Cassiano Antico

A insanidade e a esperança que um vírus despejou sobre nossas cabeças

A esperança, meus irmãos, é criança. Fica em casa!


Foto: pxhere/Creative Commons

 
Vale a pena viver - nem que seja para dizer que não vale a pena
-- Mário Quintana

Resiliência, paciência, generosidade: eis o grito do momento.

Estou ficando craque em faxinar a casa, pedalar na ergométrica, acertar bolinhas no balde, ler histórias infantis, me comunicar com meus amigos via internet, encarar meus próprios demônios, aproveitar o dia como se fosse o último e o primeiro; tenho estado "lúcido como se estivesse para morrer".

Sinto medo. Minhas filhas de 6 e 3 anos aprenderam a fazer bolo de cenoura. Tenho esperança. O paradoxo. Esse confinamento jogou a gente para dentro da gente. Meteu um espelho gigante bem na nossa fuça e nos forçou a olhar quem está lá no fundo. Quem contava com algo assim?

Se você ficar de frente para a TV o dia todo, enlouquece. É só Covid-19, mortos, estatísticas, mais mortos, o medo se espalhando por todo o planeta. Parece que estamos numa longa maratona, e corrida de prolongada distância requer fôlego, mas necessita, acima de tudo: estratégia e paciência.

Como não queimar a largada? Como não se enroscar num dilema mesquinho e idiota e jogar todo o esforço no lixo? Como não se desesperar na primeira subida que parece não ter fim? Como encontrar no vazio alguma ajuda? Como manter a esperança quando a neblina que nos gela a alma tampa qualquer possibilidade de visão? Talvez seja dando um passo depois do outro, vivendo um minuto de cada vez. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.

Vejo todo tipo de explicação sobre o momento que vivemos. Das mais esotéricas às disputas científicas. Ninguém sabe ao certo. O denominador comum parece ser o isolamento social para achatar a curva da pandemia. Mas como ficam os trabalhadores informais? Como ficam os desempregados? Como ficam os que moram nas ruas?

Alguns ostentam suas quarentenas com champanhe, caviar e hidromassagem. Outros não possuem o que comer, nem um colchão para esticar o corpo e muito menos um joinha virtual. Áreas desconhecidas da mente humana, como o inconsciente, sobem como foguetes nos momentos de tormento coletivo, a percepção da realidade é alterada, trazendo para a superfície coisas que o cérebro ignora em seu estado "normal". Interfere, possivelmente, no sistema enzimático, diminuindo a eficiência de nosso sistema nervoso central como válvula reguladora de informações percebidas.

Daí a esposa que dá um banho de álcool no marido nu - pensando que ele pode estar contaminado -, no corredor do prédio, e o sujeito está borrando de medo de a mulher riscar um fósforo sobre sua carcaça inflamável. Daí a estocagem insana de alimentos que estragam. Daí o avô amoroso (e com o coração cheio de ternura) que se joga do oitavo andar num momento de desespero. Daí o sujeito pacífico que sai na porrada com o grandalhão por causa de um caixa do supermercado. Daí um prefeito que, na tentativa patética de consolar a população, faz um pronunciamento dizendo para que todos fiquem tranquilos, pois "irão morrer ou pegar o coronavirus, mas que mantenham a calma".

A insanidade, o desespero já se manifestando nos primeiros dias de confinamento! Acordo com berros de alguém dizendo: "Jesus está voltando". Outra pessoa revida: "Cala a boca, retardado, quero dormir!".

Esse caminhar incerto que cega qualquer possibilidade de raciocínio. A claridade elétrica e implacável, a falta de luz solar, a percepção deturpada, a sensação de estar aprisionado a um corpo que já não é seu, a loucura. Experiências visionárias, como pedras preciosas, vidro, paisagens, corpos humanos sofrendo, valas abertas, o fim do mundo; e a interpretação em termos teológicos. A confusão. O que é ficção e o que é realidade? Nós continuamos vivos.

Para minhas filhas: o mundo continua a eterna novidade. Não param de se mover, embora o pouco espaço. E o pouco espaço se transformou na aventura mais divertida. Todo o nosso apartamento tem um significado diferente para elas. Daí a necessidade de recomeçar ainda que partido ao meio. Forjar a fé e a bondade de um Aliócha (Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski) para compreender todas as vozes mudas. Uma tênue membrana de alegria e vida vencendo o grotesco e malcriado escuro, horror.

A esperança, meus irmãos, é criança. Fica em casa!