4-hidroxibenzílico, quercetina, apigenina, ácido carnósico, ácido rosmarínico, wogonina, baicaleína, partenolídeo e canabinolídeo , com evidências sólidas sobre sua atividade inibitória em modelos experimentais de endometriose.
Prevenção - Como a endometriose é de difícil diagnóstico, vale reforçar a importância das consultas regulares ao ginecologista como forma de prevenção e detecção precoce da doença.
Fatores de risco - A predisposição genética desempenha um papel na endometriose. Filhas ou irmãs de mulheres com endometriose estão em maior risco de desenvolver a endometriose; baixos níveis de progesterona podem ser genéticas e pode contribuir para um desequilíbrio hormonal. Há uma incidência de cerca seis vezes maior em mulheres com um parente de primeiro grau afetado.
Endometriose profunda
É uma das apresentações da endometriose. Atualmente consideramos que existem três formas de endometriose. A superficial, a ovariana (o endometrioma de ovário) e a profunda. São consideradas profundas as lesões que ultrapassam 5 mm abaixo do epitélio peritoneal. As lesões profundas podem acometer outros orgãos como o intestino, bexiga e ureter. Os segmentos intestinais mais atingidos(90%) são sigmóide e reto.
Cerca de 10 a 15% das mulheres com endometriose apresentam acometimento intestinal. Os sintomas normalmente apresentados por essas pacientes , além das cólicas habituais e infertilidade, são dor para evacuar principalmente durante o período menstrual e em casos mais raros sangramento intestinal.
O diagnóstico de endometriose profunda depende, como primeira etapa, de detalhada anamnese, atentando-se para os sintomas citados, e cuidadoso exame físico. Neste o especialista pode notar lesões nos ligamentos úterossacrais e paramétrios, além de posição anômala do útero. Recomenda-se que, diante da suspeita de endometriose profunda, solicite-se ressonância magnética de pelve ou ultrassom transvaginal com preparo de cólon. Desta forma o diagnóstico fica fortalecido além de possibilitar a programação do tratamento individual.
O tratamento pode ser clínico (medicamentoso) ou cirúrgico, pela videolaparoscopia. Deve ser individualizado e discutido cuidadosamente com cada paciente. Para algumas mulheres pode ser vantajoso iniciar pelo tratamento medicamentoso. Em alguns casos o tratamento cirúrgico é obrigatório.
Atualmente a maioria das cirurgias para endometriose profunda são realizadas por videolaparoscopia. O objetivo do tratamento é a redução máxima das lesões sendo por vezes necessário retirar o segmento intestinal acometido.
Recomendações para lidar com a endometriose
-- Não imagine que a cólica menstrual é um sintoma natural na vida da mulher. Procure o ginecologista e descreva o que sente para ele orientar o tratamento
-- Faça todos os exames necessários para o diagnóstico da endometriose, uma doença crônica que acomete mulheres na fase reprodutiva e interfere na qualidade de vida
-- Inicie o tratamento adequado ao seu caso tão logo tenha sido feito o diagnóstico da doença
-- Saiba que a endometriose está entre as causas possíveis da dificuldade para engravidar, mas a fertilidade pode ser restabelecida com tratamento adequado.
