- 34% dos brasileiros que usam internet relataram golpes ligados ao futebol em 2024 e 2025
- O Procon-SP registrou 238 reclamações relacionadas à Copa entre março e maio de 2026
- IA generativa, Pix e redes sociais aceleram a criação e a disseminação das fraudes
O avanço ocorre em meio a ataques digitais mais sofisticados. A inteligência artificial generativa encurtou o tempo de criação de páginas falsas, mensagens fraudulentas e campanhas de phishing.
Um golpe baseado em campanhas de phishing é uma tentativa de enganar a pessoa para que ela entregue dados pessoais, senhas ou dinheiro acreditando estar falando com uma empresa, banco, loja ou serviço verdadeiro.
Funciona assim: o golpista envia uma mensagem por e-mail, WhatsApp, SMS ou rede social com aparência confiável. Essa mensagem costuma ter um link, uma promoção, uma cobrança falsa, um aviso urgente ou uma suposta oportunidade.
Ao clicar, a vítima pode ser levada a um site falso, muito parecido com o original, onde acaba digitando dados como CPF, senha, número do cartão ou chave Pix.
Por exemplo: alguém recebe uma mensagem dizendo que há “ingressos oficiais da Copa com desconto por tempo limitado”. O link leva a uma página que parece de uma loja real. A pessoa preenche os dados e paga via Pix. Depois descobre que o site não era verdadeiro, o ingresso não existe e o dinheiro foi para os criminosos.
O termo phishing vem da ideia de “pescar” vítimas. O golpista lança várias mensagens como iscas e espera que algumas pessoas caiam no golpe.
Os sinais mais comuns são: preço muito abaixo do normal, mensagem com urgência, erros no endereço do site, pedido de senha fora do ambiente oficial, exigência de pagamento apenas por Pix e links enviados por perfis desconhecidos.

IA acelera criação de golpes
A principal mudança entre os ciclos de 2022 e 2026 está na velocidade das fraudes. Há quatro anos, a montagem de sites falsos e campanhas de phishing exigia mais tempo e conhecimento técnico. Agora, ferramentas de IA permitem que esse processo seja feito em poucas horas.
“Hoje, com ferramentas de inteligência artificial generativa acessíveis a qualquer pessoa, esse ciclo caiu para poucas horas”, afirma Marcelo Souza, vice-presidente de Produto da Certta, empresa de verificação inteligente que reúne soluções antifraude em uma única plataforma.
Os ataques também se tornaram mais personalizados. Em vez de ações genéricas, criminosos usam dados vazados, como CPF, e-mail e histórico de compras, para criar abordagens direcionadas.
Pix muda dinâmica das fraudes
Os meios de pagamento também passaram por uma mudança relevante. Em 2022, cartões e boletos ainda eram predominantes. Em 2026, o Pix ganhou centralidade nas fraudes.
Segundo Marcelo Souza, a rapidez das transferências dificulta a recuperação do dinheiro depois que o golpe é concluído.
“O Pix também muda a equação de forma bastante concreta. A instantaneidade e a irreversibilidade da transação eliminam a janela de reação”, destaca.
Além disso, golpistas criam marcas falsas que se apresentam como parceiras oficiais do evento. Eles também entram em grupos reais de colecionadores e torcedores para ganhar confiança antes de aplicar fraudes.
No Procon-SP, as reclamações ligadas à Copa aumentaram oito vezes nos últimos três meses.
Entre março e maio de 2026, o órgão recebeu 238 queixas sobre o tema. O volume passou de 19 registros em março para 63 em abril e chegou a 156 em maio.
Redes sociais lideram abordagens
As redes sociais continuam sendo o principal caminho usado por criminosos em golpes relacionados à Copa. O Instagram aparece em 51% dos casos, seguido por WhatsApp, com 48%, Facebook, com 35%, e TikTok, com 26%.
As fraudes mais comuns envolvem apostas ilegais, venda de ingressos falsos e comércio de produtos falsificados.
Figurinhas e álbuns entram na mira
As irregularidades não se limitam ao ambiente digital. O Procon-SP também identificou problemas no comércio de itens ligados à Copa, especialmente figurinhas e álbuns.
De março a maio, foram registrados 115 casos de atraso ou não entrega, 34 queixas sobre oferta descumprida ou venda enganosa e 24 reclamações por produtos incompletos ou diferentes do anunciado.
As ocorrências envolvendo figurinhas e álbuns passaram de zero em março para 34 em abril e 109 em maio. As denúncias se concentram em anúncios enganosos e falsificações divulgadas em marketplaces e grupos de mensagens.
