
A Pesquisa Genial/Quaest realizada em março de 2025 e divulgada nesta quarta-feira (2) destaca a segurança pública como uma das principais preocupações da população brasileira durante o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.
A insatisfação com os altos índices de criminalidade e a percepção de ineficácia das políticas públicas de segurança estão refletidas no resultado.
A pesquisa revela que 39% dos entrevistados consideram o governo Lula pior na segurança pública em comparação com seu primeiro e segundo mandatos. Já em relação ao governo Bolsonaro, 45% afirmam que Lula está tendo um desempenho inferior.
O levantamento ouviu milhares de brasileiros de diversas regiões, faixas etárias, gêneros, escolaridades, rendas e raças, compondo um panorama abrangente sobre as demandas sociais e expectativas em relação ao governo federal.
O país enfrenta desafios estruturais que incluem desde o combate ao tráfico de drogas e armas até o enfrentamento da violência urbana, passando pela falta de integração entre os diferentes níveis de governo.
De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024, o Brasil registrou cerca de 43 mil homicídios, mantendo-se entre os países com as mais altas taxas de assassinatos do mundo.
Os dados indicam que, enquanto algumas capitais do Sudeste e do Sul apresentam uma redução nos índices de violência, especialmente em crimes patrimoniais, outras regiões, como o Norte e o Nordeste, continuam a registrar índices elevados de homicídios e outros crimes violentos.
A Pesquisa Genial/Quaest mostra que a percepção da população em relação à segurança pública é predominantemente negativa. Uma proporção significativa dos entrevistados acredita que o governo federal não está agindo de maneira suficientemente enérgica no combate à criminalidade.
As principais constatações incluem:
Aproximadamente 60% dos entrevistados consideram que o governo Lula não está tomando medidas adequadas para combater a criminalidade.
Mais de 70% dos participantes que residem em grandes centros urbanos afirmam sentir-se inseguros ao transitar por suas cidades.
No Norte e Nordeste, a insatisfação é ainda mais pronunciada, com índices superiores a 75% em relação à falta de segurança.
Mulheres e jovens são os grupos que mais manifestam preocupação com a violência urbana, especialmente em áreas marcadas pela desigualdade social.
Esses números sugerem que, embora o governo tenha demonstrado disposição para enfrentar o problema, as ações implementadas até o momento ainda não resultaram em melhorias perceptíveis pela maioria da população.
As diferenças regionais na percepção da segurança pública são evidentes. As regiões Norte e Nordeste, historicamente mais afetadas pela violência, demonstram níveis mais elevados de insatisfação em comparação com o Sul e Sudeste.
No Norte, os principais desafios incluem:
Tráfico de drogas e conflitos relacionados ao controle de territórios por facções criminosas.
Conflitos agrários, especialmente em áreas de expansão agrícola e territórios indígenas.
Crimes ambientais, frequentemente associados ao garimpo ilegal e desmatamento.
No Nordeste, as preocupações giram em torno de:
Violência urbana, com altos índices de homicídios em capitais como Salvador, Fortaleza e Recife.
Roubos e furtos, especialmente em áreas metropolitanas com altos índices de pobreza.
Violência doméstica, que ainda é um problema sério e subnotificado na região.
Já no Sul e Sudeste, as preocupações são mais diversificadas:
Crimes patrimoniais, como roubos e furtos, aparecem com destaque, embora haja uma tendência de redução em algumas capitais.
Tráfico de drogas, especialmente em áreas periféricas das grandes metrópoles.
Percepção de insegurança em transportes públicos e em áreas turísticas.
Essas variações regionais indicam que o governo Lula enfrenta desafios distintos em cada parte do país, exigindo estratégias diferenciadas que considerem as especificidades locais.
Impacto da Segurança Pública na avaliação do Governo Lula
A insatisfação com a segurança pública afeta diretamente a avaliação do governo Lula. Entre os que desaprovam o governo, cerca de 47% apontam a segurança pública como o principal motivo para sua opinião negativa. Este dado revela a relevância do tema na formulação da opinião pública.
