Política

Entenda como a prisão de Maduro afeta a política da América Latina

Donald Trump declarou que a ação inaugura uma nova fase nas relações com governos hostis no continente

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A captura de Nicolás Maduro pelos EUA marca uma nova fase da política de segurança americana na América Latina. A operação impacta a fronteira brasileira, pressiona o governo Lula diplomática e estrategicamente, e sinaliza que Washington tratará regimes hostis como ameaças diretas à sua segurança.

A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, na madrugada de sábado (3 de janeiro), representa uma mudança significativa na atuação de Washington na América Latina, sinalizando uma nova abordagem estratégica e gerando repercussões imediatas no Brasil.

Segundo informações do portal de notícias Gazeta do Povo, a operação reflete uma nova disposição do governo americano em adotar ações diretas na região. A medida já estava sinalizada na nova Estratégia Nacional de Segurança lançada no final do ano passado, vista por analistas como uma releitura da Doutrina Monroe, que historicamente reforça a hegemonia dos EUA sobre o hemisfério ocidental.

O presidente Donald Trump declarou que a ação inaugura uma nova fase nas relações com governos hostis no continente. A operação ocorreu após semanas de tensão, com sanções econômicas, discursos duros e movimentações militares no Caribe.

O impacto para o Brasil foi imediato na região fronteiriça com a Venezuela. Autoridades venezuelanas anunciaram o fechamento temporário da passagem terrestre com Roraima no sábado, medida revertida algumas horas depois, conforme reportado por agências internacionais.

O Itamaraty informou que a situação está sob controle e que não há registro de aumento atípico no fluxo migratório. Ainda assim, governos federal e estadual reforçaram a vigilância na região, principal ponto de entrada de migrantes venezuelanos e sede de estruturas de acolhimento e assistência humanitária.

No campo diplomático, a detenção de Maduro cria um cenário sensível para o governo brasileiro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou publicamente a ação americana, alegando violação da soberania da Venezuela. A crítica ocorre em um momento em que Lula buscava estreitar o diálogo com Washington por meio de conversas diretas com Trump.

A nova diretriz de segurança dos EUA destaca como prioridades o combate ao crime transnacional, narcotráfico, imigração ilegal e contenção de influências externas, como as da Rússia e da China. Nesse contexto, Trump passou a classificar o regime de Maduro como uma ameaça à segurança nacional, o que forneceu base legal para a intervenção militar.

Para o professor Luiz Augusto Módolo, doutor em Direito Internacional pela USP, essa lógica pode se estender a outros países da região, mesmo sem o uso de força. Ele avalia que o episódio representa um alerta ao Brasil, caso não haja sinais claros de combate ao narcotráfico. “Se Lula não demonstrar disposição em enfrentar o narcotráfico e impedir que o Brasil seja instrumentalizado por organizações criminosas, pode enfrentar problemas no futuro”, afirmou Módolo à Gazeta do Povo.

O Brasil, por exemplo, tem evitado classificar facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas, ao contrário de países como Argentina e Paraguai. Além disso, governos petistas têm histórico de menor ênfase no enfrentamento direto a essas organizações.

Mesmo assim, Módolo avalia que o Brasil não seria o próximo alvo da estratégia americana. Ele considera mais provável que a Colômbia, sob o governo de Gustavo Petro, enfrente maior pressão, embora a chance de uma ação imediata também seja remota. Segundo ele, os EUA podem aguardar uma transição eleitoral no país vizinho. “Maduro esgotou as vias diplomáticas informais. Ignorou os sinais dados pelos EUA e decidiu apostar. Acabou pagando para ver”, concluiu o especialista.