
Um bombardeio norte-americano a uma instalação militar venezuelana na região de Apure, próximo à fronteira com a Colômbia, foi confirmado pelo governo de Nicolás Maduro neste domingo (29). O ataque reacende tensões diplomáticas e militares na América do Sul e é considerado uma grave violação da soberania venezuelana.
O ataque ocorreu em um cais onde autoridades dos EUA acreditam que o Tren de Aragua, uma gangue venezuelana, armazenava entorpecentes e, possivelmente, se preparava para transportar as drogas em embarcações, disseram as fontes.
Ninguém estava no cais no momento do ataque, e não houve mortos, segundo relataram. No entanto, esta foi a primeira operação americana conhecida em território venezuelano.
O presidente Nicolás Maduro classificou o ataque como uma "ação imperialista deliberada" e prometeu "resposta proporcional e imediata". Em discurso transmitido pela televisão estatal, Maduro afirmou que os Estados Unidos "violaram abertamente o direito internacional" e estão tentando "desestabilizar a ordem na América Latina".
"Não é apenas um ataque à Venezuela. É um ataque à soberania de toda a região. Estamos em consulta com nossos aliados do ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América) e da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) para uma resposta conjunta", declarou Maduro.
O governo também acionou o Conselho de Segurança das Nações Unidas, solicitando uma reunião de emergência para tratar da "escalada agressiva dos Estados Unidos contra países soberanos da América Latina".
Pentágono cita combate a grupos armados
O Departamento de Defesa dos Estados Unidos confirmou a operação. De acordo com o porta-voz do Pentágono, John Kirby, a ação foi "cirúrgica e baseada em inteligência precisa", com o objetivo de neutralizar uma célula do grupo narcoterrorista colombiano ELN (Exército de Libertação Nacional) que estaria operando dentro do território venezuelano.
"A operação foi necessária para proteger interesses estratégicos dos EUA e da Colômbia. Não visamos estruturas do governo venezuelano, mas sim uma base operacional de uma organização criminosa envolvida em tráfico internacional de drogas e ataques transfronteiriços", disse Kirby.
A comunidade internacional reagiu com preocupação ao incidente. A China e a Rússia, tradicionais aliadas da Venezuela, condenaram o ataque norte-americano e pediram respeito à soberania dos países sul-americanos. Já o governo colombiano, por sua vez, apoiou a ação dos EUA e reiterou a existência de "acampamentos armados em solo venezuelano que ameaçam a estabilidade regional".
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, declarou que está "seriamente alarmado" com os acontecimentos e apelou por "contenção imediata" de ambas as partes.
"O uso unilateral da força sem autorização do Conselho de Segurança representa uma ameaça à paz global. Apelamos ao diálogo urgente e ao respeito mútuo entre as nações envolvidas", afirmou Guterres.
Analistas militares e geopolíticos avaliam que o ataque pode desencadear uma crise militar na América do Sul, sobretudo se houver retaliação direta da Venezuela. O pesquisador Andrés López, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Buenos Aires (IRI/UBA), aponta que a situação se assemelha a momentos críticos da Guerra Fria na América Latina.
"O envolvimento direto dos Estados Unidos em território venezuelano rompe um precedente que vinha sendo evitado mesmo durante os anos mais tensos entre Washington e Caracas. O risco de confronto militar aberto, envolvendo inclusive países vizinhos, é real", afirmou.
A cotação do petróleo disparou após o anúncio do ataque, com o barril do Brent ultrapassando os US$ 95, reflexo do temor de interrupção nas exportações da Venezuela, que possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo. A crise também aumentou a preocupação sobre a situação humanitária na região, já fragilizada por anos de instabilidade econômica.
Organizações como a Cruz Vermelha e a Human Rights Watch pediram garantias de proteção a civis em áreas próximas às zonas militares, especialmente na região de Apure, onde há comunidades indígenas e populações vulneráveis que podem ser impactadas por uma eventual escalada.

Histórico de tensão entre EUA e Venezuela
As relações entre os Estados Unidos e a Venezuela vêm se deteriorando há décadas, especialmente desde a ascensão de Hugo Chávez ao poder, em 1999. Sanções econômicas, rompimentos diplomáticos e denúncias mútuas de ingerência e conspiração marcaram os últimos 20 anos de tensão bilateral.
Desde 2019, os EUA reconhecem o ex-deputado Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela, desconsiderando o governo de Nicolás Maduro, considerado ilegítimo por Washington. Em 2021, o governo Biden retomou algumas negociações, mas o diálogo foi interrompido após denúncias de violações de direitos humanos em Caracas.
No momento, tropas venezuelanas foram colocadas em estado de alerta máximo nas fronteiras com Colômbia e Brasil. O ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino López, ordenou a mobilização de equipamentos antiaéreos em áreas estratégicas e disse que o país está "pronto para se defender de qualquer agressão adicional".
Em Washington, o Congresso norte-americano deve iniciar uma sessão extraordinária para discutir a legalidade da ação militar e os riscos de uma nova frente de conflito fora do Oriente Médio.
No começo deste ano, Donald Trump ampliou as atribuições da CIA para conduzir operações na América Latina, inclusive em território venezuelano.
Nesse contexto, os EUA lançaram ataques que destruíram mais de 30 embarcações no Mar do Caribe e no leste do Oceano Pacífico, em uma ofensiva descrita por Washington como parte do combate ao narcotráfico.
Trump também determinou o bloqueio de petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela. Embora tenha ameaçado repetidamente realizar ataques em solo venezuelano, até a operação da CIA no início deste mês, as únicas ações conhecidas dos EUA contra alvos ligados à Venezuela haviam ocorrido contra embarcações suspeitas de tráfico em águas internacionais.


