Cassiano Antico

Um amor sem palavras (que corre pela casa antes de ir para o banho)

Duas crianças correndo e rindo por todos os lados

Foto: Pixabay/Creative Commons

Caiu, raspou o cotovelo no chão e chorou. Corri, peguei minha filha no colo e a abracei. Quando vi, já não chorava mais, foi só um arranhão.

Assim é feita a infância, enxuga depressa os olhos, acha a dor inútil e não a aceita. A infância é o sorriso do futuro diante de um desconhecido que é ela própria. É-lhe natural ser feliz. Parece até que sua respiração é feita de esperança.

Como escreveu Victor Hugo, existe algo de Anteu nestes pigmeus. Na mitologia grega, Hércules derrubou Anteu três vezes e ele se levantou com mais força; ele readquiria mais potência ao tocar a terra.

Assim são as crianças e seus tombos e seus sonhos. E ela montou em seu patinete e desceu a rua, leve e livre como um pássaro. 

E me lembrei de sua primeira febre, Valentina fervia a quase 40 graus. Tinha, na época, 11 meses de vida. Recordo-me que era dia 4 de outubro. Meus planos de sábado foram todos pro espaço e eu os mandaria pra mais longe ainda por minha filha. Entrei em choque, alguém precisava de mim; e era um bebê. Não parecia ser gripe, não tossia, o nariz não escorria, o ouvido também não aparentava ter nada.

Peguei o carro num segundo, no outro estava na porta do hospital: já pegando a senha para ela ser atendida. Minha mulher achou que eu fosse infartar. Justo eu, um sujeito tão egoísta, esqueci que existia.

Sempre fui primário nos sentimentos, nas emoções básicas. Tenho até uma certa inveja dos seres muito equilibrados, racionais. Comigo a razão sempre foi a última a dar as caras. Não entendo como os filósofos e os sociólogos coloquem a razão como o nosso carro chefe. A razão é como mulher traída, homem traído: sempre o (a) último (a) a saber. Se fôssemos seres racionais, não faríamos o que fazemos.

Antes da razão vem o medo, o desejo, a surpresa, o nojo, a raiva, o ciúmes, as crenças, a alegria, a tristeza, um ego maior que uma melancia, o Facebook, o Instagram, o amor, o coração. Ou todo mundo nasceu capacitado no eterno "omn" do Buda? Depois de uns séculos, milênios, aparece a razão na cabeça de nós, bípedes.

"Não te avisei?". "Você nunca me escuta". "Você não está sendo raciiooonaaaaal". Quando não é a gente se punindo com frases deste tipo, é alguém tentando consertar a nossa vida. Nada mais fácil que consertar a vida alheia, né? O mundo é cheio de gente doutorada nisso. Mas o caminho é solitário.

As noites, os dias e as manhãs: são solitárias - inclusive em meio à multidão. E o fato de podermos compartilhar nossa solidão com pessoas que amamos já é alguma coisa. Já é muita coisa. Não precisa nem abrir a boca. Às vezes basta comer na mesma mesa... Sentir a presença.

Hoje tive um dia cheio, mas o ponto alto da lida foi correr atrás das minhas filhas pela casa (virou um ritual) para colocá-las no banho. Elas adoram! Só isso já é motivo de alegria.

Duas crianças correndo e rindo por todos os lados e um pai que poderia jurar que estava em outro mundo. Não sei definir. Amor sem palavras. Sem alarde. Sem a palavra.