Por outro lado, entre os que aprovam o governo, há um reconhecimento de que algumas medidas estão sendo implementadas, embora ainda sejam vistas como insuficientes. Muitos desses apoiadores argumentam que o problema da violência urbana é de natureza estrutural e requer um tempo considerável para ser solucionado.
Entretanto, especialistas apontam que a falta de resultados visíveis em um curto prazo é um dos principais obstáculos para o governo Lula, especialmente diante de um cenário político polarizado e de forte pressão social.
Estratégias do governo Lula
O governo anunciou uma série de medidas que visam combater a criminalidade em várias frentes.
Plano Nacional de Segurança Pública Integrada (PNSPI)
O PNSPI é a principal aposta do governo para enfrentar a crise de segurança pública. Seus objetivos incluem:
Reforço do efetivo policial em áreas críticas, especialmente em regiões metropolitanas com altos índices de violência.
Integração de dados entre diferentes órgãos de segurança, facilitando a identificação e neutralização de redes criminosas.
Treinamento contínuo de policiais, com ênfase na proteção dos direitos humanos e uso proporcional da força.
Em outros governos
A percepção sobre segurança pública é influenciada pela comparação com mandatos anteriores de Lula e até mesmo com governos de outros presidentes, como Jair Bolsonaro e Dilma Rousseff. Cada gestão apresentou abordagens distintas para enfrentar o problema, com diferentes graus de sucesso e críticas.
Primeiros mandatos de Lula (2003-2010) - Durante os dois primeiros mandatos de Lula, o país experimentou um período de crescimento econômico acelerado e ampliação dos programas sociais. Na área de segurança pública, o foco principal foi o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), criado em 2007.
O Pronasci combinava repressão policial com iniciativas sociais, como capacitação de jovens e assistência jurídica para populações vulneráveis. Embora tenha obtido resultados positivos em algumas áreas, especialmente no combate à violência doméstica, o programa foi criticado por não apresentar impacto significativo na redução dos homicídios.
Governo Dilma Rousseff (2011-2016) - No governo Dilma, houve uma tentativa de ampliar o Pronasci, mas a crise econômica que se intensificou a partir de 2014 dificultou o investimento em segurança pública. Os cortes orçamentários comprometeram a continuidade de diversos programas sociais, o que contribuiu para o aumento dos índices de violência em várias regiões.
Além disso, durante a gestão Dilma, a Força Nacional de Segurança Pública foi frequentemente empregada para atuar em situações de crise, como rebeliões em presídios e operações especiais em áreas urbanas críticas. Contudo, a ausência de um planejamento estratégico de longo prazo limitou os resultados dessas intervenções.
Governo Jair Bolsonaro (2019-2022) - O governo Bolsonaro adotou um discurso fortemente voltado para o enfrentamento ostensivo da criminalidade, com foco na flexibilização do porte de armas e no endurecimento de penas para crimes violentos. Embora alguns indicadores tenham mostrado melhorias, especialmente em relação aos crimes patrimoniais, a violência estrutural e o tráfico de drogas continuaram a ser problemas significativos.
Além disso, a polarização política contribuiu para uma falta de coordenação efetiva entre o governo federal e os estados, prejudicando iniciativas conjuntas de segurança pública.
Lições de outros países
Países que enfrentaram altos índices de violência e conseguiram revertê-los servem como exemplos de estratégias que podem ser adaptadas para a realidade brasileira.
Colômbia - A Colômbia, que durante décadas foi assolada pelo narcotráfico e pela violência urbana, conseguiu reduzir significativamente os índices de homicídios nas principais cidades, especialmente Bogotá e Medellín.
Medidas implementadas incluem:
Uso intensivo de inteligência policial e tecnologia para monitorar e combater o tráfico de drogas.
Urbanismo social, com investimentos pesados em infraestrutura urbana, educação e saúde.
Programas de reintegração social para jovens envolvidos com o crime.
Estados Unidos - Em algumas cidades norte-americanas, como Nova York, o policiamento comunitário foi fundamental para reduzir os índices de criminalidade.
A aproximação da polícia com as comunidades locais ajudou a criar confiança e facilitar denúncias e investigações.