No Brasil, o uso da internet entre quem tem 60 anos ou mais chegou a 74,5% em 2025, segundo a PNAD Contínua, mas aproximadamente um quarto desse grupo ainda permanecia fora da rede.
Mesmo entre os conectados, dificuldades com aplicativos, senhas, interfaces e segurança podem limitar o acesso autônomo a serviços essenciais.
O desafio tende a crescer com o envelhecimento da população. O Censo Demográfico de 2022 identificou 22,2 milhões de brasileiros com 65 anos ou mais, equivalentes a 10,9% dos habitantes do país. Em 2010, essa parcela era de 7,4%.
Os dois dados utilizam recortes etários diferentes. No Brasil, o Estatuto da Pessoa Idosa considera pessoa idosa quem tem 60 anos ou mais. As estatísticas demográficas internacionais, porém, frequentemente adotam o limite de 65 anos.
Conexão aumentou, mas desigualdades permanecem
A TIC Domicílios 2024 mostra que 84% da população brasileira com 10 anos ou mais utilizava a internet, o equivalente a 159 milhões de pessoas. O percentual geral, contudo, não significa que todos disponham das mesmas condições de acesso.
Segundo o levantamento, 60% dos usuários acessavam a rede somente pelo telefone celular. A pesquisa também classificou 34% da população no nível mais baixo de conectividade significativa, enquanto apenas 22% estava no nível mais alto. A avaliação considera aspectos como custo, qualidade da conexão, disponibilidade de equipamentos e habilidades digitais.
Entre os domicílios que continuavam sem internet, os motivos mais citados incluíam falta de conhecimento para usar a rede e custo do serviço. Os resultados indicam que ampliar a infraestrutura é necessário, mas não resolve sozinho o problema da exclusão digital.

Aplicativos e portais permitem realizar pagamentos, solicitar documentos, marcar consultas e acessar benefícios sem deslocamento. Para pessoas que não dominam essas ferramentas, porém, a mesma transformação pode restringir direitos.
A dificuldade não decorre apenas da falta de internet. Um usuário pode estar conectado e ainda assim não conseguir concluir uma operação por causa de textos pequenos, comandos pouco claros, excesso de etapas, autenticações complexas ou ausência de suporte.
O problema se agrava quando um serviço essencial abandona os canais presenciais e telefônicos. Nesses casos, pessoas idosas podem passar a depender de familiares para lidar com informações bancárias, documentos e dados de saúde, reduzindo sua privacidade e autonomia.
Envelhecimento também pressiona países da Ásia e do Pacífico
O cenário brasileiro acompanha uma transformação mundial. Na Ásia e no Pacífico, a população com 65 anos ou mais passou de 168 milhões em 1990 para 503 milhões em 2024, segundo a Escap. A projeção é que esse contingente chegue a 996 milhões em 2050
O avanço será especialmente intenso entre as pessoas com 80 anos ou mais. O grupo poderá quase triplicar entre 2024 e 2050, chegando a 278,9 milhões de habitantes.
A mudança demográfica ocorre ao mesmo tempo que bancos, governos, empresas e sistemas de saúde transferem atividades para o meio digital. Para a Escap, oferecer equipamentos e conexão é insuficiente quando usuários não recebem capacitação, suporte e proteção.
Cursos formais ainda alcançam uma parcela pequena
Um levantamento mencionado pela Escap, realizado no Camboja, Índia, Quirguistão, Laos e Vietnã, constatou que apenas 7,4% dos participantes haviam frequentado algum curso formal de alfabetização digital. O resultado se refere aos cinco países pesquisados e não representa automaticamente toda a região.
Muitos participantes aprenderam com parentes. Esse apoio pode resolver tarefas imediatas, mas não substitui programas permanentes que ensinem, por exemplo:
-- Como criar e proteger senhas
-- Como reconhecer mensagens fraudulentas
-- Como consultar canais oficiais
-- Como controlar permissões de aplicativos
-- Como recuperar contas
-- Como pedir ajuda sem compartilhar dados sensíveis
As atividades precisam respeitar diferentes ritmos de aprendizagem e permitir repetição e prática. Também devem considerar necessidades visuais, auditivas, cognitivas e motoras.
Acessibilidade deve fazer parte do projeto
A inclusão digital não pode transferir toda a responsabilidade para o usuário. Empresas e governos precisam desenvolver plataformas que possam ser utilizadas por pessoas com diferentes idades, níveis de escolaridade e condições físicas.
A União Internacional de Telecomunicações recomenda recursos como menus claros, textos maiores e navegação simples. A entidade também defende que requisitos de acessibilidade e desenho universal sejam considerados desde a criação dos serviços, e não apenas adicionados depois.
Entre as medidas necessárias estão:
-- Contraste adequado entre texto e fundo
-- Possibilidade de aumentar o tamanho da fonte
-- Linguagem direta
-- Menos etapas para concluir operações
-- Instruções de erro compreensíveis
-- Alternativas de áudio
-- Compatibilidade com tecnologias assistivas
-- Suporte humano acessível
Pessoas idosas também devem participar dos testes e da elaboração das plataformas. A experiência desses usuários ajuda a identificar dificuldades que podem passar despercebidas pelas equipes técnicas.
Aprendizagem entre gerações pode ampliar a autonomia
Projetos que aproximam jovens e pessoas idosas podem ajudar a reduzir inseguranças no uso da tecnologia. O acompanhamento individual facilita a prática de tarefas concretas, como marcar uma consulta, acessar um documento ou realizar uma videochamada.
Essas iniciativas, no entanto, não devem reforçar a dependência. O objetivo é permitir que a pessoa idosa compreenda a operação e possa repeti-la com autonomia, respeitando seus limites e suas escolhas.
Programas públicos e comunitários podem combinar:
-- Oficinas presenciais
-- Materiais impressos com linguagem simples
-- Atendimento por telefone
-- Acompanhamento individual
-- Atividades em bibliotecas, escolas e centros comunitários
-- Orientações periódicas sobre golpes digitais
Inclusão exige ação conjunta
Reduzir a exclusão digital depende de governos, empresas, organizações comunitárias, instituições de ensino e famílias. As políticas precisam combinar acesso à internet, equipamentos adequados, formação continuada, segurança e plataformas acessíveis.
Também é necessário preservar canais presenciais ou telefônicos, especialmente para serviços públicos, saúde e operações financeiras. A digitalização pode ampliar a autonomia, mas não deve transformar o uso de aplicativos em uma condição obrigatória para o exercício de direitos.
Com o crescimento da população idosa, a inclusão digital deixa de ser uma iniciativa destinada a um grupo restrito. Ela passa a ser parte da infraestrutura necessária para garantir participação social, privacidade e acesso a serviços.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre acesso e inclusão digital?
Acesso significa dispor de conexão e equipamento. Inclusão digital envolve também saber utilizar as ferramentas com segurança, compreender as informações e conseguir concluir tarefas sem dependência permanente.
Quantas pessoas idosas usam internet no Brasil?
Em 2025, 74,5% das pessoas com 60 anos ou mais haviam utilizado a internet, segundo a PNAD Contínua. O percentual mostra crescimento, mas não mede sozinho a qualidade do acesso nem a autonomia dos usuários.
Por que manter atendimento presencial?
Porque parte da população não dispõe de conexão, equipamentos ou habilidades suficientes. Canais alternativos evitam que a digitalização se torne uma barreira para serviços essenciais.
O que torna um aplicativo mais acessível?
Textos legíveis, linguagem simples, bom contraste, poucas etapas, mensagens de erro claras, compatibilidade com tecnologias assistivas e opção de suporte humano.
