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Próximo presidente encontrará
82% das famílias endividadas

Comprometimento recorde da renda reduz a capacidade de consumo, no País

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O próximo presidente encontrará famílias com renda mais comprometida por dívidas, inadimplência recorde e maior uso de crédito caro. O cenário reduz a capacidade de consumo, aumenta a vulnerabilidade das famílias de baixa renda e pode limitar a atividade econômica, mesmo com a queda da Selic.

O presidente que assumir o país em janeiro de 2027 encontrará as famílias brasileiras com uma parcela recorde da renda comprometida com dívidas, inadimplência elevada e maior participação de modalidades caras nas novas operações de crédito.

O quadro representa um desafio que começa no orçamento doméstico, mas pode alcançar a atividade econômica ao reduzir o dinheiro disponível para o consumo.

O crédito continua crescendo. Em agosto de 2026, o saldo destinado às pessoas físicas chegou a R$ 4,67 trilhões, cerca de 35% do Produto Interno Bruto (PIB), com aumento de 10,5% em 12 meses. Descontada a inflação, a expansão foi de 6,0%.

O crescimento, porém, ocorre simultaneamente à deterioração de indicadores da capacidade de pagamento das famílias.

O fenômeno é analisado pelos economistas Pedro Avelino, Flávio Ataliba Barreto e João Mário Santos de França, em artigo publicado no Blog do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

Segundo os autores, não há contradição entre expansão do crédito e aumento das dificuldades financeiras. O saldo pode continuar crescendo enquanto as novas contratações migram para modalidades de prazo menor e custo maior.

Essa combinação deixa para o próximo governo uma restrição importante: o consumo permanece essencial para a atividade econômica, mas parte crescente da renda das famílias já está comprometida com dívidas.

Quase 30% da renda vão para dívidas

O tamanho da pressão aparece com maior clareza no comprometimento da renda.

Em julho, 28,7% da renda mensal das famílias estavam destinados ao pagamento de dívidas, segundo dados do Banco Central citados pelos economistas. O percentual igualou o maior valor da série histórica, iniciada em 2005.

O endividamento, indicador que relaciona o estoque das dívidas à renda acumulada em 12 meses, chegou a 49,9%, também no maior nível da série.

Outro levantamento mostra como as dívidas se disseminaram pelo país. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em agosto. É o maior percentual desde o início da série, em 2010.

Ter dívida não significa necessariamente enfrentar problemas financeiros. O crédito permite antecipar consumo e financiar imóveis, veículos, educação e outros gastos.

A situação se torna mais delicada quando as prestações passam a absorver uma parcela crescente do orçamento. Quanto maior o comprometimento da renda, menor a capacidade de uma família para enfrentar despesas inesperadas, perda de renda ou desemprego.

Inadimplência chega ao maior nível da série

A dificuldade também aparece nas carteiras dos bancos.

Em agosto, a inadimplência das pessoas físicas alcançou 6,0% da carteira, maior percentual da série do Banco Central iniciada em 2011. Nas operações com recursos livres, que incluem modalidades como cartão e crédito pessoal, chegou a 8,0%, também um recorde.

No crédito direcionado, a taxa atingiu 3,6%, mais que o dobro do nível registrado no início de 2025. No crédito rural, alcançou 9,7%.

Parte da elevação tem origem contábil. A Resolução CMN nº 4.966 alterou critérios aplicáveis às operações de crédito.

Segundo o Banco Central, conforme informação reproduzida por Avelino, Barreto e França, a mudança responde por aproximadamente 40% do aumento da inadimplência no sistema financeiro entre dezembro de 2024 e junho de 2026.

Esse efeito, entretanto, vem perdendo importância.

Os economistas mostram que, nas primeiras estimativas realizadas em meados de 2025, a alteração contábil respondia por cerca de 70% da alta. A participação caiu para 51% no fim daquele ano e chegou a aproximadamente 40% em junho de 2026.

Para os autores, a redução sugere que uma parcela crescente da deterioração do indicador passou a refletir atrasos efetivos nos pagamentos.

Famílias recorrem a modalidades mais caras

Há outro sinal de vulnerabilidade na composição das operações.

Em 12 meses até agosto, o saldo do rotativo do cartão cresceu 21,0%, aproximadamente o dobro da expansão do crédito total às famílias.

É uma diferença importante porque o rotativo está entre as modalidades mais caras do sistema financeiro. Em agosto, os juros médios chegaram a 444,9% ao ano, equivalentes a aproximadamente 15% ao mês.

Ao mesmo tempo, as novas concessões de crédito livre às famílias recuaram 1,3% no trimestre encerrado em julho em relação aos três meses anteriores. A queda ficou concentrada principalmente nas modalidades de prazo mais longo.

O movimento foi diferente nas linhas utilizadas para necessidades financeiras imediatas. Rotativo e parcelado do cartão e cheque especial continuaram avançando.

Segundo Avelino, Barreto e França, a composição das novas contratações está, portanto, se deslocando em direção a modalidades de prazo menor e custo maior.

