
As correspondências trocadas por Jorge Amado e Erico Verissimo ao longo de mais de quatro décadas foram reunidas em Cartas: Jorge Amado – Erico Verissimo.
Lançada na tarde dessa sexta-feira (7 de agosto), em Salvador, durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), a obra permite acompanhar a amizade entre os escritores, conversas sobre seus livros e discussões sobre literatura, política e sociedade.
Organizado por Paloma Jorge Amado, escritora e filha de Jorge Amado, e por Bete Capinan, o livro reúne documentos históricos, lembranças pessoais e registros ligados à produção literária dos dois autores.
A edição também traz um texto recuperado de Luis Fernando Verissimo e uma orelha assinada por Fernanda Verissimo, neta de Erico e filha de Luis Fernando.
A publicação integra a coleção Um gesto de amizade, da Fundação Casa de Jorge Amado. A série já reuniu a correspondência de Jorge Amado com José Saramago, em Com o mar por meio: Uma amizade em cartas, e com o dramaturgo Dias Gomes, em Cartas: Dias Gomes – Jorge Amado.
Cartas mostram processo de criação dos escritores
Fernanda Verissimo disse que um dos aspectos que mais chamaram sua atenção foi a proximidade intelectual entre Jorge Amado e Erico Verissimo. Segundo ela, as cartas mostram que os dois acompanhavam a produção um do outro e conversavam não apenas sobre as próprias obras, mas também sobre a literatura brasileira de forma mais ampla.
A correspondência começa na década de 1930 e se estende até a morte de Erico Verissimo, em 1975. Segundo Paloma Jorge Amado, esse período permite acompanhar inclusive etapas do processo de criação dos escritores.
Ela contou que Jorge Amado relatava ao amigo o desenvolvimento de Jubiabá, descrevendo partes do livro e a estrutura que planejava para o romance. De acordo com Paloma, Erico fazia o mesmo ao comentar as obras em que estava trabalhando.
As cartas também preservam episódios bem-humorados da amizade. Jorge Amado, por exemplo, costumava chamar Luis Fernando Verissimo (1936-2025), filho de Erico, de João. Segundo Paloma, ele dizia que Luis Fernando tinha “cara de João”. Erico aderiu à brincadeira e chegou a se referir ao filho como “Joãozinho” ao contar ao amigo sobre as crônicas que ele escrevia para o Zero Hora.
Outro episódio relatado por Paloma ocorreu durante uma viagem de Jorge Amado à Itália. Segundo ela, o escritor encontrou em uma livraria uma placa que o apresentava como o mais importante autor brasileiro. Pouco depois, em outro estabelecimento, viu Erico Verissimo receber a mesma distinção. Zélia Gattai fotografou a situação, e Jorge escreveu ao amigo brincando que havia sido o mais importante por apenas cinco minutos.
Política e censura aparecem na correspondência
Além de literatura e relações familiares, as cartas registram discussões sobre política, cultura e sociedade. Segundo Fernanda Verissimo, as primeiras correspondências já traziam comentários sobre o Estado Novo.
Ela afirmou que, nos anos 1970, durante a ditadura militar, o diálogo entre os escritores também passou a registrar posicionamentos contra a censura prévia e em defesa da liberdade de expressão e do pensamento crítico.
Fundação preserva e busca ampliar acervo
As cartas utilizadas na coleção estão sob a guarda da Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador. A instituição conserva um conjunto de correspondências do escritor cuja quantidade total ainda não é conhecida. O material inclui trocas com escritores, políticos, artistas e com Zélia Gattai, além de bilhetes preservados por Jorge Amado.
Angela Fraga, presidente da Fundação Casa de Jorge Amado, afirmou que o acervo exige tratamento cuidadoso por causa do conteúdo das correspondências e da manifestação do próprio escritor de que não gostaria que esse material fosse aberto indiscriminadamente.
Segundo Angela, Paloma Jorge Amado participa da pesquisa e do trabalho de relacionar as cartas recebidas pelo escritor àquelas enviadas por ele.
A fundação também procura localizar correspondências de Jorge Amado preservadas em outros acervos. Angela explicou que a instituição possui as cartas recebidas pelo autor, mas precisa buscar, entre destinatários e arquivos, aquelas que ele enviou.
Ela acrescentou que Jorge Amado valorizava a correspondência e tinha como princípio não deixar cartas sem resposta — hábito que ajuda a dimensionar a extensão do material ainda passível de localização e organização.
