
Dados públicos de aviação mostram que a Marinha e a Força Aérea dos EUA realizaram ao menos 25 voos de coleta de informações perto da costa cubana desde 4 de fevereiro, com aeronaves tripuladas e drones.
A maior parte das missões ocorreu nas proximidades de Havana e Santiago de Cuba, as duas maiores cidades do país, e algumas chegaram a cerca de 40 milhas (64 quilômetros) da costa.
Entre os equipamentos identificados estão o P-8A Poseidon, usado em patrulha marítima e reconhecimento, o RC-135V Rivet Joint, especializado em inteligência de sinais, e drones de alta altitude MQ-4C Triton.
Antes de fevereiro, voos militares visíveis publicamente nessa área eram raros.
O aumento das missões coincide com a escalada das sanções dos EUA, o bloqueio ao fornecimento de petróleo à ilha e declarações mais duras de Washington contra o governo cubano, levantando especulações sobre um ataque mais direto à ilha.
A médica Aleida Guevara, filha de Che Guevara, um dos líderes da Revolução Cubana, afirma que existe, em Cuba, a sensação de que os Estados Unidos podem invadir a ilha a qualquer momento.
Reportagem do Granma, o jornal do partido comunista de Cuba, cita que o membro do Bureau Político e ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, condenou em seu perfil nas redes sociais as implicações desastrosas de uma agressão militar do governo dos EUA contra Havana.
Segundo Parrilla, o ataque causaria uma verdadeira catástrofe humanitária, um banho de sangue. "Não há a menor razão, nem mesmo o menor pretexto, para uma superpotência como os EUA atacar militarmente uma pequena ilha que não representa nenhuma ameaça, por causa do desejo de alguns de mudar seu sistema político ou seu governo", disse.
No escuro
Cuba enfrenta uma das fases mais graves de sua crise energética recente, com falta de diesel e óleo combustível, apagões prolongados, redução da atividade produtiva e aumento da tensão social em Havana e em outras regiões do país.
O problema combina dependência estrutural de petróleo importado, usinas envelhecidas, falta de divisas e novas medidas dos Estados Unidos contra países e empresas que abastecem a ilha.
A crise se agravou em maio, quando o ministro cubano de Energia e Minas, Vicente de la O Levy, afirmou em mídia estatal que o país estava sem diesel, sem óleo combustível e sem reservas.
Bairros de Havana enfrentam cortes de energia de 20 a 22 horas por dia, enquanto protestos se espalharam pela capital.
A crise cubana deixou de ser apenas um problema de abastecimento. Ela passou a atingir, ao mesmo tempo, energia, transporte, produção, serviços públicos, preços, saúde, educação e estabilidade política.
O ponto mais urgente é a falta de combustíveis usados na geração elétrica e na mobilidade. Sem diesel e óleo combustível, Cuba reduz a operação de termelétricas, limita transporte público, prejudica a distribuição de alimentos e aumenta a pressão sobre hospitais, escolas e serviços urbanos.
A situação também expõe a fragilidade de um sistema elétrico muito dependente de derivados de petróleo. Em países com matriz elétrica mais diversificada, choques de importação podem ser parcialmente compensados por outras fontes. Em Cuba, a margem de manobra é menor porque o petróleo ainda ocupa posição central na geração de energia.
Como tudo começou
A crise atual não tem uma causa única. Ela resulta da soma de quatro fatores principais: dependência externa, infraestrutura antiga, falta de recursos financeiros e pressão dos Estados Unidos sobre o abastecimento de petróleo.
O primeiro fator é estrutural. A Agência Internacional de Energia afirma que o sistema cubano depende principalmente de derivados de petróleo, responsáveis por mais de 80% da geração de eletricidade. A Administração de Informação de Energia dos EUA afirma que o país importa a maior parte de suas necessidades energéticas, o que o torna vulnerável a interrupções externas.
O segundo fator é operacional. As usinas cubanas são antigas e exigem combustível, manutenção e peças. Quando falta óleo combustível, diesel ou lubrificante, a capacidade de geração cai. Em novembro de 2025, quase 900 megawatts de geração, perto de um terço da demanda diária, haviam sido desligados por falta de combustível e lubrificantes.
O terceiro fator é financeiro. Cuba tem dificuldade para comprar combustível no mercado internacional, em parte pela falta de divisas e pela crise econômica prolongada. Sanções dos EUA e a crise econômica dificultam há anos a compra de combustível suficiente pelo governo cubano, ampliando a dependência de aliados políticos.
O quarto fator é diplomático e sancionatório. Em 29 de janeiro de 2026, a Casa Branca publicou ordem executiva que declarou emergência nacional em relação a Cuba e autorizou a criação de um sistema de tarifas adicionais contra países que vendam ou forneçam petróleo ao país, direta ou indiretamente.
