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Jogos online afetam mais da metade das mulheres no Brasil

42% das mulheres já jogaram ou continuam jogando e 12% foram afetadas pelo jogo feito por pessoas próximas

O impacto das apostas online sobre as mulheres, no Brasil
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Pesquisa indica que 42% das brasileiras apostam ou já apostaram e outras 12% sofrem efeitos do jogo de pessoas próximas. O levantamento associa as bets a pressão financeira, conflitos familiares e vergonha, mas ressalta limites metodológicos. Mães apostam mais que mulheres sem filhos, sem causalidade comprovada.

Mais da metade das brasileiras já teve contato direto com os efeitos das apostas online, seja porque jogou, seja porque convive com as consequências das apostas de familiares, parceiros ou amigos.

Segundo o relatório Mulheres & Bets — o custo das apostas online para as brasileiras e suas famílias, divulgado pelo Estúdio Clarice em agosto de 2026, 42% das mulheres apostam ou já apostaram e outras 12% nunca fizeram apostas, mas se classificam como afetadas pelo comportamento de pessoas próximas.

Os 42% incluem mulheres que apostam atualmente e aquelas que já deixaram de jogar. O estudo também identifica uma diferença entre mulheres com e sem filhos: 23% das mães apostam atualmente, contra 15% das mulheres sem filhos.

A etapa qualitativa da pesquisa propõe uma interpretação para essa diferença. Em parte dos relatos, especialmente entre mães, a aposta aparece associada à tentativa de obter dinheiro para despesas domésticas, como pagar contas, colocar boletos em dia ou atender a necessidades dos filhos. O próprio relatório, porém, trata essa relação como uma hipótese a ser aprofundada, e não como prova de que a maternidade leve mulheres a apostar mais.

Apostas pressionam o orçamento doméstico

Os efeitos financeiros aparecem tanto entre mulheres que apostam quanto entre aquelas afetadas pelas apostas de terceiros.

Entre apostadoras atuais, 13% afirmaram já ter usado cartão de crédito ou cheque especial para apostar, 10% disseram ter deixado de pagar alguma conta e 8% relataram ter deixado de comprar comida para fazer apostas, segundo o relatório.

Entre mulheres que não apostam, mas dizem sofrer efeitos do jogo de pessoas próximas, 14% relataram que elas ou suas famílias precisaram pedir dinheiro emprestado por causa das apostas de terceiros. Outros 14% disseram que alguma conta deixou de ser paga, e 10% mencionaram prejuízo à renda ou ao orçamento doméstico.

Esses percentuais se referem aos grupos específicos aos quais cada pergunta foi feita e não devem ser interpretados como proporções de todas as mulheres brasileiras.

Mães apostam mais, mas explicação ainda é hipótese

A diferença de oito pontos percentuais entre mães e mulheres sem filhos é um dos achados destacados pelo estudo.

Nas entrevistas qualitativas, pesquisadoras identificaram relatos em que a possibilidade de ganhar dinheiro se mistura à responsabilidade pelo cuidado e pelo sustento familiar. Em algumas histórias, a aposta surge como tentativa de complementar a renda ou resolver despesas imediatas.

O relatório organiza essa dinâmica em três mecanismos. O primeiro associa o jogo à responsabilidade doméstica. O segundo envolve redes de confiança (amigas, familiares, contatos religiosos e influenciadoras locais) por onde circulam recomendações, links e códigos de apostas. O terceiro é a culpa depois das perdas, que, em alguns relatos de mães, aparece relacionada à percepção de terem falhado no papel de cuidadoras.

Esses resultados descrevem experiências das participantes da etapa qualitativa. Eles não representam percentuais nacionais e não comprovam relações de causa e efeito.

Conflitos e perda de confiança também atingem quem não aposta

Os efeitos das apostas não se restringem a quem joga.

Entre mulheres classificadas pelo estudo como “impactadas” (aquelas que não apostam, mas são afetadas pelas apostas de parceiros, familiares ou amigos), quase uma em cada quatro relata conflitos familiares e perda de confiança relacionados ao comportamento de pessoas próximas.

A percepção de danos às famílias aparece também na pesquisa quantitativa. Para 67% das mulheres entrevistadas, as apostas estão “acabando com as famílias brasileiras”. Entre os homens, o percentual é de 59%. O resultado expressa a opinião dos entrevistados, não uma medição objetiva da extensão desses danos.

Quase um quarto relata contato com violência associada às apostas

Uma das informações mais sensíveis do levantamento envolve situações de violência dentro das famílias.

Segundo a pesquisa, 23% dos brasileiros afirmaram conhecer ou ter presenciado algum episódio em que apostas contribuíram para casos de violência familiar. Entre pessoas que apostam frequentemente, o percentual chega a 46%.

A pesquisa não permite saber, a partir desse percentual, qual foi o tipo de violência envolvida, estabelecer a sequência de cada episódio nem demonstrar que a aposta tenha sido sua causa. Trata-se de uma associação relatada pelos participantes.

Na etapa qualitativa, aparecem relatos de dívidas, empréstimos contraídos para cobrir prejuízos de parceiros, ameaças ligadas a empréstimos informais, conflitos, crises de ansiedade e rupturas de confiança. Esses depoimentos ajudam a identificar situações que merecem investigação, mas não permitem calcular a frequência desses episódios na população brasileira.

Vergonha aparece como barreira para buscar ajuda

O estudo também identifica dificuldades na procura por apoio.

Entre mulheres que quiseram buscar ajuda para parar de apostar, mas não procuraram auxílio, 65% citaram a vergonha como motivo, segundo o relatório.

