Turismo

Vá 60 andares para baixo de uma montanha (ali há uma catedral)

Onde a fé chegou mais fundo

Foto: Alberto Oliveira | LEIAMAISba
A Catedral de Sal de Zipaquirá, na Colômbia

Você vai descer 180 metros (o equivalente a um prédio de 60 andares), para o coração de uma mina de sal. 

É ali, a 49 quilômetros de Bogotá, capital da Colômbia, no fundo de túneis escavados em rocha salgada, que se encontra um dos conjuntos arquitetônicos mais impressionantes do mundo e um monumento à fé: a Catedral de Sal de Zipaquirá.

A porta de entrada é um túnel com 386 metros de extensão, que leva o visitante cada vez mais para baixo e ao longo do qual estão representadas as 14 estações da Via Sacra.

Cada estação apresenta uma cruz esculpida diretamente na rocha de sal. Não há imagens figurativas tradicionais. O simbolismo aparece na geometria, nos jogos de luz e nas proporções das esculturas.

A iluminação colorida -- geralmente em tons de azul, roxo e verde -- cria contraste com o branco e o cinza do sal, produzindo um ambiente contemplativo.

Estações da Via Sacra
Foto: Alberto Oliveira | LEIAMAISba

As galerias são amplas, com teto alto e piso irregular em alguns trechos. O ar é fresco e levemente úmido, típico de ambiente subterrâneo.

Ao final do percurso da Via Sacra, o visitante chega ao espaço mais impactante: a nave principal.

Ali se encontra a cruz monumental, com cerca de 16 metros de altura, considerada uma das maiores cruzes subterrâneas do mundo. A escultura é vazada na rocha, criando um efeito tridimensional quando iluminada.


Cruz Monumental
Foto: Alberto Oliveira | LEIAMAISba

O altar principal está voltado para bancos fixos que permitem a realização de missas e celebrações religiosas. A Catedral permanece consagrada e recebe eventos litúrgicos regularmente.

A sensação de amplitude surpreende. Mesmo a quase 200 metros de profundidade, o espaço é amplo e bem ventilado.

O interior é dividido em três grandes naves, que representam o nascimento, a vida e a morte de Cristo.

Cada nave possui esculturas diferentes, com destaque para:

-- A Criação do Homem, em baixo-relevo
-- O anjo guardião esculpido em sal
-- A cúpula central, com efeito ótico que amplia a percepção de profundidade

O silêncio é um dos elementos mais marcantes da visita. Mesmo com presença de turistas, o som se dissipa rapidamente devido à profundidade e à configuração dos túneis.

Pontos de atenção

-- O piso pode ser escorregadio em áreas úmidas

-- Pessoas com mobilidade reduzida devem verificar previamente as condições de acesso.

-- A profundidade pode causar leve sensação de pressão em visitantes mais sensíveis, embora isso seja incomum.

Entre os destaques da visita estão:

-- Museus subterrâneos 
-- Projeções multimídia
-- Espaços interativos
-- Trilhas ecológicas (dependendo do tipo de ingresso escolhido)


Museu egípcio

Foto: Alberto Oliveira | LEIAMAISba

Melhor horário - Dê preferência para visitar nas primeiras horas da manhã ou no início da tarde para evitar as multidões que chegam após excursões de grupos maiores.

Conforto na visita - Use calçados confortáveis, pois o passeio envolve caminhadas dentro dos túneis e alguns trechos inclinados.

Clima e temperatura - A temperatura subterrânea é constante e fresca -- leve um casaquinho leve, mesmo em dias quentes em Bogotá.

Fotografias - São permitidas em grande parte dos espaços. Respeite áreas sinalizadas onde o uso de flash ou tripé pode ser proibido.

Como chegar a partir de Bogotá

Chegar à Catedral de Sal de Zipaquirá partindo de Bogotá é relativamente simples, e existem várias opções, que vão de transporte público mais econômico a tours guiados completos:

Ônibus e transporte público

O trajeto até Zipaquirá pode ser feito com ônibus intermunicipais a partir do Terminal de Transporte de Bogotá ou a partir do Portal Norte, estação do sistema de ônibus rápido TransMilenio.