O colapso no abastecimento
A queda nas importações já vinha aparecendo antes da ruptura mais severa de 2026. Em novembro de 2025, as importações cubanas de petróleo, gás liquefeito de petróleo e combustíveis caíram 35% entre janeiro e outubro, de 69,4 mil barris por dia em 2024 para cerca de 45,4 mil barris por dia em 2025.
A redução foi especialmente forte nos fornecedores tradicionais. As importações vindas do México caíram 73%, de 18,8 mil barris por dia para cerca de 5 mil barris por dia. As remessas da Venezuela caíram quase 15%, para 27,4 mil barris por dia, com impacto direto sobre o óleo combustível usado na geração elétrica.
A Rússia, que já havia ajudado Cuba em crises anteriores, enviou poucos carregamentos em 2025. Em maio de 2026, a agência informou que apenas o petroleiro russo Anatoly Kolodkin havia entregado cerca de 700 mil barris no fim de março, volume descrito como suficiente para poucas semanas.
Havana, que durante anos foi relativamente mais protegida dos cortes extremos, passou a sofrer apagões prolongados. Agora em maio, protestos foram registrados em vários bairros da capital depois de interrupções de energia que chegaram a 20 ou 22 horas por dia.
Moradores bloquearam ruas, bateram panelas e cobraram o retorno da eletricidade.
O ministro da Energia e Mineração, Vicente de la O Levy, afirmou que a rede elétrica estava em estado crítico e que Cuba seguia tentando negociar importações de combustível. Ele também disse que o país estava aberto a fornecedores dispostos a vender combustível à ilha.
De la O Levy lembrou que, desde dezembro, o país ficou praticamente quatro meses sem receber combustível. «Nenhum navio-tanque entrou em Cuba até a chegada da doação da Federação Russa, com cerca de 100 mil toneladas de petróleo bruto», explicou.
Esse carregamento proporcionou algum alívio por várias semanas. O petróleo bruto foi processado na refinaria de Cienfuegos para obtenção de produtos refinados para geração de eletricidade.
Assim que o processo começou, os efeitos começaram a diminuir.
No entanto, o alívio foi temporário: as 100 mil toneladas só foram suficientes para parte de abril e alguns dias de maio. Hoje, esse combustível acabou e o país enfrenta novamente uma situação extremamente complexa, agravada pelo aumento das temperaturas e pelo maior consumo de eletricidade associado à chegada do verão.
Além da escassez de combustível, há a deterioração acumulada das usinas termoelétricas, que operam com severo desgaste tecnológico e falta de peças de reposição.
O chefe do Ministério de Energia e Mineração insistiu que os problemas não se restringem às caldeiras, mas também afetam sistemas auxiliares essenciais. "Uma usina termoelétrica pode falhar por qualquer motivo", afirmou.
A recente paralisação da central termoelétrica Antonio Guiteras causou uma das semanas mais difíceis para o sistema. Pouco depois, foi necessário desligar a unidade Felton, em Holguín; embora tenha sido noticiado como manutenção, o ministro esclareceu que se tratavam de reparos urgentes para evitar maiores danos.
Felton tinha vazamentos na caldeira e problemas com um conversor de ar regenerativo. "Se continuasse funcionando assim, toda a unidade seria danificada", explicou.
Cada sessão de manutenção significa mais horas de interrupção de energia. O sistema opera praticamente sem backups: qualquer avaria ou interrupção inesperada afeta imediatamente o serviço.
"Se não fizermos a manutenção, levaremos essa unidade à falha total e a perderemos completamente", afirmou o ministro.

Preços disparam
A escassez também chegou às bombas. Cuba quase dobrou os preços da gasolina e do diesel, embora postos públicos em Havana continuem majoritariamente fechados por falta de oferta.
A gasolina premium subiu de US$ 1,30 para US$ 2 por litro. A gasolina regular passou de US$ 0,95 para US$ 1,80 por litro. O diesel subiu de US$ 1,10 para US$ 2 por litro.
A alta oficial não resolveu o problema central: a falta física de combustível. Motoristas seguiam sem saber quando poderiam abastecer e que os preços no mercado informal chegaram a US$ 8 a US$ 10 por litro, valor fora do alcance da maioria dos cubanos.
O reajuste busca aproximar os preços internos dos custos reais de importação, segundo o governo cubano. Mas, sem recomposição do abastecimento, a medida tende a ampliar a pressão sobre famílias, taxistas, transportadores e pequenos negócios.
A energia é a base de quase todas as atividades econômicas. Quando a eletricidade falta por longos períodos, fábricas, restaurantes, oficinas, mercados, escolas e hospitais reduzem ou interrompem operações.
A crise de combustível também prejudica a logística. Sem diesel, caminhões circulam menos, a coleta de lixo perde regularidade, alimentos chegam com atraso e o transporte público encolhe.
Prejuízos no turismo
O turismo, uma fonte importante de divisas, também sente o efeito da instabilidade. Hotéis e serviços dependem de eletricidade, água, transporte e abastecimento. Cortes prolongados reduzem a capacidade de atendimento e afetam a imagem do país como destino.
