Metade dos brasileiros considera que os pais participam menos da criação dos filhos atualmente do que nas gerações anteriores, segundo pesquisa da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados. Outros 37% avaliam que a participação aumentou.
Ao mesmo tempo, os dados mostram forte valorização do papel paterno. Entre os homens entrevistados, 81% classificam como alta ou muito alta a importância da paternidade na criação dos filhos. Entre as mulheres, o percentual é de 73%.
A percepção sobre a evolução da participação dos pais também difere conforme o sexo. Entre as mulheres, 56% avaliam que os pais de hoje participam menos do que os de gerações anteriores, enquanto 31% consideram que participam mais. Entre os homens, há empate: 44% percebem aumento da participação e 44%, redução.
Jovens valorizam mais o papel paterno
A importância atribuída à paternidade também varia conforme a idade. Entre os entrevistados de 16 a 24 anos, 82% classificam o papel do pai como importante, considerando as respostas de alta ou muito alta importância. Entre pessoas com 60 anos ou mais, o percentual cai para 62%.
Os resultados indicam diferenças também por renda e escolaridade. A avaliação de alta ou muito alta importância chega a 81% entre quem tem renda familiar de dois a cinco salários mínimos e cai para 64% entre os que recebem até um salário mínimo.
Por escolaridade, o índice é de 81% entre pessoas com ensino médio, 80% entre aquelas com ensino superior completo e 68% entre entrevistados com ensino fundamental.
Presença diária é principal característica de um bom pai
Quando perguntados sobre o que caracteriza um “bom pai”, 49% dos brasileiros apontam a presença no dia a dia como o principal atributo. Educar e orientar com limites aparece em segundo lugar, com 19%.
Demonstrar carinho e afeto é mencionado por 8%, dar exemplo por 7% e oferecer segurança financeira por 3%. O resultado reforça, na percepção dos entrevistados, maior valorização da convivência cotidiana do que da função de provedor financeiro.
Entre as mulheres, 53% apontam a presença diária como a principal característica de um bom pai, ante 45% dos homens. Já educação e orientação com limites são escolhidas por 21% dos homens e 17% das mulheres.
A presença no cotidiano recebe maior destaque entre pessoas de 25 a 40 anos, com 56%, e entre jovens de 16 a 24 anos, com 55%. Nas faixas etárias mais altas, aumenta a proporção dos que destacam a educação: esse atributo é apontado por 24% das pessoas de 41 a 49 anos e por 26% daquelas com 60 anos ou mais.
Para Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, os resultados mostram que a presença cotidiana passou a ocupar lugar central na ideia de paternidade entre os brasileiros. Ele interpreta a diferença entre essa valorização e a percepção de menor participação dos pais atuais como um sinal de que as expectativas sobre a paternidade podem estar mudando mais rapidamente que a percepção sobre as práticas familiares.
A pesquisa, porém, mede opiniões e percepções dos entrevistados. Os resultados, por si só, não demonstram que os pais brasileiros efetivamente participem mais ou menos da criação dos filhos do que em gerações anteriores.
O que as evidências permitem afirmar sobre a presença do pai
Há evidências de que uma relação paterna responsiva, estável e de boa qualidade pode contribuir positivamente para o desenvolvimento da criança; isso não equivale a dizer que a presença de um homem ou de um pai seja condição necessária para um desenvolvimento saudável.
Uma das revisões sistemáticas clássicas sobre o tema, publicada por Anna Sarkadi e colaboradores, examinou estudos longitudinais sobre envolvimento paterno. A revisão encontrou associações entre maior envolvimento dos pais e melhores resultados sociais, comportamentais e psicológicos das crianças. Os autores, entretanto, destacam a heterogeneidade das formas de medir "envolvimento paterno", problema que continua relevante na área.
Há evidências mais recentes de que "a qualidade da interação parece ser tão ou mais importante que a simples quantidade de tempo". Uma grande meta-análise publicada em 2024 analisou a chamada "sensibilidade parental", isto é, a capacidade do cuidador de perceber os sinais da criança e responder de maneira adequada e contingente.
Tanto a sensibilidade materna quanto a paterna estavam associadas positivamente ao desenvolvimento da criança. Portanto, parte dos mecanismos tradicionalmente atribuídos à "presença do pai" provavelmente diz respeito a características mais gerais da parentalidade de qualidade.
Isso aparece também no desenvolvimento cognitivo. Uma meta-análise específica sobre "sensibilidade paterna e desenvolvimento cognitivo", envolvendo crianças de aproximadamente 7 meses a 9 anos, encontrou associação positiva entre comportamentos paternos sensíveis e resultados cognitivos. Novamente, trata-se predominantemente de associação, e não de demonstração de que determinado comportamento paterno isoladamente provoque um ganho cognitivo.
Linguagem, cognição e aprendizagem
Uma revisão sistemática sobre envolvimento paterno e desenvolvimento cognitivo na primeira infância encontrou resultados positivos em diferentes dimensões, incluindo linguagem e habilidades cognitivas. Entretanto, os próprios estudos mostram que "envolvimento" compreende fenômenos distintos: brincar, conversar, ler, cuidar, acompanhar atividades, prover recursos e oferecer apoio emocional não são variáveis equivalentes.
Essa ressalva é importante para sua reportagem porque permite substituir uma formulação simplista como "pais presentes tornam filhos mais inteligentes" por uma conclusão cientificamente mais defensável: "interações frequentes e de qualidade, estimulação cognitiva e parentalidade responsiva estão associadas a melhores resultados de desenvolvimento, e os pais podem desempenhar papel importante nesse processo".