A viagem dura cerca de 1h30 a 2h, dependendo do trânsito, e o passageiro desembarca no centro de Zipaquirá. A partir dali, a Catedral de Sal fica a uma curta distância (caminhada ou táxi) até a entrada principal.

Trem turístico

Uma opção turística e cênica é o trem de Bogotá até Zipaquirá, que circula aos fins de semana e feriados.

A passagem custa aproximadamente 70 mil pesos colombianos (cerca de R$ 100) por adulto (com variações para crianças e idosos) e o trajeto leva cerca de duas horas, passando por paisagens da savana andina.

Carro particular ou táxi

Turistas que alugam carro ou pegam táxi podem seguir pela rodovia principal até Zipaquirá em aproximadamente 1 hora sem trânsito pesado.

Excursões guiadas

Muitos visitantes optam por excursões organizadas saindo de Bogotá. Esses pacotes incluem transporte, guia, e frequentemente os ingressos já estão inclusos -- uma opção prática para quem não quer se preocupar com logística.

Tours com transporte saindo de Bogotá

Além do ingresso à Catedral, muitas excursões oferecidas por operadores turísticos incluem:

-- Transporte de ônibus ou minivan de ida e volta

-- Audioguia em português ou espanhol

-- Paradas em pontos turísticos adicionais da região (em tours combinados com a Lagoa de Guatavita, por exemplo).

Preços típicos para tours completo variam bastante, mas podem ir de cerca de R$ 250 a mais de R$ 750 por adulto, dependendo da duração e serviços incluídos.

Preços dos ingressos

Os preços variam conforme a experiência escolhida e a nacionalidade do visitante e existem diferentes opções que podem incluir visitas audioguiadas.

Veja um roteiro detalhado, com horários sugeridos, pensado para aproveitar ao máximo a experiência, com tempo para visita cultural, gastronomia e passeio pelo centro histórico de Zipaquirá.

7h30 -- Saída de Bogotá

Opção 1: Transporte público
Vá até o Portal Norte do sistema TransMilenio e embarque em um ônibus intermunicipal para Zipaquirá.
-- Tempo médio de viagem: 1h30 a 2h, dependendo do trânsito.

Opção 2: Carro alugado ou aplicativo
Pela Autopista Norte, o trajeto pode levar cerca de 1 hora em boas condições de tráfego.

Opção 3: Trem turístico
O Tren Turístico de la Sabana opera aos fins de semana e feriados.

A viagem é mais longa, mas oferece paisagens da savana andina e clima nostálgico.

Dica: Saia cedo para evitar congestionamentos na saída norte da cidade.

9h30 -- Chegada a Zipaquirá e caminhada até o parque

Ao chegar ao centro, caminhe cerca de 15 a 20 minutos até o Parque da Sal, onde fica a entrada da Catedral.

10h -- Visita à Catedral de Sal

Reserve pelo menos 2 a 3 horas para a experiência completa.

O que você verá:

-- As 14 estações da Via Sacra esculpidas em sal
-- A grande nave central a 180 metros de profundidade
-- A cruz monumental iluminada
-- Espaços interativos e projeções audiovisuais
-- Museus 
-- Espelho d'água


O espelho d'água

Foto: Alberto Oliveira | LEIAMAISba

Dica importante - A iluminação muda ao longo do percurso. Espere alguns segundos antes de fotografar para captar melhor as cores.


Galerias que levam a lojas e restaurantes

Foto: Alberto Oliveira | LEIAMAISba

13h -- Almoço no centro histórico

Após a visita subterrânea, retorne ao centro de Zipaquirá para almoçar (há, também, 2 restaurantes próximo à área de venda de ingressos)

Sugestões típicas
-- Ajiaco colombiano
-- Bandeja paisa
-- Truta andina

Muitos restaurantes funcionam em casarões coloniais restaurados.

