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Economia cresce menos e inflação continua acima da meta em 2026

Banco Central vê atividade mais fraca, sobretudo em indústria, serviços e consumo das famílias

Menos crescimento em 2026
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O BC reduziu para 1,8% a previsão do PIB de 2026 diante da perda de força da atividade, mas ainda projeta inflação de 5,2%. Indústria, serviços e consumo enfraquecem, enquanto inflação de serviços, expectativas desancoradas e riscos externos mantêm cautela sobre os juros.

O Banco Central (BC) reduziu de 2% para 1,8% a previsão de crescimento da economia brasileira em 2026. Ao mesmo tempo, manteve em 5,2% a projeção para a inflação no fim do ano, indicando um cenário em que a atividade perde força, mas as pressões sobre os preços ainda dificultam a convergência para a meta.

As novas estimativas constam do Relatório de Política Monetária (RPM) divulgado nesta quinta-feira (24). Para 2027, o BC prevê crescimento de 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB).

A revisão para baixo do PIB ocorre após uma avaliação menos favorável sobre a composição do crescimento no segundo trimestre e diante de indicadores iniciais do terceiro trimestre que apontam atividade mais fraca.

A economia brasileira cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, depois de avançar 1,1% nos três primeiros meses do ano. Além da desaceleração do resultado agregado, o Banco Central identificou perda de força em componentes mais sensíveis ao ciclo econômico.

Na comparação com o relatório anterior, a projeção de crescimento da indústria em 2026 caiu de 2,3% para 1,5%. Para os serviços, passou de 1,9% para 1,7%.

A agropecuária seguiu na direção contrária: a estimativa de expansão subiu de 1,7% para 2,8%.

Pelo lado da demanda, uma das revisões mais relevantes ocorreu no consumo das famílias. A projeção de crescimento caiu de 2,1% para 1,2%.

Já a estimativa para a Formação Bruta de Capital Fixo, indicador associado aos investimentos na economia, passou de 1,5% para 2%. A previsão para o consumo do governo aumentou de 2% para 2,2%, enquanto a das importações passou de 2% para 3,5%. A projeção para as exportações foi mantida em 3%.

A desaceleração ocorre em um ambiente no qual os efeitos dos juros elevados vêm sendo transmitidos gradualmente para a economia. O Comitê de Política Monetária (Copom) avalia que o enfraquecimento da demanda é parte do processo necessário para reduzir o desequilíbrio entre oferta e demanda e favorecer a convergência da inflação para a meta.

Inflação caiu nos últimos meses, mas BC ainda vê pressão

A perda de ritmo da economia ocorre ao mesmo tempo em que a inflação corrente apresenta desaceleração. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses caiu de 4,72% em maio para 4,22% em agosto.

A melhora recente, porém, ainda não é suficiente para levar as projeções do Banco Central ao centro da meta.

No cenário de referência do Copom, a inflação acumulada em quatro trimestres deve chegar a 5,2% no fim de 2026, recuar para 3,9% em 2027 e atingir 3,2% no primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária.

A meta contínua de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Isso corresponde a uma faixa de 1,5% a 4,5%.

Desde 2025, o cumprimento da meta é avaliado com base na inflação acumulada em 12 meses, apurada mensalmente, e não apenas pelo resultado fechado de cada ano.

Por que a inflação preocupa 

O cenário combina forças em direções diferentes.

De um lado, a atividade econômica mais fraca tende a reduzir pressões de demanda. O próprio Copom considera o arrefecimento da demanda agregada importante para aproximar a inflação da meta.

De outro, o Banco Central ainda identifica riscos capazes de manter os preços pressionados.

Entre eles estão a inflação de serviços mais resistente, as expectativas de inflação acima da meta e um hiato do produto positivo — expressão usada para indicar uma economia operando acima do nível considerado compatível com a estabilidade dos preços.

O Copom também aponta como riscos de alta uma eventual desancoragem mais prolongada das expectativas, efeitos de choques envolvendo petróleo e derivados, problemas climáticos que afetem a produção agrícola e os custos de energia, uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada e estímulos à demanda que elevem o consumo acima do esperado.

No sentido contrário, uma desaceleração mais forte da economia brasileira, uma perda de ritmo mais intensa da atividade global ou uma queda dos preços das commodities poderiam contribuir para uma inflação menor.

O BC estima que a probabilidade de o IPCA ultrapassar o limite superior do intervalo de tolerância em 2026 aumentou de 79% para 90%. Para 2027, passou de 28% para 33%.

Mercado de trabalho ainda limita a desaceleração das pressões

Apesar da perda de força da atividade, o mercado de trabalho continua sendo descrito pelo Banco Central como aquecido.

Essa combinação é importante para a inflação porque um mercado de trabalho apertado pode sustentar renda, consumo e, especialmente, preços de serviços mesmo quando outros segmentos da economia já apresentam desaceleração.

Por isso, a perda de ritmo do PIB não significa automaticamente queda rápida da inflação. Para o BC, a inflação de serviços e as expectativas inflacionárias continuam entre os elementos relevantes para a condução dos juros.

Na reunião de setembro, o Copom reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano. Foi o quinto corte consecutivo.

Apesar da redução, o comitê mantém a avaliação de que a política monetária precisa permanecer restritiva para favorecer a convergência da inflação à meta.

O Copom afirma que o cenário combina incerteza elevada, expectativas de inflação desancoradas e riscos maiores do que o usual. Por isso, indica cautela na definição dos próximos passos da política monetária.

Cenário externo também permanece incerto

O ambiente internacional completa o quadro de riscos acompanhado pelo Banco Central.

Segundo o Copom, permanecem as incertezas relacionadas aos conflitos no Oriente Médio e aos seus possíveis efeitos sobre preços de commodities e insumos, além das dúvidas sobre a condução da política monetária nas principais economias avançadas.

Oscilações nesses fatores podem chegar ao Brasil por diferentes canais, incluindo preços internacionais, condições financeiras e taxa de câmbio, com possíveis efeitos sobre a inflação doméstica.

BC prevê crescimento ainda menor em 2027

Para 2027, a primeira projeção do Banco Central aponta crescimento de 1,4% do PIB.

Segundo a autoridade monetária, a estimativa considera, entre outros fatores, uma política monetária ainda contracionista, pouca ociosidade dos fatores de produção, incerteza elevada no ambiente internacional e redução dos impulsos fiscal e creditício.

A projeção mostra que, no cenário do BC, a desaceleração não se limita aos últimos meses de 2026. Ao mesmo tempo, a inflação projetada permanece acima do centro da meta durante todo o horizonte considerado, ainda que recue gradualmente depois deste ano.