
Vinte anos depois da criação da Lei Maria da Penha, 54% das mulheres que já tiveram relacionamento com um homem afirmam ter sofrido ao menos uma situação de violência psicológica, física, moral, sexual ou patrimonial praticada por parceiro ou ex-parceiro.
Segundo projeção dos responsáveis pelo levantamento, o percentual corresponde a cerca de 47,7 milhões de brasileiras.
O dado faz parte da pesquisa “20 anos da Lei Maria da Penha: percepção da sociedade brasileira”, realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva, com apoio da Uber.
O estudo ouviu 1.500 pessoas com 16 anos ou mais — mil mulheres e 500 homens — de todas as regiões do país, entre 22 e 30 de abril de 2026. As entrevistas foram digitais, por autopreenchimento, e a margem de erro informada é de 2,8 pontos percentuais.
A pesquisa mostra também uma diferença entre a identificação espontânea da violência e o reconhecimento de situações específicas. Quando questionadas de forma geral, 34% das mulheres que já se relacionaram com homens disseram ter sofrido violência de parceiro ou ex-parceiro. Quando foram apresentadas situações classificadas pelo levantamento entre as formas de violência previstas pela Lei Maria da Penha, o percentual subiu para 54%.
Em números absolutos projetados pelos responsáveis pela pesquisa, os percentuais correspondem a cerca de 30 milhões e 47,7 milhões de mulheres, respectivamente. A diferença sugere, dentro dos limites do levantamento, que parte das entrevistadas não identifica imediatamente determinadas experiências como violência.
Violência psicológica é a mais relatada
Entre as mulheres que já tiveram relacionamento com um homem, 42% relatam ao menos uma situação de violência psicológica praticada por parceiro ou ex-parceiro. A violência física aparece em seguida, com 25%. Uma mesma entrevistada podia indicar mais de uma modalidade.

Entre as situações relatadas estão humilhações, ameaças, controle sobre roupas e contatos pessoais, pressão para manter relações sexuais, restrições ao trabalho, apropriação de dinheiro ou celular, destruição de pertences e agressões físicas.
Uma entrevistada branca, da região Nordeste e com mais de 49 anos, relatou que o relacionamento começou bem, apesar do ciúme, mas que o parceiro passou posteriormente a afastá-la dos amigos. “Apesar de não ter tido violência física, me sentia presa e sofria violência patrimonial e moral”, afirmou. Segundo ela, a saída de casa permitiu retomar uma vida independente.
Outro depoimento mostra o reconhecimento posterior da violência psicológica. Uma entrevistada preta, da região Sudeste e também com mais de 49 anos, relatou que era humilhada pelo ex-marido com palavras ofensivas e que, na época, não identificava a situação como abuso psicológico.
Os testemunhos ilustram experiências individuais e não podem ser generalizados para além dos resultados quantitativos da pesquisa.
Controle do celular e do dinheiro encontra tolerância
A pesquisa também perguntou a homens e mulheres quanto consideravam aceitáveis diferentes comportamentos em um relacionamento. As situações relacionadas a controle e vigilância estão entre as que receberam maior grau de tolerância.
Acessar o celular da parceira sem autorização foi considerado aceitável em algum grau por 41% dos entrevistados: 38% das mulheres e 43% dos homens.
Controlar ou interferir no uso do dinheiro da mulher, incluindo contas e cartão de crédito, recebeu algum grau de aceitação de 35% da amostra. O percentual foi de 26% entre as mulheres e 44% entre os homens.
Tentar influenciar ou controlar com quem a mulher fala, aonde vai, o que faz ou o que veste foi considerado aceitável em algum grau por 29% dos participantes -- 19% das mulheres e 39% dos homens.
Dificultar ou desencorajar uma mulher a trabalhar, estudar ou conquistar independência recebeu algum nível de aceitação de 25% dos entrevistados. Exercer pressão para que ela se comporte como o parceiro deseja chegou a 24%.
A pesquisa encontrou tolerância também a situações envolvendo contato físico e força. Insistir em contato íntimo ou sexual quando a mulher não demonstra vontade foi considerado aceitável em algum grau por 22% dos entrevistados. Empurrar ou segurar a parceira com força durante uma discussão recebeu algum nível de aceitação de 20%.
Em todas essas situações apresentadas pelo levantamento, os percentuais registrados entre os homens foram superiores aos das mulheres.
