O Brasil registrou 2.261.055 ocorrências de estelionato em 2025, o maior número da série histórica apresentada pelo 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Desde 2018, os registros cresceram 429,8%, consolidando a fraude como o principal crime contra o patrimônio no país.
Os dados apontam uma mudança no perfil da criminalidade. Em vez de depender da presença física do autor, grande parte dos golpes ocorre por celular, aplicativos de mensagens, redes sociais, plataformas de comércio eletrônico e serviços bancários digitais.
Essa transformação ampliou o alcance dos criminosos. Uma mesma fraude pode ser enviada simultaneamente a centenas ou milhares de pessoas, com menor exposição a abordagens policiais e maior dificuldade de identificação dos responsáveis.
É um crime em que uma pessoa engana outra para obter alguma vantagem, geralmente dinheiro, bens ou serviços.
O autor usa mentiras, falsas promessas, documentos falsificados, identidades falsas ou outros artifícios para convencer a vítima a agir de uma forma que lhe cause prejuízo.
Um exemplo comum é quando alguém se passa por funcionário de um banco para induzir a vítima a fazer uma transferência de dinheiro para uma conta de criminosos.
Em resumo, o estelionato ocorre quando o prejuízo resulta de um engano provocado de forma intencional pelo autor do crime.
O que explica o crescimento dos golpes
A expansão dos serviços financeiros digitais facilitou pagamentos, transferências e compras pela internet, mas também abriu novas oportunidades para fraudes.
Os criminosos exploram principalmente técnicas de engenharia social, isto é, formas de manipulação destinadas a induzir a vítima a fornecer dados, compartilhar códigos ou realizar transferências.

Em comum, essas fraudes procuram provocar medo, urgência ou confiança. A vítima é pressionada a agir antes de confirmar a informação pelos canais oficiais.
O medo de golpes já faz parte da rotina
Pesquisa citada pelo Anuário indica que 83,2% dos brasileiros têm medo de sofrer golpes pela internet ou pelo celular.
A percepção acompanha a frequência das tentativas de fraude. Mensagens falsas, ligações de supostos bancos, promoções inexistentes e pedidos de transferência passaram a fazer parte do cotidiano de consumidores de diferentes idades e perfis.
O prejuízo não se limita ao dinheiro perdido. As vítimas também podem enfrentar dificuldades para cancelar operações, recuperar contas, corrigir cadastros, contestar contratos e voltar a confiar em serviços digitais.
Por que tantos casos não resultam em punição
O crescimento das ocorrências contrasta com a capacidade de investigação e responsabilização.
Segundo os dados apresentados no Anuário, os 2.261.055 registros de estelionato em 2025 se contrapõem a 63.771 processos penais e 4.819 pessoas presas pelo crime.
A comparação exige cautela. Boletins de ocorrência, processos e prisões não correspondem necessariamente às mesmas pessoas, aos mesmos fatos ou ao mesmo intervalo de tramitação. Ainda assim, os números indicam um descompasso entre o volume de fraudes comunicadas e a resposta do sistema de Justiça.

O estelionato eletrônico apresenta obstáculos específicos. Muitas vezes, não há uma cena física do crime. A ação ocorre por telefone ou internet, enquanto o dinheiro pode ser transferido entre diversas contas em poucos minutos.
Para ocultar a identidade, os envolvidos podem utilizar:
-- Contas bancárias em nome de terceiros
-- Documentos falsos
-- Linhas telefônicas descartáveis
-- Perfis e páginas fraudulentas
-- Vários dispositivos e serviços digitais
A investigação depende de rapidez, análise financeira, autorizações judiciais e cooperação entre polícias, bancos, empresas de tecnologia, operadoras de telefonia, Ministério Público e Poder Judiciário.
Regras legais também influenciam os resultados
O Anuário aponta que alterações legislativas e mecanismos processuais ajudam a explicar parte da diferença entre ocorrências e ações penais.
Durante parte do período analisado, determinadas modalidades de estelionato dependiam da representação formal da vítima para o prosseguimento da investigação. Assim, o boletim de ocorrência nem sempre era suficiente para iniciar ou manter a persecução penal.
O estudo também menciona os Acordos de Não Persecução Penal como um fator que pode reduzir o número de processos tradicionais.
Segundo a análise apresentada no documento, a combinação entre alto retorno financeiro e baixa probabilidade de responsabilização cria um ambiente favorável à expansão das fraudes.
O policiamento ostensivo continua relevante para roubos e furtos presenciais, mas tem alcance limitado contra crimes praticados integralmente no ambiente digital.
O enfrentamento ao estelionato exige:
-- Delegacias e equipes especializadas em crimes cibernéticos
-- Inteligência policial e análise de movimentações financeiras
-- Mecanismos rápidos para bloquear e rastrear valores
-- Integração entre estados
-- Cooperação com bancos, fintechs, plataformas digitais e operadoras
-- Preservação e compartilhamento ágil de evidências eletrônicas
Sem essa estrutura, o tempo entre o golpe, a comunicação da vítima e o início do rastreamento favorece a dispersão dos recursos.
Também é recomendável ativar a autenticação em dois fatores e usar senhas diferentes em serviços distintos.

Perguntas frequentes
Por que o estelionato cresceu tanto?
Segundo o Anuário, a alta acompanha a expansão das fraudes eletrônicas e dos serviços digitais. Os criminosos conseguem abordar muitas vítimas simultaneamente e agir sem estar no mesmo local que elas.
Todo boletim de ocorrência vira investigação?
Não necessariamente. O prosseguimento depende das circunstâncias do caso, das evidências disponíveis, das regras legais aplicáveis e da capacidade de identificação dos envolvidos.
O banco consegue recuperar um Pix fraudulento?
A recuperação não é garantida. A vítima deve comunicar a instituição imediatamente para solicitar a análise, o bloqueio ou o rastreamento da transferência.
Bancos pedem senha ou código por telefone?
Senhas, tokens e códigos de autenticação não devem ser compartilhados por telefone ou mensagem. Diante de qualquer dúvida, o consumidor deve encerrar o contato e procurar os canais oficiais.
Qual é o principal desafio para o Estado?
O principal desafio é adaptar a investigação à velocidade dos crimes digitais, com equipes especializadas, integração de dados e cooperação rápida entre autoridades, bancos e empresas de tecnologia.