Pilar Álvarez Azze, diretora-geral de Marketing, do ministério do Turismo de Cuba, disse que o turismo de cruzeiros sofreu uma queda significativa, devido ao número de passageiros de cruzeiros que não puderam chegar a Cuba por causa do bloqueio, gerando perdas estimadas em mais de 70 milhões de dólares por ano.
"No centro histórico de Havana Velha, a eliminação dos navios de cruzeiro afetou negativamente as empresas locais que prestavam serviços aos turistas, resultando na redução de pessoal e no fechamento de estabelecimentos", enfatizou.
Ela explicou que entre os obstáculos ao crescimento do setor de turismo estão as proibições do uso do dólar norte-americano como moeda de pagamento por cidadãos norte-americanos que se hospedam em hotéis estatais cubanos.
Para a população, a crise aparece em tarefas básicas. Sem energia, alimentos estragam, ventiladores param, bombas d’água deixam de funcionar e celulares ficam sem carga.
Os apagões prolongados são especialmente difíceis em períodos de calor. Em Havana, moradores relataram à Reuters que a falta de eletricidade impedia descanso e agravava o esgotamento diário.
A falta de combustível também limita deslocamentos. Isso afeta estudantes, trabalhadores, pacientes, profissionais de saúde e famílias que dependem de transporte público ou de táxis.
A tensão social cresce quando os apagões se tornam imprevisíveis. A população passa a organizar sua rotina em torno de poucas horas de energia, quando consegue cozinhar, lavar roupa, armazenar água e carregar equipamentos.
Governo cubano procura saídas
Atualmente, uma parcela significativa da eletricidade é gerada por parques solares fotovoltaicos. Cuba já possui mais de 1.300 megawatts (MW) de energia solar instalada, mas a fragilidade do restante da rede elétrica obriga o país a limitar sua entrada para evitar flutuações perigosas.
Em certos momentos, a geração de energia solar ultrapassou os 900 megawatts; hoje, a média é de cerca de 580.
Em todo o país, existem circuitos protegidos que não podem ser facilmente desconectados, pois fornecem energia a hospitais, sistemas de bombeamento de água, centros econômicos estratégicos ou instalações vitais.
Mais de 600 circuitos recebem proteção diária e consomem mais de 800 MW de geração disponível. Existem também circuitos DAF, que estabilizam a frequência contra flutuações perigosas.
Cada província tem diferentes níveis de demanda, um número diferente de circuitos protegidos e configurações técnicas específicas, portanto, algumas alcançam uma rotatividade mais rápida do que outras.
O governo cubano tenta negociar combustível no exterior, mas enfrenta custo alto, risco de sanções, dificuldades financeiras e menor disposição de fornecedores tradicionais. México e Venezuela deixaram de enviar combustível à ilha após a ordem de janeiro dos EUA que ameaçou tarifas contra países fornecedores.
A entrada de combustível por empresas privadas existe, mas não resolve a escassez pública. Em março, fornecedores dos EUA haviam enviado cerca de 30 mil barris ao setor privado cubano em 2026, dentro de uma política que buscava favorecer negócios privados em relação ao setor estatal.
Mesmo quando há combustível importado por canais privados, ele não necessariamente chega aos postos abertos à população.
Cuba tem interesse em ampliar energia solar e outras fontes renováveis, mas a transição exige investimento, equipamentos, manutenção, baterias, redes e financiamento. Sem isso, fontes intermitentes ajudam, mas não substituem rapidamente termelétricas movidas a óleo.
A crise atual mostra que a diversificação da matriz deixou de ser apenas uma meta ambiental. Ela se tornou uma questão de segurança energética.
A dependência de combustíveis importados deixa Cuba exposta a três riscos simultâneos: preço internacional, disponibilidade física e pressão geopolítica. Quando esses três fatores se combinam, o sistema entra em colapso mais rapidamente.
O que pode acontecer
O primeiro cenário é a continuidade da crise, com apagões prolongados, racionamento de combustíveis e alta de preços. Esse é o cenário mais provável enquanto não houver recomposição estável das importações.
O segundo cenário é a chegada pontual de carregamentos, como ocorreu com o petroleiro russo em março. Essa alternativa alivia a crise por semanas, mas não resolve a vulnerabilidade estrutural.
O terceiro cenário envolve negociação diplomática. Uma flexibilização das medidas dos EUA, exceções humanitárias ou acordos de fornecimento poderiam reduzir a pressão imediata. Até agora, porém, as medidas anunciadas por Washington ampliaram o risco para fornecedores estrangeiros.
O quarto cenário é a aceleração da transição energética. Mas esse caminho exige tempo, financiamento e infraestrutura. Ele não substitui, no curto prazo, a necessidade de combustíveis para geração elétrica e transporte.

