Uma pertinente crônica de um certo escrevinhador denominado Manassés, detentor de uma coluna da revista quinzenal “Ilustração Brasileira” denominada “Histórias de Quinze Dias”, foi redescoberta um ano antes de seu sesquicentenário, por ocasião do histórico julgamento de um ex-presidente que se orgulhava de não ler livros. Numa decisão cautelar, a antecipar o juízo promulgado no ano seguinte, o Supremo Tribunal brasileiro precisou lembrar ao encarcerado e intelectualmente desprovido ex-presidente que a “soberania nacional é a coisa mais bela do mundo, com a condição de ser soberania e de ser nacional” [1]. Tal texto foi originalmente publicado em 1º de outubro de 1876.
A sesquicentenária publicação pertencia aos irmãos e artistas alemães Heinrich Fleiuss (1823 - 1882) e Karl Fleiuss (c. 1824 - ?), e propunha um jornalismo literário, misturando belas ilustrações e obras de arte, incluindo excepcionais caricaturas, com textos que refletiam acerca da sociedade da época. Uma crônica em particular, de 15 de agosto de 1876, da mesma lavra manasseísta, assim iniciava, após se referir às qualidades de animais como cachorros, gatos, cavalos e burros (estes últimos que particularmente não mereceriam tal alcunha - ao contrário, segundo o mesmo autor): “E por falar neste animal, publicou-se há dias o recenseamento do império, do qual se colige que 70% da nossa população não sabe ler.”
Com fina ironia, o cronista continuava: “Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, as vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases; o algarismo não tem frases, nem retórica.”
E continuava: “Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país, dirá: – Quando uma constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas câmaras; as câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidelis Telles de Meirelles Quelles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.”
“A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade”, de acordo com o cronista: “– A nação não sabe ler. Ha só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses, uns 9% não lêem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meirelles Quelles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pôde querer ou pensar. 70% de cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber porque nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, – por divertimento. A constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de estado.”
“Replico eu: – Mas, Sr. algarismo, creio que as instituições …”
Ao cabo que o cronista finalizava o argumento assim:
“– As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas – “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.”
Ao que concluiu:
“E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.”
Manassés foi um pseudônimo apropriado, escolhido a dedo pelo cronista que visava disfarçar sua negritude, bem como origem humilde, dando condição de tratar de temas polêmicos ao tempo que evitava retaliações. Não à toa tal autor tratou do fim da escravidão, do direito ao voto universal (i.e, incluindo mulheres), de política e de soberania, entre outros magníficos textos, contos, poesias, peças teatrais, etc. O escritor em questão chamava-se Joaquim Maria Machado de Assis (1839 - 1908), que além de romancista, poeta, jornalista, contista, teatrólogo e crítico literário, era seguramente o maior entre todos por dominar com maestria diversos gêneros da literatura. Foi o fundador da cadeira representada pelo algarismo 23 da Academia Brasileira de Letras, por sinal um belo número que é apenas divisível por si mesmo e pela unidade.
O texto machadiano cai como uma luva, a representar a percepção de eleitores frente a representantes de uma câmara que poderia ser a descrita pela imprensa hoje.
Os algarismos se referem uma das invenções mais extraordinárias da humanidade, particularmente ao nome de um sábio astrônomo, geógrafo e matemático persa chamado Abu ‘Abd Allah Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi (c. 780 - c. 850), também conhecido como Al-Kharismi, Al-Khwarizmi ou ainda Alcuarismi. Por volta do ano 813 escreveu a obra “Al-Kitab al-mukhta?ar fi ?isab al-jabr wa-l-muqabala”, onde as palavras al-jabr e wa-l-muqabala significam restauro e balanceamento, respectivamente. Numa tradução livre, o título da obra seria algo como: “Livro de Compêndios de Cálculo e da Arte de Restauro e Balanceamento.”
Pouco se sabe da origem do grande matemático. Seu sobrenome indica que era da região de Khwarazm (ou Corásmia, em português), onde vivia a extinta civilização Khwarezmian, atualmente parte de um território entre os atuais Turquemenistão e Uzbequistão. Suas obras foram traduzidas para o latim ainda no século XII e se tornaram referência nas universidades medievais européias. Conseguiu unir saberes de diferentes culturas e promover o raciocínio abstrato e sistemático, ajudando a lançar os alicerces da matemática moderna.
Como exemplo, a origem da palavra álgebra surgiu diretamente do título deste livro, e tanto algoritmo quanto algarismo provêm da derivação do nome deste sábio persa, homenagens estas mais que significativas e merecedoras, bem preservadas pela língua portuguesa. Livros antigos referem-se a álgebra como uma prática matemática de se descobrir coisas desconhecidas, ou ainda incógnitas, palavra esta de origem latina (in + cognitus). Uma representação de algo escondido, o desconhecido, desta coisa, surgiu e permaneceu até hoje por meio de duas linhas cruzadas na forma de um xis, e simbolizada pela respectiva letra do alfabeto. Em árabe, xis soa similar à palavra shay.
Uma outra origem da palavra árabe shay, que significa coisa (i.e., algo indefinido), remete a célebre brincadeira de esconder algo em uma das mãos e pedir que alguém adivinhe em qual delas está, sendo que ambas são apresentadas ao se cruzar os braços, formando um xis. Muitas crianças brincam pedindo para adivinhar em que mão fechada está escondida alguma coisa, sendo apresentadas as duas mãos cruzando-se os braços.
