Os Estados Unidos respondem por 78% das cargas de diesel agendadas pelo Brasil para julho
Em junho, a Rússia detinha 64% e os Estados Unidos, 36%
Os números de julho são preliminares e representam cargas programadasO Brasil redirecionou para os Estados Unidos a maior parte das cargas de diesel programadas para julho de 2026.
Dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis, a Abicom, divulgados pelo Brazil Journal, atribuem 78% dos agendamentos aos Estados Unidos, 17% à Rússia e 5% à Índia. Em junho, as participações de russos e americanos eram de 64% e 36%, respectivamente.
A mudança começou antes de a Rússia suspender oficialmente as exportações, em 8 de julho. Por isso, a decisão de Moscou acelerou uma reorganização que já estava em curso, mas não foi sua única causa.
Por que o diesel russo perdeu espaço
A oferta russa já vinha diminuindo, enquanto os descontos que tornaram o combustível competitivo no Brasil ficaram menores. Com a redução dessa vantagem, cargas produzidas na Costa do Golfo dos Estados Unidos voltaram a ser comercialmente atraentes para compradores brasileiros.
Em 8 de julho, o governo russo proibiu as exportações de diesel até o fim do mês para reforçar o mercado doméstico. A restrição inclui os produtores, mas preserva alguns fornecimentos previstos em acordos governamentais anteriores, como o destinado à Mongólia. Moscou também anunciou que começaria a importar combustíveis.
A medida foi adotada depois de sucessivos ataques ucranianos contra refinarias e outras estruturas energéticas russas. A Ucrânia afirma que as operações buscam limitar a capacidade de Moscou de sustentar a guerra. O governo russo acusa Kiev de tentar prejudicar sua economia e provocar insegurança interna.
Antes mesmo da proibição, as exportações marítimas russas de diesel e gasóleo haviam caído 39% entre maio e junho, para aproximadamente 1,8 milhão de toneladas. Entre 1º e 8 de julho, os embarques ficaram em cerca de 214 mil barris diários, bem abaixo dos 793 mil barris por dia registrados em julho de 2025.
Risco principal está no preço
A contratação de cargas americanas reduz o risco de uma interrupção física do abastecimento brasileiro. Isso não significa, porém, que o preço ficará protegido.
Brasil, Turquia, países europeus e compradores da África passaram a buscar combustível em fornecedores alternativos, especialmente nos Estados Unidos, no Oriente Médio e na Índia. Essa competição ocorre em um mercado no qual estoques de derivados estão reduzidos e a capacidade de refino enfrenta limitações.
As margens europeias de refino do diesel ultrapassaram US$ 60 por barril depois da proibição russa, atingindo nível recorde. O indicador mostra pressão no mercado de combustíveis prontos, mesmo quando a cotação do petróleo cru não sobe na mesma proporção.
Uma alta internacional não chega automaticamente e na mesma intensidade às bombas brasileiras. O efeito dependerá também do câmbio, do frete marítimo, dos estoques, dos contratos das empresas, da produção das refinarias e da política comercial dos fornecedores nacionais.
Brasil continua dependente de importações
A mudança da Rússia para os Estados Unidos diversifica o fornecimento, mas não elimina a dependência externa.
Em janeiro de 2026, o diesel A importado correspondeu a 29,91% das vendas nacionais; 47,1% das importações daquele mês vieram da Rússia. Em abril, a parcela importada foi de 24,75%, e o produto russo representou 46,57% das compras externas.
Diesel A é o combustível de origem fóssil antes da adição obrigatória de biodiesel. Depois da mistura, o produto vendido aos consumidores é denominado diesel B.
O Brasil produz e exporta grandes volumes de petróleo cru, mas não transforma internamente todo esse petróleo na quantidade e nas especificações de diesel exigidas pelo mercado. Capacidade das refinarias, unidades de tratamento, paradas para manutenção e localização da produção também influenciam o balanço.
A Empresa de Pesquisa Energética projeta que a produção nacional de diesel A crescerá 13% entre 2024 e 2034. Mesmo assim, a oferta doméstica continuaria insuficiente, e as importações líquidas poderiam corresponder a 25% da demanda em 2034.
A mudança analisada nesta matéria diz respeito ao diesel pronto. Ela não permite concluir, isoladamente, que houve uma redução equivalente nas compras brasileiras de petróleo cru russo.
Por que o agronegócio acompanha o mercado
O agronegócio é particularmente sensível às oscilações do diesel porque o combustível movimenta máquinas agrícolas e caminhões usados na produção e no escoamento das safras. A EPE identifica uma demanda energética significativa de tratores, colheitadeiras, veículos de carga e outras atividades agroindustriais atualmente atendidas pelo diesel.
Uma elevação de preços pode atingir tanto as operações dentro das propriedades quanto o frete até armazéns, ferrovias e portos. Como o transporte rodoviário também está presente nas cadeias de alimentos, mineração, construção e indústria, a pressão pode se espalhar para outros setores.
O cenário atual, entretanto, não permite afirmar que haverá uma alta específica ou imediata nas bombas. O dado mais seguro é que a substituição dos fornecedores preserva a oferta, enquanto o mercado internacional mais apertado aumenta o risco de encarecimento.
E32 não substitui o diesel
A proposta de elevar de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina pode reduzir a necessidade de gasolina fóssil. O governo estima uma substituição anual de aproximadamente 450 milhões de litros de gasolina importada.
A medida não resolve diretamente o problema tratado nesta matéria. Etanol anidro é adicionado à gasolina usada principalmente por veículos leves; caminhões, ônibus e grande parte das máquinas agrícolas utilizam diesel.
