Poucos elementos são tão estratégicos quanto a energia para a manutenção de regimes políticos, especialmente aqueles que enfrentam sanções externas, crises internas e dependência estrutural de aliados ideológicos. É o caso de Cuba, cuja sobrevivência energética e funcionalidade econômica vêm, há décadas, amparadas por acordos de cooperação com países aliados.
Desde o colapso da União Soviética, que mergulhou a ilha no chamado "Período Especial", a Venezuela surgiu como novo fiador energético da economia cubana.
A aliança entre Cuba e Venezuela se consolidou no início dos anos 2000, impulsionada pelo alinhamento entre Fidel Castro e Hugo Chávez. Em 2000, ambos os países firmaram o Acordo Integral de Cooperação, pelo qual a Venezuela se comprometeu a fornecer petróleo a preços subsidiados em troca de serviços médicos, educacionais e técnicos cubanos. O petróleo venezuelano passou a representar cerca de 60% do consumo energético cubano.
Durante o auge da produção petroleira venezuelana, entre 2005 e 2012, Cuba recebia entre 90 mil e 100 mil barris por dia (bpd). Isso permitiu não só manter a economia funcionando minimamente, como também criar excedentes para reexportação, gerando receitas cruciais para Havana.
Entretanto, com a queda da produção da petrolífera PDVSA, agravada por má gestão, sanções norte-americanas e a crise interna venezuelana, esse volume despencou. Em 2022, a média caiu para cerca de 56 mil bpd, segundo dados da Reuters e da consultoria Argus. Em 2023 e 2024, houve meses em que os embarques foram ainda mais baixos, comprometendo setores vitais como transporte, geração elétrica e abastecimento industrial em Cuba.
Cuba produz internamente apenas cerca de 40 mil bpd de petróleo pesado, o que cobre menos da metade de sua demanda. A escassez de combustíveis compromete o funcionamento de usinas termelétricas, responsáveis por mais de 80% da matriz energética da ilha, além de impactar diretamente o transporte público e a distribuição de alimentos e medicamentos.
A falta de combustível desencadeia um efeito cascata. O transporte ineficiente reduz a produtividade, afeta o comércio interno e agrava o desabastecimento. Em 2023, longos apagões voltaram a ser recorrentes em cidades do interior cubano, reacendendo memórias traumáticas dos anos 90. Os protestos populares que eclodiram em julho de 2021 foram, em parte, motivados por essa deterioração das condições básicas de vida.
Em tabuleiro geopolítico em transformação, os apagões de Havana podem iluminar oportunidades políticas para Trump.
Com baixa credibilidade internacional, Cuba tem dificuldades em diversificar seus fornecedores de petróleo. Tentativas de importação da Rússia, Argélia e México têm caráter pontual e insuficiente para suprir o déficit deixado pela Venezuela. Além disso, Cuba não dispõe de recursos cambiais suficientes para comprar petróleo a preços de mercado internacional.
A escassez de petróleo afeta diretamente a capacidade do governo cubano de manter os serviços públicos funcionando e, portanto, sua legitimidade política. Diante da pressão popular crescente, agravada pela emigração em massa (mais de 400 mil cubanos deixaram a ilha entre 2021 e 2023, segundo dados da US Customs and Border Protection), o regime se vê diante de um dilema: ou encontra novas fontes de apoio externo, ou se arrisca a uma instabilidade interna mais severa.
Uma interrupção definitiva no fornecimento de petróleo venezuelano não seria apenas um problema logístico: seria um terremoto político, capaz de acelerar transformações internas ou precipitar uma nova crise sistêmica. Mais do que nunca, Cuba se vê diante da necessidade de repensar seu modelo econômico, diversificar suas fontes de energia e buscar novos parceiros -- sob pena de reviver os traumas do passado recente.
Quanto maior a instabilidade em Havana, maior o capital político para Trump entre latinos conservadores, o que pode ser decisivo nos estados que costumam decidir a eleição americana.
Uma crise cubana alimenta o discurso de colapso do socialismo, reforçando a narrativa de que os regimes alinhados à esquerda na América Latina são falidos, autoritários e perigosos. Isso não apenas serve à retórica ideológica trumpista, como cria terreno fértil para impulsionar sua imagem de liderança firme contra o que chama de “ameaça vermelha no hemisfério”.
Havana, mais uma vez, volta ao centro das disputas que transcendem seu território -- uma ilha pequena, mas com eco desproporcional no jogo político da maior potência do mundo.
