
Imagine-se que em vez de se discutir a robustez de indícios (ou evidências, como se queira chamar) de crimes, prefira-se debater tecnicalidades jurídicas e em nenhum momento se considere o mais importante: debruçar-se sobre a longa lista de (em tese) ilicitudes praticadas.
Essa atitude não autoriza a conclusão de que, na verdade, o que se busca é tumultuar o processo, buscar nulidades, confundir o julgador e, com isso, atrasar o andamento da Justiça? Pior: que o que se pretende é transformar o Judiciário em uma pizzaria, por falta de respostas convincentes sobre as (em tese, insistamos) ilicitudes?
É, ou não é, vergonhosa essa prática?
Considero (e me vejo acompanhado pela ministra Cármen Lúcia) uma vergonha. Mais que isso (e esse sentimento a ministra não verbalizou, deixemos claro): enojado.
Quando juízes trocam os argumentos jurídicos por linguagem de botequim e, (horrores dos horrores) dirigindo-se a seus pares, estão ou não emporcalhando a toga?
Merece -- um juiz que assim se comporta -- o respeito exigido por sua posição na sociedade?
Quando magistrados agem dessa maneira, não tem a sociedade o direito de se sentir esbofeteada pela Justiça?
Ministra Cármen Lúcia, ao menos quanto ao tema aqui levantado não precisa pedir desculpas ao povo brasileiro, que tem o direito de se sentir feito palhaço, mas não pela senhora, neste caso.
Confessamos, no entanto, estar sentindo mais que vergonha e tristeza (imaginamos que, por educação, a senhora preferiu restringir-se a esses sentimentos).
Há muitos outros despertados: nojo, repulsa e indignação, por exemplo.
Considero adequado encerrarmos lembrando o que disse o jurista baiano Rui Barbosa em 14 de dezembro de 1914: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”.
Estamos envergonhados (eu, e a ministra Cármen Lúcia).