Confiança digital vira desafio
Para Marcelo Souza, a popularização da inteligência artificial criou uma nova dificuldade para consumidores e empresas: identificar o que é autêntico e o que foi manipulado.
“Imagens, vídeos e documentos já não são sinônimo de verdade na internet, isso gera uma crise de confiança digital”, afirma.
Ele defende que empresas adotem sistemas mais avançados de autenticação e monitoramento do comportamento dos usuários.
“Se os cibercriminosos alteram suas táticas em questão de horas, por que muitas companhias ainda levam semanas ou meses para atualizar regras de prevenção?”, questiona.
Para o executivo, a proteção dependerá cada vez mais da verificação de identidade e da capacidade de detectar, em tempo real, comportamentos fora do padrão.
“A confiança real se constrói na camada de identidade, no reconhecimento do usuário e na capacidade de reagir de forma proporcional quando algo foge do padrão”, conclui.
Como reduzir riscos
O Procon-SP orienta consumidores a pesquisar a reputação da loja ou do vendedor, desconfiar de preços muito abaixo do mercado, verificar CNPJ, endereço e canais de atendimento, guardar anúncios, comprovantes e conversas, além de conferir prazo de entrega, regras de troca e condições da oferta.
No caso de figurinhas e produtos colecionáveis, o órgão recomenda verificar se o item é oficial e se o fornecedor está claramente identificado. Consumidores também devem registrar reclamação no Procon mais próximo em caso de problema.
Para compras online, Marcelo Souza recomenda ignorar mensagens com senso de urgência, como contadores regressivos, e desconfiar de preços muito baixos. Ele também orienta verificar se o CNPJ do site corresponde ao setor de varejo e evitar empresas com registros incompatíveis, como consultorias ou companhias da construção civil.
Outra medida é consultar a data de criação do domínio em serviços WHOIS. Sites criados há menos de 30 dias são considerados fortes indícios de fraude. Também é recomendável evitar páginas que aceitam apenas Pix, já que lojas confiáveis costumam oferecer formas variadas de pagamento, como cartão e boleto, que permitem contestação.

Caiu no golpe? Veja o que fazer
Quem caiu em golpe relacionado à Copa deve agir rapidamente. A primeira providência é interromper o contato com o golpista e não fazer novos pagamentos, mesmo que a pessoa prometa liberar ingresso, produto, reembolso ou prêmio mediante nova taxa.
Também é importante guardar todas as provas: prints do anúncio, conversas, perfil do vendedor, endereço do site, comprovante de Pix ou cartão, e-mails, número de telefone, chave Pix, CNPJ informado e qualquer dado usado na negociação. Essas informações ajudam o banco, o Procon e a polícia a analisar o caso.
Se o pagamento foi feito por Pix, a vítima deve procurar imediatamente o banco ou instituição financeira e pedir a abertura do Mecanismo Especial de Devolução, o MED.
Segundo o Banco Central, o pedido pode ser registrado em até 80 dias após a transação, em casos de fraude, golpe ou crime. O banco avalia o caso e, se houver indícios de fraude, pode bloquear valores disponíveis na conta que recebeu o dinheiro.
A análise deve ocorrer em até sete dias; se a fraude for confirmada, a devolução pode ser feita total ou parcialmente, conforme o dinheiro ainda disponível na conta do fraudador.
Se a compra foi feita com cartão, a orientação é entrar em contato com a administradora ou com o banco emissor e solicitar a contestação da compra. A vítima deve explicar que se trata de possível fraude e anexar os comprovantes disponíveis.
Também é recomendável registrar boletim de ocorrência. Na Bahia, a Polícia Civil informa que a Delegacia Virtual permite o registro on-line de ocorrências e que casos de estelionato estão entre os serviços disponíveis pela plataforma.
Quando houver envolvimento de loja, marketplace, banco, plataforma de pagamento ou empresa identificável, o consumidor pode registrar reclamação no Procon e também no Consumidor.gov.br.
A plataforma do governo federal permite a interlocução direta entre consumidores e empresas para solução de conflitos de consumo pela internet, com acompanhamento da Senacon e dos Procons.
A vítima também deve denunciar o anúncio, perfil, grupo ou página falsa na rede social ou marketplace onde encontrou a oferta. Isso ajuda a reduzir a circulação do golpe e pode evitar novas vítimas.
Em caso de envio de documentos, senhas, dados bancários ou número de cartão, a pessoa deve trocar senhas, ativar autenticação em duas etapas, avisar o banco e acompanhar movimentações suspeitas.
Se houver uso indevido de dados pessoais, o boletim de ocorrência e os registros feitos nos canais de atendimento serão importantes para contestar cobranças, compras ou abertura de contas não reconhecidas.