Esse resultado precisa ser interpretado com cautela porque se refere a uma base específica e menor de entrevistados, e não a todas as apostadoras brasileiras.

A pesquisa qualitativa registra ainda relatos de ansiedade, insônia e outros sintomas associados às perdas. O relatório esclarece que termos como “vício” e “dependência” reproduzem o sentido usado pelas entrevistadas e pela opinião pública e não correspondem, no estudo, a diagnóstico médico.

O horário das apostas também apresenta diferença por gênero. Segundo o levantamento, 30% das mulheres que apostam costumam jogar principalmente à noite ou de madrugada, ante 20% dos homens. As entrevistas incluem relatos de mulheres que dizem apostar sozinhas e longe de parceiros e filhos.

Parte das mulheres deixa o jogo por frustração com os ganhos

O relatório também acompanha mulheres que já abandonaram as apostas.

Entre as ex-apostadoras, aparecem como motivos para deixar o jogo a percepção de que os ganhos esperados não se concretizavam, o risco financeiro e o endividamento.

A pesquisa qualitativa descreve uma sequência recorrente em alguns relatos: dificuldade financeira, aposta como tentativa de obter dinheiro, perdas, novas tentativas de recuperar o valor perdido e, em determinados casos, segredo, culpa e vergonha.

O próprio estudo ressalta que esse percurso não descreve todas as apostadoras, mas um padrão identificado em parte das entrevistas.

Redes de confiança também funcionam como porta de entrada

Outro eixo do relatório está na forma como as pessoas chegam às plataformas.

Além da publicidade convencional e de grandes influenciadores, a etapa qualitativa descreve a circulação de links, códigos e recomendações entre amigos, parentes, contatos religiosos e influenciadores locais.

Entre jovens de 18 a 24 anos, amigos e influenciadores digitais aparecem empatados, com 25%, entre as principais influências para começar a apostar, segundo o levantamento.

O relatório chama atenção ainda para programas de afiliação usados na divulgação das plataformas e afirma que existem modelos nos quais a remuneração de divulgadores pode estar relacionada também às perdas de pessoas cadastradas por determinados códigos.

Relatos de menores levantam alerta, mas não medem dimensão do problema

As entrevistas qualitativas também registraram relatos de mães segundo os quais crianças ou adolescentes teriam conseguido apostar dinheiro.

O estudo não apresenta uma estimativa nacional sobre menores nas plataformas e, por isso, esses episódios não permitem dizer quantas crianças ou adolescentes apostam no Brasil.

Os relatos apontam, porém, uma frente de investigação sobre mecanismos de verificação de idade e barreiras usadas para impedir o acesso de menores às apostas online.

Mulheres demonstram maior rejeição às bets

Embora uma parcela relevante das brasileiras já tenha apostado, as mulheres também apresentam maior rejeição às casas de apostas.

Segundo o levantamento, 62% delas apoiam a proibição das plataformas, ante 50% dos homens. No total da população pesquisada, 56% manifestam apoio à proibição.

Quando perguntadas como definem as apostas online, 36% das mulheres escolheram a palavra “vício”, contra 30% dos homens. O resultado representa a percepção das respondentes e não um diagnóstico médico.

O relatório também encontra apoio à proibição entre eleitores dos dois principais candidatos da eleição presidencial de 2022: 62% entre eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva e 56% entre eleitores de Jair Bolsonaro.

Para os autores, essa convergência indica que a preocupação com as apostas atravessa grupos políticos distintos. Os dados sustentam, de forma mais direta, que a rejeição às plataformas aparece em diferentes segmentos do eleitorado.

Autoexclusão ainda era pouco conhecida na época da pesquisa

Outro desafio identificado pelo levantamento é fazer com que instrumentos de proteção cheguem aos usuários.

Na pesquisa realizada em julho de 2026, 29% dos brasileiros disseram conhecer o Sistema Centralizado de Autoexclusão de Apostas. Entre as mulheres, 74% afirmaram desconhecer o mecanismo.

O relatório ressalta que o trabalho de campo terminou em 9 de julho de 2026 e que os percentuais refletem aquele momento. Por isso, não devem ser apresentados como medida atualizada do conhecimento da ferramenta.

Ao mesmo tempo, 32% dos brasileiros manifestaram interesse em um canal anônimo de apoio. Entre pessoas que apostam frequentemente, o percentual chegou a 57%.

Como a pesquisa foi feita

O relatório Mulheres & Bets combina uma pesquisa quantitativa nacional e uma investigação qualitativa.

A etapa quantitativa foi realizada pelo Instituto de Pesquisa IDEIA nos dias 8 e 9 de julho de 2026, por meio de painel mobile. Foram entrevistadas 2.008 pessoas em todo o território nacional, com cotas definidas segundo a distribuição da população com base no Censo 2022 e na PNAD 2025.

O estudo informa intervalo de confiança de 95% e margem de erro estimada em aproximadamente 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, sobre os resultados do total da amostra. 

A etapa qualitativa, conduzida pela Estratégia Latina em junho e julho de 2026, reuniu 60 participantes, com idades entre 18 e 58 anos. Foram realizadas 20 entrevistas em tríades com diferentes perfis, incluindo apostadoras, ex-apostadoras, mulheres impactadas pelas apostas de terceiros e seis homens ouvidos como contraponto. A investigação qualitativa concentrou-se nas regiões Sudeste e Nordeste.

A combinação dos dois métodos permite dimensionar comportamentos e opiniões por meio da etapa quantitativa e explorar possíveis explicações nas entrevistas.