
O preço médio dos combustíveis vendidos pelas distribuidoras aos postos registrou nova alta na terceira semana de março de 2026, com o diesel liderando o movimento. Levantamento baseado em mais de 257 mil notas fiscais eletrônicas indica que o aumento deixou de ser pontual e passou a configurar um ciclo consistente de pressão sobre custos energéticos no Brasil.
A elevação do diesel vem se intensificando ao longo do mês. Na primeira semana de março, a alta média ficou próxima de 9%. Na segunda semana, o avanço superou 19% em algumas variações. Até o dia 23, o Diesel S10 comum acumulou aumento médio nacional de aproximadamente 24,98%, com acréscimo superior a R$ 1,25 por litro nas distribuidoras, consolidando a trajetória de elevação contínua.
O comportamento indica que o movimento não está mais ligado a fatores isolados, mas a uma recomposição estrutural de preços no setor de combustíveis. A tendência amplia a pressão sobre os custos logísticos e produtivos em diferentes segmentos da economia.
Segundo Gilberto Luiz do Amaral, coordenador de estudos e presidente do Conselho Superior do IBPT, o diesel passou a exercer impacto sistêmico. “O diesel se consolidou como o principal vetor de pressão inflacionária neste mês. Como ele está diretamente ligado ao transporte de cargas, qualquer variação relevante tem efeito imediato sobre toda a cadeia produtiva, impactando desde o agronegócio até o consumidor final.”
A análise regional mostra que a alta ocorre de forma disseminada no país. As maiores variações foram registradas no Centro-Oeste e no Nordeste. No Centro-Oeste, o Diesel S10 comum ultrapassou 30% de aumento no período. No Nordeste, as elevações também se aproximam desse patamar, reforçando o caráter generalizado da pressão.
Os dados indicam ainda que o aumento aplicado pelas distribuidoras tem sido rapidamente transferido aos postos. Em diversas regiões, o preço do diesel no varejo já superou R$ 8,00 por litro ao longo de março, demonstrando que o impacto chegou ao consumidor final.
Para o diretor do IBPT, Carlos Alberto Pinto Neto, a dinâmica do mercado mostra repasse praticamente integral. “O que observamos é uma transmissão direta da alta do atacado para o varejo. Mesmo com alguma compressão de margem em determinados momentos, especialmente no diesel, o repasse ocorre porque os custos não são mais absorvíveis ao longo da cadeia.”
A gasolina também apresenta aumento, embora em ritmo inferior ao diesel. Após subir cerca de 2% na primeira semana e ultrapassar 5% na segunda, o combustível acumula alta média próxima de 9% em março, com picos superiores a 13% em regiões do Nordeste.
O etanol, que anteriormente apresentava estabilidade ou queda, passou a registrar leve alta no consolidado do mês. A variação média nacional é de 1,39%. Apesar de manter menor volatilidade, o combustível deixa de funcionar como principal alternativa para reduzir o impacto no orçamento do consumidor.
O levantamento também aponta que a isenção de PIS e Cofins sobre o diesel teve efeito limitado. O reajuste ao longo da cadeia de abastecimento, aliado à volatilidade internacional do petróleo, neutralizou parte do impacto da desoneração.
“O mercado reagiu de forma mais intensa do que as medidas de alívio fiscal. Isso mostra que o problema não está apenas na carga tributária, mas na dinâmica estrutural de formação de preços e na dependência externa do setor”, afirmou Amaral.
Com a consolidação das altas, os efeitos na economia tornam-se mais evidentes. O aumento do diesel eleva o custo do frete e pressiona preços de alimentos, insumos industriais e bens de consumo.
Setores como agronegócio, indústria e transporte rodoviário enfrentam dificuldades para absorver aumentos que, em algumas regiões, ultrapassam 30%. O cenário tende a gerar efeito cascata nos preços ao consumidor.
O monitoramento semanal aponta que a pressão sobre os combustíveis persiste ao longo de março e segue em intensificação, indicando a possibilidade de continuidade desse movimento nas próximas semanas.
Operação investiga alta de combustíveis
Uma operação conjunta envolvendo Polícia Federal, Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) foi deflagrada nesta sexta-feira (27) em 11 estados e no Distrito Federal, para averiguar postos de combustíveis suspeitos de praticarem aumentos irregulares na venda do produto.
A Operação Vem Diesel é integrada pela Força-Tarefa para Monitoramento e Fiscalização do Mercado de Combustíveis, e conta com a participação de Procons estaduais para identificar “práticas irregulares de aumento de preços nas bombas, fixação de valores entre empresas concorrentes para controle de mercado”.
Segundo a PF, as ações são focadas também em eventuais condutas abusivas que possam acarretar prejuízos ao consumidor.
“Possíveis irregularidades detectadas pelas equipes de fiscalização, que indiquem crimes contra a ordem tributária, econômica ou contra as relações de consumo, serão encaminhadas à PF para a devida apuração de autoria e de materialidade delitiva”, informou por meio de nota.
Balanço divulgado na quinta-feira (26) pelos ministérios da Justiça e de Minas e Energia mostrou que 3.181 postos de gasolina e 236 distribuidoras já foram fiscalizados desde o dia 9 de março, em todo o território nacional.
No mesmo período, foram também fiscalizados 342 agentes regulados pela ANP, sendo 78 distribuidoras.
“Durante fiscalização nas 78 distribuidoras, a ANP lavrou 16 autos de infração por indícios de prática de preço abusivo. Em um dos casos, foram encontrados sinais de aumento de 277% na margem bruta do diesel”, informou a Senacon.
De acordo com a secretaria, as empresas autuadas são: Alesat, Ciapetro, Flagler, Ipiranga, Masut, Nexta, Phaenarete, Raízen, Royal Fic, SIM Distribuidora, Stang, TDC e Vibra Energia. Todas são agora objeto de processo administrativo pela ANP.