14h30 -- Passeio pelo Centro Histórico

Explore com calma:

-- Plaza de los Comuneros
-- Catedral Diocesana
-- Ruas coloniais com lojas de artesanato

Se houver tempo, visite pequenos museus locais que contam a história da mineração de sal.

16h30 -- Retorno a Bogotá

Saindo nesse horário, é possível evitar o pico mais intenso de tráfego noturno.

Se estiver de trem turístico, verifique o horário exato de retorno, que costuma ocorrer no fim da tarde.

Dicas estratégicas para aproveitar melhor

-- Vá durante a semana para menos movimento

-- Evite feriados colombianos se quiser mais tranquilidade

-- Leve dinheiro em espécie para pequenas compras

-- Combine o passeio com a Lagoa de Guatavita se tiver dois dias disponíveis

-- Reserve ingressos online em alta temporada

Tempo total do passeio - Cerca de 8 a 10 horas, considerando deslocamento e almoço.

Séculos de exploração e fé

A mina onde hoje funciona a Catedral de Sal de Zipaquirá tem uma história que antecede em muitos séculos a construção do templo subterrâneo. Localizada no atual município de Zipaquirá, a jazida de sal é explorada desde tempos pré-colombianos e desempenhou papel decisivo na formação econômica e social da região andina da Colômbia.

Muito antes da chegada dos europeus, o sal já era considerado um recurso estratégico.

Os povos indígenas muíscas, que habitavam o altiplano cundiboyacense, exploravam o sal de Zipaquirá muito antes do século XVI.

Eles não escavavam túneis profundos como os atuais. A extração era feita por meio da evaporação da água salobra retirada de depósitos naturais. O produto final era moldado em blocos compactos que funcionavam como moeda de troca.

O sal garantia aos muíscas poder comercial e influência política na região. Por isso, era conhecido como “ouro branco”.


Monumento ao mineiro

Foto: Alberto Oliveira | LEIAMAISba

Com a chegada dos espanhóis, no século XVI, a exploração ganhou escala maior.

A Coroa espanhola assumiu o controle das minas, transformando o sal em monopólio colonial. A produção abastecia centros urbanos e sustentava parte da economia do Vice-Reino de Nova Granada.

Durante esse período, técnicas rudimentares deram lugar a métodos mais organizados de extração subterrânea.

A mineração tornou-se atividade essencial para a consolidação de Zipaquirá como núcleo urbano.

Após a independência da Colômbia, no início do século XIX, o controle das minas passou ao Estado.

O sal continuou sendo um produto estratégico. A receita proveniente da exploração ajudou a financiar projetos públicos e a estruturação administrativa do país.

Zipaquirá consolidou-se como cidade mineradora. A economia local passou a depender fortemente da atividade extrativa.

Ao longo do século XX, a mina passou por modernização.

Foram abertas galerias mais profundas e implantados sistemas mecânicos de extração. O trabalho, porém, continuava exigente e arriscado.

Com o tempo, parte das galerias antigas apresentou instabilidade estrutural.

Foi nesse contexto que mineiros começaram a escavar pequenos oratórios subterrâneos, buscando proteção espiritual antes das jornadas de trabalho.

A primeira catedral subterrânea

Em 1954, foi inaugurada a primeira catedral dentro da mina.

A estrutura ficava em uma área ativa de exploração. Apesar do impacto simbólico, problemas de segurança levaram ao seu fechamento em 1992.

Estudos técnicos indicaram risco de desabamento em algumas galerias.

Após concurso público de arquitetura, iniciou-se a construção de uma nova catedral em área geologicamente mais segura.

A atual estrutura foi inaugurada em 1995, mantendo parte do simbolismo original, mas com engenharia moderna.

A mina deixou de ser exclusivamente espaço industrial e passou a integrar turismo, cultura e religiosidade.