Os dados agregados não permitem determinar por que cada família contraiu uma nova dívida. Os economistas observam, contudo, que o crescimento simultâneo das linhas emergenciais, da inadimplência e do comprometimento da renda é compatível com situações nas quais famílias pressionadas financeiramente recorrem ao crédito para despesas correntes, imprevistos ou pagamento de dívidas anteriores.

Queda da Selic demora a chegar ao consumidor

O início do ciclo de redução dos juros básicos pode proporcionar algum alívio, mas a transmissão para o consumidor não é imediata.

Em setembro, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic para 13,75% ao ano, no quinto corte consecutivo desde março.

Em agosto, entretanto, o custo médio do crédito livre para pessoas físicas ainda havia aumentado. A taxa passou de 60,3% ao ano em julho para 61,7%.

Nas modalidades emergenciais, a redução pode ser ainda mais lenta. Além da Selic, as taxas cobradas incorporam outros componentes, entre eles o risco de inadimplência.

O resultado é uma combinação adversa: famílias com orçamento pressionado recorrem a modalidades mais caras justamente quando a deterioração da capacidade de pagamento aumenta o risco associado às operações.

Pressão sobre as famílias chega ao consumo

A questão deixa de ser exclusivamente financeira quando o comprometimento da renda começa a reduzir a capacidade de consumo.

No segundo trimestre de 2026, o consumo das famílias caiu 0,4% em relação aos três meses anteriores, com retração concentrada nos bens, segundo os dados apresentados pelos economistas.

No mesmo período, o PIB brasileiro cresceu 0,5%, conforme o IBGE.

Os números mostram movimentos diferentes dentro da economia: o PIB ainda avançou, mas um de seus componentes fundamentais perdeu força.

Quanto maior a parcela da renda utilizada para pagar prestações e juros, menor tende a ser o espaço para gastos com outros bens e serviços. Esse é um dos canais pelos quais o peso das dívidas pode chegar à atividade econômica antes mesmo de ocorrer uma retração no estoque total de crédito.

Os bancos também demonstram maior cautela. Na Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito do Banco Central divulgada em agosto, as instituições relataram maior restrição na oferta de crédito ao consumo no segundo trimestre e expectativa de aperto adicional no terceiro.

O risco apontado pelos economistas não é de uma interrupção repentina das concessões, mas de crédito progressivamente mais seletivo justamente quando parte das famílias apresenta menor capacidade de assumir novas dívidas.

Famílias de baixa renda concentram a pressão

O problema não se distribui igualmente entre os brasileiros.

Em agosto, 85,1% das famílias com renda de até três salários mínimos estavam endividadas e 38,8% tinham contas em atraso.

Entre aquelas com renda superior a dez salários mínimos, os percentuais eram de 72,3% e 14,9%, respectivamente.

A proporção de famílias com pagamentos atrasados entre as de menor renda era, portanto, cerca de duas vezes e meia a registrada entre as famílias de maior renda.

A faixa de até três salários mínimos também foi a única na qual aumentou, em agosto, a parcela de famílias com contas atrasadas. Nesse grupo, 18,3% declararam não possuir condições de pagar os débitos vencidos.

A renda também começou a perder força. O rendimento médio real do trabalho caiu 0,6% no trimestre encerrado em julho, com a redução concentrada entre os trabalhadores informais, segundo os dados analisados por Avelino, Barreto e França.

A combinação torna as famílias de baixa renda particularmente vulneráveis. Com menor capacidade de formar reservas, elas dispõem de menos espaço para absorver uma perda de renda, desemprego ou uma despesa inesperada sem recorrer novamente ao crédito.

Um problema que atravessa o orçamento e a economia

O quadro que chegará ao próximo mandato não é de retração generalizada do crédito. É mais complexo.

O crédito continua crescendo, mas parte dessa expansão ocorre em modalidades caras. Ao mesmo tempo, o comprometimento da renda e a inadimplência alcançaram níveis recordes, enquanto os bancos demonstram maior cautela para conceder novos empréstimos.

A queda da Selic abre a possibilidade de redução do custo do crédito, mas os dados mostram que esse efeito não chega imediatamente às famílias, principalmente nas modalidades emergenciais.

O desafio econômico associado ao endividamento estará justamente nessa combinação. Se uma parcela elevada da renda continuar destinada ao pagamento de dívidas, haverá menos espaço para o consumo.

Se as condições de crédito permanecerem caras, a reorganização financeira das famílias se torna mais difícil. E, se a atividade econômica perder força, a vulnerabilidade tende a ser maior entre os brasileiros de menor renda.

Por isso, Avelino, Barreto e França chamam atenção para uma distinção essencial: observar apenas o crescimento do volume de crédito já não é suficiente para avaliar a situação financeira das famílias. É necessário considerar quem toma esses recursos, em quais modalidades, a que custo e com quanto da renda já comprometida.

São essas condições, mais do que o simples tamanho da carteira de crédito, que ajudam a dimensionar um dos problemas econômicos que estarão sobre a mesa do governo que começa em 2027.