Hoje, 25 de novembro, é comemorado o Dia Nacional da Baiana de Acarajé. Há 35 anos uma missa na Igreja Ordem 3ª do Rosário de Nossa Senhora às Portas do Carmo (conhecida popularmente como Igreja Nossa Senhora do Rosário do Pretos) é realizada em homenagem às baianas de acarajé. A celebração é organizada pela Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivos e Similares (Abam).
A missa foi celebrada pelo padre e capelão da Ordem 3ª de Nossa Senhora às Portas do Carmo, Lázaro Muniz. De acordo com o pároco, a missa , além de enaltecer as baianas, celebra a cultura afrodescendente tão predominante no ofício das baianas de acarajé.
"Aqui, louvamos ao Nosso Senhor Jesus Cristo acima de tudo, mas, sem deixar os elementos da cultura afro de lado. A missa é importante para lembrar as pessoas que o ofício das baianas de acarajé é um legado para a cultura afro-brasileira e a sua contribuição para tal é indiscutível", assevera .
O padre também salienta que este dia também serve para alertar aos soteropolitanos que as baianas de acarajé ainda mantêm dificuldades para vender os quitutes e ter as demandas da categoria atendidas.
Os cânticos da missa são entoados com instrumentos típicos da cultura afro - brasileira como a percussão, agogô, atabaque e meia-lua.
No entanto, "nem tudo são flores" neste dia. Rita Maria Ventura dos Santos (63 anos), coordenadora geral da
associação,demonstra insatisfação com a falta de apoio governamental para gerir a Abam.
" O dia da baiana é todo o dia, diga-se de passagem. É neste dia que muitas baianas de encontram. Passam um ano sem se ver e muitas vêm se encontar neste dia. O nosso ofício é importante para a cultura afro- brasileira. Somos história, somos resstência, o nosso ofício é patrimônio e mesmo assim, a Abam não recebe um auxílio sequer do governo municipal e estadual. É extremamente complicado gerir uma associação com mais de 3 mil baianas associadas sem apoio governamental, sem investimento. A imagem da baiana é veículada à exaustão quando querem divulgar a Bahia como destino turístico. Mas para nós, cadê a ajuda? Cadê o diálogo conosco? Para eles nós somos invisíveis e isso é muito triste", disse.
"Acarajé é uma comida de resistência”, diz professor e doutor - Para Fábio Batista Lima, doutor em Estudos Étnicos Africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBa) o quitute é o símbolo da baianidade.
"O acarajé é símbolo da identidade da cultura negra . É um marco da ancestralidade africana na Bahia . Deve ser respeitado por contar uma história e não ser chamado de outro nome, como Bolinho de Jesus e afins”, diz o especialista.
Ele conta que a palavra acará (que em iorubá significa ‘comer fogo’) é o nome de uma comida dedicada a Iansã a deusa dos raios.
"Iansã estava esperando nove filhos. Ela foi a um oráculo e este disse que ela não podia comer carne de carneiro e ela comeu e isso fez com que os filhos nascessem mortos, ou seja, ela não cumpriu as prescrições que deveria fazer. Uma forma de retribuir a ela é oferecer os nove filhos mortos, o feto em volta do sangue ( o azeite de dendê), que é o acará. Já o Jé é o verbo comer. Daí vem a palavra acarajé, que significa comer bola de fogo”, explica o doutor.
No Brasil Colonial, as ganhadeiras (escravas que realizavam tarefas remuneradas e repassavam os ganhos ao senhor de engenho) trouxeram a feitura do acarajé para o Brasil e vendiam o bolinho à noite.
"Elas iam mercando de porta em porta . Foi dessa maneira que muitas escravas conseguiram comprar a sua alforria e ganhar a liberdade. Vender acarajé virou profissão e resistência para estas mulheres”, complementa o professor.
