
A Polícia Federal encontrou indícios do envolvimento de autoridades com foro privilegiado nas investigações sobre fraudes no Banco Master. As informações, divulgadas pela Folha de S.Paulo, indicam que parte da apuração deverá seguir no Supremo Tribunal Federal (STF).
De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, provas obtidas pela PF na primeira fase da Operação Compliance Zero, que teve como alvo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, incluem menções a líderes partidários e autoridades de alto escalão. Investigadores ouvidos sob anonimato relataram que os materiais analisados contêm “vários achados” envolvendo essas figuras, embora não diretamente relacionados ao inquérito original sobre crédito consignado fraudulento.
A operação teve início em 18 de novembro de 2023, mesmo dia em que o Banco Master foi liquidado. Na ocasião, a PF quebrou os sigilos de Vorcaro, apreendeu documentos e acessou seu telefone celular. A investigação trata de fraudes na criação de carteiras de crédito consignado que seriam vendidas ao Banco de Brasília (BRB), esquema que fundamentou a decisão da Justiça Federal para autorizar a operação.
Ainda segundo a Folha, Vorcaro ficou conhecido em Brasília por sua aproximação com políticos e por sediar encontros em uma mansão na capital. Essa rede de relações gerou tensão entre autoridades após sua prisão, alimentando o receio de que sejam expostas conexões pessoais e financeiras com o ex-banqueiro.
Investigadores comparam a amplitude das conexões de Vorcaro àquelas reveladas na Operação Lava Jato. Com base nos novos dados, a PF pretende aprofundar as investigações para esclarecer a eventual participação de autoridades nos esquemas fraudulentos. Parte dessas informações se soma ao material reunido na segunda fase da operação, que apura o uso de fundos da gestora Reag para desvio de recursos captados pelo Master com a venda de CDBs.
A segunda fase, realizada em janeiro, foi autorizada pelo ministro do STF Dias Toffoli, após a defesa de Vorcaro apontar menção ao deputado João Bacelar (PL-BA), que possui foro especial. No entanto, segundo a Folha de S.Paulo, Bacelar não é o foco atual das investigações, que também envolvem outros parlamentares.
Em depoimento prestado à PF em dezembro, Vorcaro minimizou suas ligações com autoridades. "Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo", declarou, conforme publicado pela Folha.
As apurações relacionadas a políticos devem ser desmembradas do inquérito principal. Enquanto o caso do BRB-Master pode ser enviado à Justiça de primeira instância, a parte que envolve autoridades continuará sob responsabilidade do STF.
A Folha de S.Paulo revelou também que ministros do Supremo articularam o envio parcial do caso à instância inferior como forma de reduzir a pressão sobre o tribunal, especialmente após revelações sobre vínculos entre integrantes da corte e negócios do Banco Master. Entre os pontos de atrito está a sociedade que dois irmãos de Toffoli mantiveram com um fundo ligado ao cunhado de Vorcaro no resort Tayayá, no Paraná.
Diante do desgaste institucional, o presidente do STF, Edson Fachin, chegou a declarar ao portal G1 que havia uma “tendência” de o caso deixar o tribunal. Contudo, a identificação de políticos com foro deve levar a um redirecionamento, mantendo parte da investigação no STF e remetendo à primeira instância apenas a apuração sobre as carteiras fraudulentas.
A investigação sobre o BRB está em estágio avançado e pode ser finalizada em breve. A PF deve elaborar um relatório com os indícios de crime atribuídos aos principais suspeitos. Ainda assim, conforme apurou a Folha, há preocupação entre agentes envolvidos de que a frente envolvendo políticos não avance devido à pressão sobre o STF.
Conversa com o governador de Brasília
A coluna Eixo Capital, do jornal Correio Braziliense, revelou trechos do depoimento prestado à Polícia Federal pelo dono do Master, em que ele explicou o contexto dos encontros com o governador Ibaneis Rocha (MDB) para tratar da compra do banco pelo BRB.
Vorcaro respondeu às perguntas da delegada Janaina Palazzo sobre conexões políticas:
Delegada: O senhor conversou com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a proposta de aquisição do Banco Master pelo BRB, anunciada em 28 de março de 2025?
Vorcaro: Conversei em algumas poucas oportunidades, sim.
Delegada: Em caso afirmativo, quantas vezes o senhor encontrou ou conversou com o governador Ibaneis Rocha entre janeiro de 2024 e novembro de 2025? Peço que indique datas aproximadas, locais e assuntos tratados. O governador foi até sua casa, aqui em Brasília?
Vorcaro: Já foi à minha casa, se eu não me engano uma vez. E eu já fui à casa dele. A gente se encontrou poucas vezes. Conversas institucionais, todas na presença também da… (interrupção)
Delegada: Quais os outros políticos, deputados, senadores que o senhor costumava convidar para ir até sua casa?
Vorcaro: Aí, a pergunta… eu tenho amigos de todos os Poderes, não consigo nominar aqui individualmente quem que frequentava a minha casa. Também não vejo qual relação com o caso.
De acordo com o portal de notícias Gazeta do Povo, a delegada da Polícia Federal, Janaina Palazzo, responsável pelo caso, perguntou ao banqueiro se alguns de seus "amigos políticos" teriam tentado viabilizar a venda do Master ao BRB.
“Eu queria só dizer o seguinte, se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo”, respondeu Vorcaro.