Parceiros e ex-parceiros são apontados como principais agressores
Para 88% das mulheres entrevistadas, parceiros e ex-parceiros -- categoria que reúne marido, companheiro, ex-companheiro, namorado e ex-namorado -- estão entre os principais autores de violência contra mulheres.
Familiares e parentes próximos aparecem em seguida, citados por 33%. Pessoas conhecidas ou próximas, como amigos, vizinhos, superiores e colegas de trabalho ou estudo, foram mencionadas por 29%. Desconhecidos aparecem com 27%.
Os resultados mostram que, na percepção das entrevistadas, o risco de violência não está associado apenas a desconhecidos, mas também às relações afetivas, familiares e sociais próximas.
11% dos homens reconhecem ter praticado alguma das situações pesquisadas
Entre os homens que já tiveram relacionamento com mulheres, 7% responderam, em uma pergunta geral, que já haviam praticado violência contra parceira ou ex-parceira. Segundo projeção dos responsáveis pela pesquisa, seriam cerca de 6 milhões de homens.
Quando o questionário apresentou situações específicas de violência física, sexual, psicológica, moral ou patrimonial, o percentual chegou a 11%, estimado pelo estudo em 9,5 milhões de homens.
O resultado não é diretamente equivalente aos 54% registrados entre as mulheres: trata-se de respostas dadas por grupos diferentes sobre experiências distintas -- violência sofrida, de um lado, e comportamento praticado, de outro. A pesquisa registra a distância entre os percentuais, mas não permite determinar, por si só, as causas dessa diferença.
Nos depoimentos abertos, alguns homens evitaram falar sobre os episódios, com respostas como “Não quero contar” e “Não gosto de lembrar”. Outros relacionaram comportamentos agressivos a traições, provocações ou conflitos conjugais.
77% das mulheres dizem que homens não reconhecem todas as formas de violência
Entre as mulheres entrevistadas, 77% concordaram total ou parcialmente com a afirmação de que a maioria dos homens ainda não reconhece comportamentos que constituem formas de violência. Metade concordou totalmente e 27%, parcialmente.
Outros 82% concordaram total ou parcialmente que muitos homens, mesmo condenando piadas machistas e atitudes violentas contra mulheres, deixam de se posicionar quando essas situações ocorrem na presença de outros homens.
Os percentuais medem a percepção das mulheres entrevistadas sobre o comportamento masculino e não uma observação direta das atitudes dos homens.
Mulheres dizem que recorreriam mais à polícia ao presenciarem agressão
Questionados sobre a primeira atitude que tomariam ao presenciarem um homem agredindo uma mulher, homens e mulheres apresentaram respostas diferentes.
Entre as mulheres, 70% afirmaram que chamariam a polícia ou acionariam as autoridades, ante 56% dos homens. Procurar ajuda de outras pessoas foi citado por 11% das mulheres e 4% dos homens.
A intervenção direta apareceu mais entre os entrevistados homens. Enquanto 9% das mulheres disseram que interviriam sem uso da força, o percentual chegou a 19% entre eles. Outros 7% das mulheres e 15% dos homens afirmaram que usariam a força se necessário.
Disseram que não fariam nada por considerar que não deveriam interferir 1% das mulheres e 3% dos homens.
As respostas indicam o que os participantes afirmam que fariam diante de uma situação hipotética e não necessariamente como agiriam em uma ocorrência real.
Delegacia da Mulher lidera conhecimento sobre canais e serviços
A Delegacia da Mulher é o serviço mais reconhecido entre as mulheres entrevistadas: 75% afirmaram conhecê-la ou já ter ouvido falar dela.
A Central de Atendimento à Mulher -- Ligue 180 -- aparece com 64%. O telefone 190 é citado por 55% e o Disque Denúncia, por 54%.
Outros integrantes da rede são menos conhecidos. Serviços de assistência social, como CRAS e CREAS, e os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher aparecem com 34% cada. SOS Mulher e Casa da Mulher Brasileira registram 32%; Defensoria Pública, 29%; e Ministério Público, 23%.
Os resultados indicam maior familiaridade das entrevistadas com algumas portas de entrada policiais e telefônicas do que com parte dos serviços assistenciais e das instituições do sistema de Justiça apresentados pelo levantamento.
Medo de denunciar é o obstáculo mais citado
Quando puderam apontar os três principais obstáculos ao enfrentamento da violência contra a mulher no Brasil, 68% das entrevistadas mencionaram o medo das vítimas de denunciar por receio de represálias ou falta de proteção.
