
O Brasil registrou 1.428 denúncias de antissemitismo em 2025, das quais 989 foram consideradas válidas após análise.
Apesar da redução em relação ao pico observado em 2024, o volume permanece significativamente acima dos níveis registrados em 2022, indicando a consolidação de um patamar elevado de hostilidade contra judeus no país.
O levantamento integra o Relatório de Antissemitismo no Brasil 2025, que analisa dados a partir do monitoramento de ocorrências e denúncias em todo o território nacional.
A maioria dos episódios ocorreu no ambiente digital. Das 989 ocorrências classificadas como antissemitas, 800 foram registradas em plataformas online, enquanto 189 ocorreram offline, incluindo agressões verbais, vandalismo e ameaças.
A predominância do ambiente digital evidencia a transformação das redes sociais no principal espaço de disseminação de conteúdos hostis, além de facilitar a propagação rápida e ampliada dessas manifestações.

A série histórica demonstra uma mudança significativa a partir de 2023. Até setembro daquele ano, as denúncias mensais variavam entre 19 e 73 registros. A situação mudou abruptamente após outubro de 2023, quando ocorreu um aumento expressivo, culminando em novembro com 539 denúncias, o maior volume mensal já registrado.
Em 2023, o total anual chegou a 1.410 ocorrências. Em 2024, o número subiu para 1.788 denúncias, consolidando o período como o mais crítico da série histórica.
Em 2025, apesar da redução, o volume permaneceu elevado, indicando estabilização em níveis superiores aos observados antes de 2023.
A classificação das ocorrências mostra que a incitação ao ódio foi a categoria mais frequente, com 451 registros, representando 45,9% dos casos. Em seguida, aparecem as denúncias relacionadas à desinformação, com 308 ocorrências, e agressões verbais, com 125 registros.
Casos de vandalismo somaram 36 episódios, enquanto ameaças ou agressões físicas totalizaram 15 ocorrências.
O relatório destaca que a predominância de manifestações discursivas não reduz a gravidade do fenômeno, já que a normalização dessas narrativas pode ampliar riscos e estimular episódios mais graves.
No recorte geográfico, São Paulo concentrou 238 denúncias, correspondendo a 24,06% das ocorrências com localização definida. O Rio de Janeiro aparece em seguida, com 100 casos, e o Rio Grande do Sul, com 63 registros. No entanto, 462 denúncias foram classificadas como “sem estado”, principalmente por estarem relacionadas a conteúdos online, cuja origem territorial não foi possível identificar. Essa característica reforça a dimensão digital do fenômeno e a dificuldade de localização geográfica de muitos episódios.
As redes sociais também concentram a maior parte das denúncias. O Instagram liderou com 297 casos, seguido pelo Twitter/X, com 111, e pelo Facebook, com 93 ocorrências. Outras plataformas, como YouTube, WhatsApp, Threads e TikTok, também registraram episódios, indicando a presença do fenômeno em diferentes ambientes digitais.
Os canais de denúncia mais utilizados foram o WhatsApp, com 297 registros, o Portal de Combate ao Antissemitismo da CONIB, com 258 ocorrências, e o formulário do site da CONIB, com 248 denúncias. O predomínio dos meios digitais evidencia a importância dessas ferramentas para o monitoramento e registro de incidentes.
O relatório também aponta que os números podem ser maiores devido à subnotificação. Apenas 32,58% dos entrevistados afirmaram comunicar organizações de apoio ao presenciarem um episódio de antissemitismo. A maioria, 59,21%, relatou compartilhar o ocorrido apenas com familiares e amigos.
Outros fatores apontados para a ausência de denúncia incluem a percepção de que o episódio não era grave, falta de confiança na eficácia do registro, desconhecimento dos canais disponíveis e medo de exposição ou retaliação.
Casos na Bahia
Em 25 de setembro de 2025, o Beit Chabad de Itacaré, no sul da Bahia, foi vandalizado com uma pichação vermelha nas janelas com os dizeres “Palestina Livre”.
O Relatório de Antissemitismo no Brasil 2025 classifica o episódio como vandalismo contra instituição religiosa judaica e o enquadra como manifestação antissemita por transferir para uma comunidade judaica local a hostilidade ligada ao conflito no Oriente Médio.
Como contexto institucional, o TJBA promoveu entre 12 e 16 de maio de 2025 a Semana da Memória 2025, com o tema “80 Anos do Holocausto: Memória, Justiça e Direitos Humanos”. Nas notas oficiais do tribunal, a iniciativa é apresentada como ação para estimular reflexão pública, educação histórica e combate ao antissemitismo. Isso não constitui, por si só, um caso de ódio, mas indica que o tema já mobilizava atenção institucional na Bahia ao longo de 2025.
Em 2026, judeus foram alvo de hostilidade verbal e intimidação em Morro de São Paulo, na Bahia. As manifestações associaram diretamente os turistas ao conflito entre Israel e Palestina, responsabilizando-os por ações atribuídas ao Estado israelense.
O relatório classifica esse tipo de ocorrência como transferência do conflito internacional para indivíduos judeus, uma das formas contemporâneas de antissemitismo identificadas no estudo. Nesses casos, pessoas são hostilizadas não por ações próprias, mas por sua identidade religiosa ou nacional presumida.
Esse padrão aparece em diferentes episódios no Brasil, segundo o documento, e costuma ocorrer em locais turísticos, universidades e espaços públicos, onde a identificação visual ou linguística facilita a associação imediata com o judaísmo.
