Cassiano Antico

Histórias de antes da pandemia (e uma imagem para a memória)

chuva
Foto: Erik Witsoe/Unsplash/Creative Commons

 
"Eu não posso ensinar nada a ninguém, eu só posso fazê-lo pensar
-- Sócrates

Aconteceu antes da pandemia. O cara economizou, lotou o banco, até o dia em que morreu. O banco ficou lotado de dinheiro e o homem enterrado. A viúva do morto trocou a dentadura e viajou de primeira classe pro Velho Continente com o Clemilton - jardineiro da família.

O outro poupou até esperma, regulou abraço, economizou carinho, até que virou mais um pobre galhudo, também. Um galhudo manso, gente boa, diga-se de passagem.

O fulano era uma bula ambulante, dava recibo pra tudo, pra todo mundo. Tinha cinco mil amigos numa conta de Facebook e três mil na outra. No enterro não havia 20 pessoas se fotografando e nem fotografando o seu carão inchado e triste. A última palavra foi a do coveiro Rogério Risada.

Outro sujeito, especialista em economizar saúde, cuidou-se muito bem. Nunca tomou nem vento, o saudável. Os vermes que vão estragar, fazer uma grande festa no "cadáver mais saudável do cemitério".

Chamaram cicrano de burro - ele deu dois ou três coices de volta. Ser burro não é o problema. Burro é bicho esperto, inteligente: o orelhudo. Ser cachorro é elogio. Cachorro é bicho amigo, leal até quando humilhado, mesmo quando leva porrada; lambe nossas feridas, chega a chorar por nossa miséria: o linguarudo.

Quer saber? Ser estrume não é problema. Estrume é adubo - e vai enriquecer o solo com nitrogênio, fósforo e potássio, melhorar a sua estrutura e capacidade de reter água pras frutas, pras verduras, pras flores.

Pausa.

Enquanto isso, uma chuva fria cai sobre São Paulo. Sobre o carro. Sobre mim, sobre minhas filhas, sobre as árvores da rua, sobre a rua.

Abro o guarda chuvas e abraço minhas meninas até a entrada do prédio. E a gente vai abraçado e se esbarrando.

Dou um beijo em cada uma e vou guardar o automóvel. Sinto paz. Gratidão por mais um dia de vida.

Na volta, Valentina está em cima da cadeira, dançando (eu tinha deixado o som ligado), mexendo os ombros, o corpinho todo, de um jeito espontâneo, lindo, no ritmo bebop de Charles Mingus, “The Black Saint and the Sinner Lady”. 

Pensei em pegar a máquina fotográfica, o celular, registrar. Bater umas 10 fotos, filmar, mostrar pra vocês. Desisti. Fiquei parado, só olhando, admirando.

É algo indescritível como o último pôr do sol. Não precisa de foto, já está gravado na memória, no coração.

Lembro das palavras de Gibran no livro O Profeta: "A morte deixa uma mágoa que ninguém pode curar, o amor deixa uma memória que ninguém pode roubar".

A vida, o carinho, o amor, o afeto, a ajuda: não podem ser economizados para  amanhã. O bem tem urgência.