
Estava eu em leito de hospital (estava), torcendo para não evoluir a leito de morte, e ouço uma conversa em que se desancava o capitalismo, mostrava-se como é nocivo, como oprime a classe trabalhadora e outras certezas do mesmo quilate.
Interessei-me, quis ver a imagem.
Eram dois ricos (muito ricos, imagino), esparramados em mansão europeia, taças de vinho à frente, bronzeando-se sob um sol capitalista (o estado febril impediu-me, infelizmente, de distinguir os rostos).
Daí em diante, não importa o que dissessem, o que eu ouvia era: "Vejam o sacrifício que estamos fazendo por vocês, classe operária, camponeses, para mostrar uma vida com a qual vocês não devem sonhar, porque é horrível. Vejam em nossos rostos a angústia, o desespero, o sofrimento que estamos passando".
Desconfio que a cena não era real.
Só pode ter sido um delírio, provocado pela agulha espetada em meu braço, de onde gotejavam antibióticos.
É.
Foi delírio.
Não pode ter sido real.
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Mudando de assunto
("ou não", como diria Caetano, o Veloso)
Vários filósofos escreveram sobre hipocrisia, embora nem sempre usando exatamente essa palavra.
Alguns dos mais interessantes são:
Friedrich Nietzsche | criticou fortemente a falsa moralidade: pessoas ou sociedades que proclamam certos valores enquanto suas verdadeiras motivações são outras.
Em obras como Além do Bem e do Mal e Genealogia da Moral, ele investiga o que pode estar escondido por trás de discursos morais.
Jean-Jacques Rousseau | discutiu como a vida em sociedade pode levar as pessoas a parecer aquilo que não são, valorizando reputação e aparência em vez de autenticidade.
Søren Kierkegaard | criticou quem se dizia cristão apenas socialmente, mas não vivia de acordo com aquilo que afirmava acreditar.
É uma crítica à distância entre convicção declarada e comportamento.
Arthur Schopenhauer | escreveu bastante sobre egoísmo, vaidade e sobre como as pessoas podem esconder suas motivações por trás de justificativas aparentemente nobres.
Michel de Montaigne | refletiu sobre contradições humanas e sobre a diferença entre aquilo que mostramos aos outros e aquilo que realmente somos.
