Mundo

Sistema de saúde em Cuba
está à beira de um colapso

Há um surto de doenças, em meio à falta de diagnósticos eficazes e tratamentos adequados

Leia Mais Rápido
O sistema de saúde cubano enfrenta risco de colapso devido à crise econômica e à escassez de energia e combustível. Hospitais sofrem com apagões, falta de medicamentos e interrupção de tratamentos para doenças crônicas. Autoridades alertam para agravamento humanitário, enquanto o governo tenta medidas emergenciais para conter os impactos.

O sistema de saúde pública cubano está à beira do colapso, resultado de uma crise econômica profunda e de uma severa escassez de energia e combustíveis que afetam diretamente o funcionamento das instituições de saúde.

O ministro de Saúde de Cuba, José Ángel Portal Miranda, declarou que o sistema de saúde, já fragilizado historicamente, está sendo empurrado "para o limite" por causa de um bloqueio ao fornecimento de combustível que impede o funcionamento normal de hospitais e serviços médicos.

Hospitais enfrentam apagões frequentes, ambulâncias têm dificuldade para operar por falta de combustível e até voos que traziam suprimentos médicos estão suspensos porque a ilha não consegue abastecer aeronaves.

Quase 33 mil gestantes em Cuba enfrentarão riscos adicionais devido ao bloqueio energético imposto pelo governo dos Estados Unidos, segundo o Granma, órgão oficial do Partido Comunista Cubano. 

Essa situação agrava um problema que já vinha de anos: a escassez de medicamentos, equipamentos e materiais básicos em unidades de saúde cubanas, resultado tanto de problemas econômicos persistentes quanto das difíceis condições de importação.

Segundo Portal Miranda, pacientes com doenças crônicas, como câncer, diabetes e insuficiência renal, estão entre os mais afetados. Ele mencionou que milhões de pessoas podem ter seus tratamentos interrompidos ou comprometidos pela falta de recursos básicos, incluindo equipamentos que dependem de energia elétrica estável.

Especialistas internacionais e líderes sociais alertam que esse processo pode se tornar uma crise humanitária, caso o atendimento médico básico -- como cirurgias, quimioterapia e suporte para cuidados críticos -- não seja restabelecido com urgência.

A situação atual não surgiu de forma isolada. Cuba enfrenta um conjunto de desafios econômicos, energéticos e sociais que se intensificaram nos últimos anos.

Entre eles:

Escassez crônica de energia, com apagões frequentes que interrompem o funcionamento de serviços essenciais, incluindo hospitais.

Falta de combustível, agravada por bloqueios ao fornecimento de petróleo, o que impacta desde transporte de pacientes até geração de eletricidade.

Racionamento e falta de produtos básicos, que afetam também o saneamento e as condições de higiene necessárias para prevenção de doenças.

Movimentos sociais e protestos, expressando a insatisfação de parte da população com as condições de vida e serviços públicos deteriorados.

Diante desse contexto, a Organização das Nações Unidas e grupos de direitos humanos têm observado com preocupação o aumento de doenças infecciosas e situações sanitárias que escapam ao controle tradicional de Cuba, além de relatórios apontarem dificuldades de acesso à água potável e serviços básicos de higiene.

Medidas emergenciais

O governo cubano afirmou que tem tomado medidas emergenciais, como a instalação de painéis solares em unidades de saúde e a priorização no atendimento de grupos mais vulneráveis -- crianças, idosos e pacientes com doenças graves.

Entretanto, organizações independentes, incluindo o Observatório Cubano de Direitos Humanos, argumentam que a situação já ultrapassou uma simples crise operacional e exige reconhecimento formal como emergência sanitária nacional.

Esses grupos denunciavam surtos de doenças como dengue e chikungunya em meio à falta de diagnósticos eficazes e tratamentos adequados em muitas regiões do país.

O Ministério da Saúde Pública de Cuba informou, conforme divulgado pelo Granma, que a escassez de combustível tem afetado de forma direta a assistência materno-infantil.

Entre os impactos estão dificuldades no acesso a ultrassonografias obstétricas para monitoramento do bem-estar fetal e exames genéticos voltados ao diagnóstico precoce de malformações.

Ainda de acordo com o ministério, há restrições na mobilização das comissões responsáveis por acompanhar casos de morbidade materna extremamente grave e de recém-nascidos em estado crítico.

O cenário também provoca atrasos no calendário de vacinação infantil e coloca em risco crianças com necessidades especiais que dependem de ventilação domiciliar, aspiração mecânica e climatização adequada. Soma-se a isso a disponibilidade reduzida de transporte sanitário para atendimentos de urgência e emergência.

As limitações podem afetar significativamente quase 62 mil crianças com menos de um ano que demandam cuidados específicos nessa fase inicial da vida.

O ministério também apontou prejuízos no atendimento a emergências médicas, pacientes com câncer e no acompanhamento de programas voltados a doenças crônicas não transmissíveis e transmissíveis. Segundo o órgão, esse contexto tem impacto direto no aumento da mortalidade no país.

O Granma informa ainda que as novas medidas classificadas como arbitrárias pelo governo cubano tendem a intensificar as dificuldades para aquisição de medicamentos, insumos, reagentes, materiais descartáveis, instrumentos médicos, equipamentos e peças de reposição.

A situação compromete o funcionamento pleno de hospitais, unidades especializadas, centros cirúrgicos e terapias intensivas.

Outro fator apontado é a redução da frequência de voos comerciais e o encarecimento do transporte de cargas, o que dificulta a importação de medicamentos e outros recursos considerados essenciais para o sistema de saúde, inclusive aqueles transportados em caráter emergencial.