Brasil / Economia

Novo tarifaço aplicado pelos EUA
é ameaça a empregos no Brasil

Trabalhadores ligados a empresas exportadoras podem enfrentar redução de horas extras, benefícios, participação nos resultados ou vagas disponíveis

Os Estados Unidos aplicarão, a partir de 0h01 de 22 de julho de 2026, uma tarifa adicional de 25% sobre a maior parte dos produtos importados do Brasil.

A decisão foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, após uma investigação conduzida com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana.

Segundo a Câmara Americana de Comércio para o Brasil, a Amcham Brasil, aproximadamente 3 mil produtos e mais de US$ 11 bilhões em exportações industriais e agropecuárias estão expostos à nova cobrança. O valor indica o comércio sujeito à tarifa, e não uma perda automática de US$ 11 bilhões.

A tarifa será cobrada sobre mercadorias que entrarem para consumo nos Estados Unidos ou forem retiradas de armazéns alfandegados a partir de 0h01 de 22 de julho, no horário da costa leste norte-americana. Há uma regra de transição para determinadas cargas que já estiverem em trânsito.

A cobrança é adicional às tarifas normais de importação. Produtos já submetidos a medidas da Seção 232, utilizada pelos Estados Unidos em setores considerados relacionados à segurança nacional, ficaram fora da nova tarifa da Seção 301. Isso não significa que estejam livres de tributação: eles podem continuar sujeitos às cobranças anteriores.

Para saber se uma mercadoria específica foi atingida, a empresa precisa verificar seu código no sistema tarifário norte-americano, o HTSUS, e compará-lo com as exceções publicadas nos anexos do USTR.

Quais produtos ficaram fora da nova tarifa

O USTR informou que a cobrança não alcançará, entre outros grupos, carne bovina, suco de laranja, aeronaves, peças de aeronaves e produtos energéticos. A lista completa é maior e contém matérias-primas, alimentos, minerais, medicamentos e produtos que os Estados Unidos consideram difíceis de substituir.

Também aparecem nas exceções diferentes categorias de café, incluindo café verde, torrado e produtos que contêm café.

Depois da consulta pública, o USTR ampliou a lista para incluir produtos como:

-- café solúvel sem sabor
-- mel orgânico
-- ferro-gusa
-- sucata de ferro e aço
-- hidróxido de alumínio
-- determinados pescados
-- alguns produtos farmacêuticos
-- certas madeiras e couros

O órgão informou que manifestações de empresas ajudaram a demonstrar falta de fornecedores alternativos, dependência de matérias-primas brasileiras e risco de interrupções nas cadeias produtivas.

No caso do hidróxido de alumínio, os comentários enviados ao USTR indicaram que cerca de 40% do abastecimento norte-americano vinha do Brasil.

A consulta recebeu mais de 360 manifestações escritas. Uma audiência pública realizada em dois dias ouviu 77 testemunhas.

Quais setores ficam mais expostos

A lista final não apresenta um ranking pronto dos setores brasileiros mais prejudicados. Essa classificação dependerá do cruzamento dos códigos tarifários dos Estados Unidos com os valores exportados por produto, empresa e estado.

A celulose solúvel de alta pureza merece atenção. O produto aparecia na proposta inicial de exceções, mas foi retirado da lista protegida na decisão final. Determinados produtos químicos, por sua vez, ficaram isentos apenas quando destinados a aplicações farmacêuticas.

O valor estimado pela Amcham representa as exportações sujeitas à tarifa. A perda efetiva dependerá das negociações entre exportadores brasileiros e importadores norte-americanos.

Há pelo menos quatro resultados possíveis:

-- o comprador dos Estados Unidos paga a tarifa e mantém a encomenda
-- o importador exige desconto do fornecedor brasileiro
-- as duas partes dividem o custo
-- o comprador troca o Brasil por outro fornecedor

O câmbio, os contratos já assinados, a disponibilidade de concorrentes e a capacidade de vender para outros países também influenciarão o resultado.

A experiência de 2025 indica que os efeitos podem ser fortes na relação bilateral sem derrubar o comércio exterior brasileiro como um todo. Naquele ano, as exportações do Brasil para os Estados Unidos caíram 6,6%, enquanto as exportações totais cresceram 3,5% e o país registrou superávit comercial de US$ 68,3 bilhões.

Entre agosto e dezembro de 2025, depois da entrada em vigor da rodada tarifária anterior, os embarques aos Estados Unidos recuaram 21,3% em relação ao mesmo período de 2024. Parte da perda foi compensada pelo aumento das vendas para China, Índia e países latino-americanos.

Onde o risco para empregos é maior

O impacto tende a ser mais intenso em empresas e cidades que dependem de poucos produtos ou de poucos compradores norte-americanos.

No primeiro semestre de 2026, 20 das 27 unidades da Federação exportaram menos para os Estados Unidos do que no mesmo período de 2025. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, as vendas brasileiras ao mercado norte-americano caíram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões.