Evidências experimentais sobre parentalidade positiva, não restritas aos pais homens, reforçam a importância desses mecanismos para cognição, linguagem e outras habilidades iniciais.
Desenvolvimento socioemocional e comportamento
Também há evidências relacionando a qualidade da parentalidade paterna ao desenvolvimento emocional e comportamental. Uma meta-análise que comparou comportamentos parentais maternos e paternos encontrou relações entre características da parentalidade de ambos os cuidadores e sintomas internalizantes e externalizantes de crianças e adolescentes. Isso enfraquece interpretações segundo as quais haveria mecanismos inteiramente exclusivos do pai ou da mãe.
A sensibilidade parental observada também está associada a menos problemas comportamentais na infância e adolescência. Essa literatura novamente aponta para "qualidade das relações e das práticas parentais", e não simplesmente para sexo ou gênero do cuidador.
Há uma linha específica de investigação sobre brincadeiras físicas entre pais e filhos. Uma meta-análise encontrou associações pequenas a moderadas entre esse tipo de interação e aspectos como competência social, habilidades emocionais e autorregulação. Os próprios pesquisadores alertam, porém, que definições, qualidade da interação e contexto variam consideravelmente entre estudos.
Pais que não moram com os filhos
Outro cuidado relevante é não confundir "residência conjunta com envolvimento parental".
Uma meta-análise sobre pais não residentes encontrou associações entre envolvimento paterno e bem-estar social, emocional, comportamental e desempenho acadêmico dos filhos. Os resultados mais consistentes estavam relacionados à participação em atividades da criança e à qualidade da relação pai-filho, e não simplesmente à frequência de contato.
Esse dado permite abordar separações e divórcios sem cair na dicotomia "pai presente versus pai ausente". Um pai pode morar em outra residência e continuar significativamente envolvido na criação.
E a chamada "ausência paterna"?
Aqui é necessária especial cautela.
Uma revisão dedicada justamente a tentar estabelecer os "efeitos causais da ausência do pai" concluiu que estudos metodologicamente mais rigorosos ainda encontram algumas consequências negativas associadas à ausência paterna, particularmente para conclusão do ensino médio, ajustamento socioemocional e saúde mental posterior. Entretanto, os efeitos encontrados são menores do que aqueles registrados em estudos observacionais mais simples.
A razão é importante: famílias nas quais ocorre separação, abandono ou morte de um dos pais também podem experimentar simultaneamente mudanças de renda, moradia, conflito familiar, estresse e disponibilidade de cuidados. Separar estatisticamente esses fatores é difícil.
Por isso, "esses estudos não autorizam concluir que crianças precisam necessariamente de um cuidador masculino". Tampouco os resultados sobre divórcio ou abandono podem ser automaticamente extrapolados para famílias constituídas desde o início de outra forma.
Famílias com duas mães, dois pais e outras configurações
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2023, reunindo 34 estudos que compararam famílias formadas por pais de minorias sexuais e famílias heterossexuais, constatou que "a maioria dos resultados familiares era semelhante". Em alguns indicadores, como ajustamento psicológico das crianças e qualidade da relação entre pais e filhos, os resultados agregados favoreceram ligeiramente as famílias de minorias sexuais. Entre os fatores associados a dificuldades estavam estigma, discriminação e menor apoio social.
Um estudo populacional particularmente robusto utilizou registros administrativos de "mais de 1,45 milhão de crianças na Holanda", incluindo cerca de 3 mil criadas por casais do mesmo sexo. As crianças dessas famílias não apresentaram prejuízo educacional; naquele conjunto de dados, tiveram desempenho melhor em vários indicadores acadêmicos. Os autores alertam que diferenças de seleção entre os grupos também precisam ser consideradas.
Saúde mental do pai também importa
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 encontrou associação entre depressão, ansiedade ou estresse paternos durante o período perinatal e resultados posteriores de desenvolvimento infantil. Os pesquisadores tratam o sofrimento psicológico paterno como um possível fator modificável, mas ressaltam limitações para estabelecer causalidade.
Uma meta-análise anterior encontrou associação entre depressão paterna e maior risco posterior de depressão nos filhos. Isso não significa determinação: trata-se de aumento estatístico de risco em populações estudadas, sujeito a influências genéticas, ambientais e familiares compartilhadas.
A coparentalidade também entra na equação
A "coparentalidade" é como os adultos responsáveis pela criança cooperam, comunicam-se e dividem decisões e responsabilidades relacionadas à criação.
Uma revisão sistemática de intervenções de coparentalidade encontrou benefícios em dimensões como apoio entre cuidadores, comunicação, interação entre pais e filhos e redução de comportamentos pelos quais um cuidador prejudica a atuação do outro. Mas os resultados ainda são heterogêneos e a evidência para alguns desfechos permanece limitada.
Isso desloca a pergunta de "quem compõe a família?" para uma questão cientificamente mais produtiva: "como funciona o sistema de cuidados ao redor da criança?"
O que a Academia Americana de Pediatria diz
Em relatório clínico dedicado ao tema, a American Academy of Pediatrics revisou evidências sobre o papel dos pais, incluindo pais residentes e não residentes, e recomendou maior inclusão dos homens nos cuidados pediátricos e nas atividades relacionadas à saúde e ao desenvolvimento dos filhos.
O documento também reconhece que a própria definição contemporânea de pai inclui diferentes configurações biológicas, sociais e familiares.