Em álgebra busca-se resolver problemas do tipo: “o dobro de um número mais quatro é igual a dez. Que número é esse?” Pode-se interpretar a mesma questão de outras maneiras, como por exemplo: “qual é o número cujo dobro dele, somado de quatro unidades, resulta em dez?”
Há mais de uma maneira de se resolver tal questão. Nas escolas busca-se desenvolver entre crianças e jovens procedimentos e práticas que visam resolvê-la. Uma das mais simples consiste em supor um valor ou quantidade, denominado de palpite ou ainda chute, e verificar se o mesmo, substituindo a coisa, ou incógnita, soluciona o problema. No caso, há apenas um número, representado por um dígito ou ainda algarismo, que responde à indagação sobre qual valor (shay), quando dobrado e acrescido de quatro, resulta em dez. Portanto, existe um número, entre todos os existentes, rotulado comumente de xis, cujo dobro dele, somado de quatro, resulta em dez. Em linhas gerais, este é o princípio da álgebra, onde o número xis é restaurado a partir de procedimentos usuais de soma, subtração, multiplicação ou divisão devidamente balanceados.
Números precisam ser distinguidos de suas representações, denominadas de numerais, desenvolvidos por diversas culturas hindus e árabes ao longo de séculos, sendo que o zero, uma concepção hindu, remonta ao século III. Inspirado por antigas tradições hindus, al-Khwarizmi disseminou os conhecidos numerais 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e o 0 em sua obra, e que são mundialmente reconhecidos hoje.
Na crônica machadiana, o Senhor algarismo é introduzido de modo correto, como substantivo comum, e não próprio. Diverso do grande escritor, é possível sim escrever frases por meio de algarismos, mais precisamente sentenças numéricas estabelecidas por meio de uma equação, como a vinculada a questão envolvendo a incógnita acima, ou ainda ao afirmar que cinco é maior do que quatro, representando uma desigualdade ou inequação. Na verdade, há três frases impactantes e escritas em sequência pelo álter ego de Manassés, envolvendo percentuais numéricos dos algarismos 30 e 70.
Mestre da ironia, ao ponto de rimar um nome próprio em sua crônica, o álter ego machadiano acertou em cheio ao afirmar que a nação não sabe ler. Além do analfabetismo há muito conhecido, que na época era de 70 % da população e hoje bastante reduzido, apesar disto há o analfabetismo matemático, mais conhecido modernamente por inumerismo, ainda existente e bem colocado pelo maior escrevinhador brasileiro. Não conhecer algarismos é desconhecer o que se vale, sobre o que se pensa, e o que se pretende. Deste modo, como bem assinalado pelo Senhor algarismo que já ocupou a cadeira 23 da vetusta Academia Brasileira de Letras, ainda se vota como se vai a uma festa, por divertimento, e nem sempre por mera obrigação cívica.
Saber matemática vai muito além de dominar a aritmética, a geometria ou mesmo a álgebra ou ainda decorar meras regras e formulas; é, fundamentalmente, saber ler e compreender o mundo ao resolver problemas reais. Se a linguagem abstrata utilizada afasta as pessoas em vez de fazer sentido na vida de alguém, a matemática deixa de ser uma ferramenta de libertação e passa a ser apenas um enigma sem propósito. A missão de qualquer escola deveria garantir que os algarismos sirvam para esclarecer e clarear a realidade, e não para confundi-la, tornando-a sombria e sem sentido.
As instituições não podem existir apenas para uma pequena fração de cidadã(o)s, pois não são representativa(o)s do povo. O Senhor algarismo precisa se fazer presente nas mais importantes e soberanas discussões brasileiras, para que se tenha base segura do que se quer e se pretende, soberanamente.
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Professor Titular da Escola Politécnica, Departamento de Engenharia Química da UFBA e pesquisador do SENAI-CIMATEC
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III
E por fallar neste animal, publicou-se ha dias o recenceamento do imperio, do qual se collige que 70% da nossa população não sabe ler.
Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metaphoras. Elles dizem as cousas pelo seu nome, as vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingenuos. As lettras fizeram-se para phrases; o algarismo não tem phrases, nem rhetorica.
Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo fallar do nosso paiz, dirá:
– Quando uma constituição livre poz nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas camaras; as camaras são a representação nacional. A opinião pública deste paiz é o magistrado ultimo, o supremo tribunal dos homens e das cousas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidelis Telles de Meirelles Quelles; ella possue nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.
A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade.
– A nação não sabe ler. Ha só 30% dos indivíduos residentes neste paiz que podem ler; desses, uns 9% não leem letra de mão. 70% jasem em profunda ignorancia. Não saber ler é ignorar o Sr. Meirelles Quelles: é não saber o que elle vale, o que elle pensa, o que elle quer; nem se realmente pôde querer ou pensar. 70% de cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber porque nem o que. Votam como vão à festa da Penha, – por divertimento. A constituição é para elles uma cousa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de estado.
Replico eu:
– Mas, Sr. algarismo, creio que as instituições …
– As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estylo politico. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas – “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%. A opinião pública é uma metaphora sem base: ha só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na camara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.
E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se elle fallar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e elle tem o recenceamento. [2]
[1] “A soberania nacional é a cousa mais bela do mundo, com a condição de ser soberania e de ser nacional.” In: Manassés. História de Quinze Dias. Ilustração Brasileira No. 7, 1 de outubro de 1876, p. 103.
[2] Manassés. História de Quinze Dias. Ilustração Brasileira No. 4, 15 de agosto de 1876, p. 59.
