Saúde

Brasil tem pelo menos 742 mil acidentes de trabalho em um ano

Médica defende gestão contínua dos riscos, capacitação das equipes e atenção aos fatores psicossociais

O número, divulgado de forma preliminar pelo Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, o SmartLab, iniciativa coordenada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) reforça o alerta feito no período do Dia Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho, celebrado em 27 de julho.

Foto: Arquivo pessoal

Médica Ana Paula Teixeira

A médica do trabalho Ana Paula Teixeira defende que a segurança seja tratada pelas organizações como uma política permanente, com participação das lideranças e dos trabalhadores.

Especialista em Saúde e Bem-Estar, palestrante, escritora e consultora, Ana Paula afirma que a prevenção não deve ser limitada ao cumprimento formal das exigências legais. Segundo ela, segurança, saúde física e saúde mental precisam fazer parte da cultura e do planejamento das empresas.

Entre 2012 e 2024, o SmartLab contabilizou aproximadamente 8,8 milhões de acidentes de trabalho e 32 mil mortes no emprego com carteira assinada. Os dados são baseados principalmente nos registros previdenciários do Instituto Nacional do Seguro Social, incluindo Comunicações de Acidente de Trabalho e benefícios acidentários reconhecidos mesmo sem uma comunicação prévia.

Prevenção depende da cultura das empresas

Para Ana Paula, o comprometimento das lideranças é necessário para que os protocolos de segurança sejam efetivamente aplicados no cotidiano.

“Quando a segurança se torna parte da cultura da empresa, os benefícios vão além da redução de acidentes. Há menos afastamentos, mais engajamento, aumento da produtividade e maior proteção da vida. O trabalhador precisa se sentir corresponsável pelo processo, mas isso começa pelo compromisso das lideranças e pelo investimento contínuo em treinamento e conscientização”, afirma.

A especialista destaca que atividades ligadas à construção civil, ao transporte de cargas e passageiros, à indústria de transformação, à agropecuária e à saúde exigem atenção constante aos riscos próprios de cada função.

Na área da saúde, ela chama a atenção principalmente para profissionais que atuam em hospitais e em serviços de atendimento direto, nos quais podem existir exposições físicas, biológicas, ergonômicas e psicossociais.

De acordo com a médica, uma política preventiva deve incluir:

-- Identificação e avaliação antecipada dos riscos
-- Uso correto dos equipamentos de proteção individual
-- Manutenção periódica de máquinas e equipamentos
-- Adequação ergonômica dos postos de trabalho
-- Capacitação contínua das equipes
-- Comunicação clara sobre procedimentos de segurança
-- Participação dos trabalhadores na identificação de problemas
-- Acompanhamento de situações de estresse, fadiga e sobrecarga

Ana Paula observa que o cansaço e a sobrecarga mental podem prejudicar a concentração e elevar a possibilidade de falhas durante a execução das atividades.

“Prevenir é cuidar das pessoas e construir ambientes de trabalho mais seguros, saudáveis e humanos”, afirma.

NR-1 inclui expressamente fatores de risco psicossociais

Desde 26 de maio de 2026, está em vigor a nova redação do capítulo 1.5 da Norma Regulamentadora nº 1. O texto passou a incluir expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.

Na prática, as organizações devem identificar, avaliar e controlar fatores relacionados à concepção, à organização e à gestão do trabalho que possam provocar danos à saúde.

Entre os exemplos estão:

-- Sobrecarga ou excesso de demandas
-- Assédio no ambiente profissional
-- Falta de apoio ou de autonomia
-- Baixa clareza sobre funções e responsabilidades
-- Conflitos e relacionamentos prejudiciais
-- Jornadas e formas de organização que favoreçam a fadiga
-- Exposição a situações violentas ou traumáticas

O Ministério do Trabalho e Emprego esclarece que a avaliação deve se concentrar nas condições em que o trabalho é realizado, e não em investigar individualmente a vida pessoal ou os sintomas de cada trabalhador.

Ana Paula avalia que a mudança reforça a relação entre saúde mental e segurança ocupacional.

“Ambientes marcados por estresse constante, cobranças excessivas ou relações de trabalho adoecedoras aumentam não apenas o risco de transtornos mentais, mas também a probabilidade de falhas operacionais e acidentes. Cuidar da saúde mental é, sobretudo, uma medida de segurança do trabalho”, conclui.