
O Irã enfrenta uma das mais graves ondas de protestos em sua história recente, iniciada em 28 de dezembro de 2025, e que rapidamente evoluiu de manifestações econômicas para um movimento nacional de oposição ao regime teocrático que governa o país desde 1979.
As manifestações tiveram início em Teerã, quando comerciantes fecharam suas lojas em protesto contra a desvalorização sem precedentes da moeda nacional, o rial, que perdeu mais da metade de seu valor frente ao dólar. A inflação elevada -- com preços de alimentos até 72% mais altos em relação ao ano anterior -- e os cortes em subsídios essenciais agravaram ainda mais as condições de vida da população.
Embora tenham começado como protestos por questões econômicas, as demonstrações ampliaram seus objetivos para críticas diretas ao sistema político dominado pelo Supremo Líder e pela elite clerical do país.
Desde o final de dezembro, protestos foram registrados em praticamente todas as 31 províncias do país, refletindo uma insatisfação que ultrapassa estratos sociais e regiões.
As forças de segurança -- incluindo a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a polícia -- responderam com repressão intensa, usando gás lacrimogéneo, balas reais, disparos com metal e prisões em massa. Amnesty International e Human Rights Watch relataram o uso ilegítimo de força letal em diversas cidades.
Organizações de direitos humanos estimam que mais de 500 pessoas foram mortas e mais de 10 000 detidas nas duas primeiras semanas de protestos, incluindo civis e agentes de segurança.
Casos específicos ilustram a violência do confronto: entre os mortos está a estudante de 23 anos Rubina Aminian, baleada na cabeça durante um protesto em Teerã, segundo a Human Rights Activists News Agency.
Repressão e cortes de comunicação
O governo iraniano bloqueou o acesso à internet em todo o país, dificultando a verificação de informações e limitando a cobertura da mídia internacional. Isso tem sido interpretado como uma estratégia para controlar a narrativa dos acontecimentos e dificultar a mobilização dos protestos.
Relatos também indicam que forças do Estado invadiram hospitais, reprimiram feridos e perseguiram famílias de vítimas, aumentando o clima de medo entre a população.
A crise interna no Irã ganhou dimensão internacional após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou que Washington poderia intervir militarmente caso a repressão aos manifestantes continuasse, e que está “pronto para ajudar” os iranianos na busca por liberdade.
O Parlamento iraniano respondeu com alertas, afirmando que qualquer ação militar dos EUA resultaria em “uma ofensiva sem precedentes”, ameaçando alvos americanos e israelenses.
Enquanto isso, Teerã declarou que está preparado para a guerra, embora também diga que está disposto a negociar em condições de respeito mútuo.
O presidente iraniano Masoud Pezeshkian tentou acalmar a população propondo reformas econômicas, mas a resposta violenta do regime e a amplitude regional das manifestações indicam que o descontentamento vai além de medidas econômicas pontuais.
Organizações internacionais de direitos humanos pedem uma investigação sobre o uso excessivo de força, o fim das prisões arbitrárias e a liberação de menores detidos.
Alguns analistas ressaltam que o padrão de repressão faz parte de uma tradição histórica do Irã em enfrentar dissidências com medidas duras, inclusive interrompendo a comunicação e controlando informações -- práticas similares às observadas em grandes movimentos anteriores de protesto no país.
A crise econômica profunda, combinada com décadas de sanções internacionais, gestão fiscal problemática e déficits em serviços essenciais, como água e energia, alimentou tensões sociais que se manifestam agora em protestos amplos e multifacetados.
Especialistas alertam que -- sem reformas estruturais significativas e abertura política -- o Irã pode enfrentar instabilidade contínua, com implicações para sua segurança interna e para as já tensas relações com potências globais.