A impunidade ou falta de punição efetiva dos agressores foi citada por 56%, seguida pela lentidão da Justiça, com 39%, e pela existência de uma cultura que naturaliza ou minimiza a violência contra a mulher, com 35%.
Também foram mencionadas a falta de serviços de apoio às vítimas, como abrigo e assistência psicológica e jurídica (25%); falta de aplicação das leis existentes (24%); falta de preparo das forças de segurança (23%); falta de informação sobre direitos e canais de ajuda (17%); e falta de envolvimento dos homens no enfrentamento do problema (13%).
Esses percentuais representam a percepção das mulheres entrevistadas sobre os principais obstáculos e não uma medição independente do desempenho das instituições citadas.
Lei Maria da Penha é conhecida, mas conhecimento aprofundado é menor
Sancionada em 7 de agosto de 2006, a Lei nº 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, criou mecanismos de prevenção e enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher.
Na pesquisa, 49% das mulheres afirmaram conhecer bem a legislação e 43%, conhecê-la pouco. Outras 8% disseram apenas ter ouvido falar dela.
Entre os homens, 40% disseram conhecer bem a lei, 48% conhecê-la pouco, 11% apenas ter ouvido falar e 1% declarou não conhecê-la.
Quando as mulheres que conheciam ou ao menos tinham ouvido falar da lei foram convidadas a explicar espontaneamente sua finalidade, 73% relacionaram a legislação à proteção das mulheres e das vítimas. Justiça criminal e responsabilização apareceram em 15% das respostas; prevenção e enfrentamento, em 4%.

Os dados mostram uma diferença entre reconhecimento do nome da lei e conhecimento declarado como aprofundado sobre ela.
Reconhecimento da lei não significa reconhecimento de todas as condutas
Um dos principais resultados da pesquisa aparece na diferença entre as duas maneiras de perguntar sobre violência sofrida.
Na pergunta geral, 34% das mulheres que já tiveram relacionamento com homens afirmaram ter sido vítimas de violência praticada por parceiro ou ex-parceiro. Depois da apresentação de situações específicas, 54% reconheceram ter passado por ao menos uma delas.
O levantamento não permite concluir por que cada entrevistada respondeu de maneira diferente às duas perguntas. Os resultados indicam, porém, que a descrição de comportamentos concretos altera a proporção de mulheres que reconhecem experiências pesquisadas como formas de violência.
A pesquisa também encontra algum grau de aceitação para práticas de controle e restrição da autonomia e registra diferenças entre as respostas de homens e mulheres.
Duas décadas depois da criação da Lei Maria da Penha, o levantamento apresenta, portanto, dois retratos simultâneos: a legislação alcançou amplo reconhecimento entre a população pesquisada, mas parte das condutas investigadas continua sem ser imediatamente identificada como violência ou recebe algum grau de tolerância.
Como foi feita a pesquisa
A pesquisa de opinião “20 anos da Lei Maria da Penha: percepção da sociedade brasileira” foi realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva, com apoio da Uber.
Foram entrevistadas 1.500 pessoas com 16 anos ou mais — mil mulheres e 500 homens — de todas as regiões do Brasil, entre 22 e 30 de abril de 2026. As entrevistas foram digitais e de autopreenchimento. A margem de erro informada pelos responsáveis é de 2,8 pontos percentuais.
Segundo a metodologia apresentada no levantamento, a amostra foi ponderada por gênero, faixa etária, escolaridade e classe, cruzados por região, conforme parâmetros da PNAD Anual do IBGE.
Os números absolutos citados nesta reportagem, como as estimativas de 47,7 milhões de mulheres e 9,5 milhões de homens, não são contagens de casos registrados. São projeções apresentadas pelos responsáveis pela pesquisa a partir dos resultados amostrais e da população de 16 anos ou mais considerada pelo estudo.
Onde buscar ajuda
A Central de Atendimento à Mulher -- Ligue 180 -- funciona gratuitamente, 24 horas por dia, todos os dias da semana. O serviço oferece orientação sobre direitos e sobre a rede de atendimento, informa onde encontrar serviços especializados e recebe e encaminha denúncias aos órgãos competentes.
Em uma situação de emergência ou quando a violência estiver ocorrendo e houver necessidade de intervenção policial imediata, a orientação oficial é acionar a Polícia Militar pelo 190.