A queda das encomendas não provoca demissões automaticamente. Em geral, empresas podem tentar inicialmente:

-- reduzir margens
-- renegociar contratos
-- cortar horas extras
-- diminuir turnos
-- adiar investimentos e contratações
-- buscar clientes em outros países

A perda de postos de trabalho se torna mais provável quando a redução das vendas é intensa e persistente. Pequenas e médias empresas podem ter maior dificuldade porque normalmente possuem menos capital, menos compradores e menor presença internacional.

Transportadoras, portos, fabricantes de embalagens, prestadores de manutenção e outros fornecedores também podem ser afetados.

Como a tarifa pode chegar ao orçamento das famílias

A cobrança ocorre na entrada do produto brasileiro nos Estados Unidos. Por isso, não haverá um aumento automático de 25% nos preços pagos pelos consumidores no Brasil.

Para as famílias brasileiras, o principal risco é a renda. Trabalhadores ligados a empresas exportadoras podem enfrentar redução de horas extras, benefícios, participação nos resultados ou vagas disponíveis.

Outro canal possível é o câmbio. Uma desvalorização do real provocada por maior incerteza internacional poderia encarecer componentes importados, eletrônicos, peças, fertilizantes e produtos químicos. Esse efeito, porém, dependerá do comportamento do mercado financeiro e não pode ser atribuído antecipadamente apenas à nova tarifa.

Também pode ocorrer o movimento inverso: produtos que deixarem de ser vendidos nos Estados Unidos poderão ser direcionados ao mercado brasileiro ou a países vizinhos, aumentando a oferta. A possibilidade varia conforme o tipo de mercadoria, as regras sanitárias, as especificações do comprador e a capacidade de armazenamento.

Por que os Estados Unidos impuseram a tarifa

A investigação do USTR reuniu reclamações em seis áreas:

-- comércio digital e serviços de pagamento eletrônico
-- tarifas preferenciais concedidas pelo Brasil
-- aplicação de normas anticorrupção
-- proteção da propriedade intelectual
-- acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro
-- fiscalização do desmatamento ilegal

O governo norte-americano afirma que determinadas políticas brasileiras são discriminatórias ou restringem o comércio dos Estados Unidos.

O governo brasileiro rejeita essa interpretação. Antes do anúncio final, representantes do MDIC e do Ministério das Relações Exteriores classificaram a recomendação de 25% como injusta e disseram que os argumentos apresentados não justificavam a aplicação da tarifa.

Existe risco de outra tarifa

O Brasil também aparece em uma investigação norte-americana relacionada ao combate ao trabalho forçado em cadeias produtivas de dezenas de economias.

Foi discutida uma tarifa adicional de 12,5%, mas essa cobrança deve ser tratada como proposta pendente, e não como medida já em vigor.

Caso seja confirmada e acumulada com a tarifa de 25%, determinados produtos poderiam enfrentar uma sobretaxa total de 37,5%. O alcance, as exceções e a data dependerão da decisão final dos Estados Unidos.

Exportadores brasileiros e compradores norte-americanos podem apresentar dados que demonstrem dependência do produto brasileiro, ausência de fornecedores alternativos e risco de aumento de custos nos Estados Unidos.

A ampliação da lista final mostra que esse tipo de argumentação pode produzir resultados.

Apoiar empresas e trabalhadores

Medidas possíveis incluem capital de giro, garantias de crédito, seguro à exportação, adiamento de tributos e programas de qualificação profissional.

O apoio deve ser temporário, direcionado às empresas efetivamente atingidas e acompanhado de medidas para preservação de empregos e busca de novos mercados.

Diversificar destinos

A venda para outros países ajudou o Brasil a compensar parte da queda nas exportações aos Estados Unidos em 2025. A China importou cerca de US$ 100 bilhões em produtos brasileiros naquele ano, enquanto também cresceram as vendas para Índia e mercados latino-americanos.

A substituição, contudo, não é imediata. Máquinas, móveis, roupas e alimentos processados podem precisar de certificações, adaptações técnicas e novas redes de distribuição.

Avaliar a reciprocidade com cautela

O Brasil pode analisar contramedidas comerciais, mas uma retaliação ampla poderia aumentar o preço de máquinas, medicamentos, componentes e outros insumos utilizados no país.

Qualquer resposta deve considerar a existência de fornecedores alternativos, o efeito sobre a inflação e o impacto sobre empresas e consumidores brasileiros.

Impacto deve ser concentrado, não uniforme

A nova tarifa não significa que toda a indústria brasileira perderá vendas ou empregos. As exceções preservam produtos importantes, e os Estados Unidos não são o destino da maior parte das exportações do Brasil.

O risco é mais elevado para empresas que vendem parcela significativa da produção ao mercado norte-americano e que não conseguem substituir rapidamente clientes ou fornecedores.

A extensão do dano dependerá das negociações, do comportamento dos importadores, do câmbio, da abertura de novos mercados e das medidas de apoio adotadas nas próximas semanas.