
Leão XIV completa seu primeiro ano de pontificado como um papa de continuidade cautelosa e estilo mais institucional. Ele manteve prioridades centrais de Francisco, como defesa dos pobres, apelos por paz, atenção aos migrantes e cuidado com o meio ambiente, mas adotou ritmo mais metódico, linguagem menos improvisada e sinais mais claros de retorno a formas tradicionais de governo no Vaticano.
Eleito em 8 de maio de 2025, Robert Francis Prevost se tornou o 267º bispo de Roma, o primeiro papa nascido nos Estados Unidos e o primeiro da Ordem de Santo Agostinho.
O primeiro ano mostra um pontífice que começou discreto, ouviu por meses e, depois, passou a falar com mais força sobre guerras, desigualdade, autoritarismo e dignidade humana.
A primeira mensagem pública de Leão XIV foi “Peace be with all of you!”, traduzida no espírito de “a paz esteja com todos vocês”. A escolha do tom foi significativa: o novo papa se apresentou menos como reformador de ruptura e mais como pastor de reconciliação.
Na missa de início do pontificado, em 18 de maio de 2025, Leão XIV colocou amor e unidade no centro de sua missão. Em sua homilia, afirmou que desejava uma Igreja “unida” e capaz de ser sinal de comunhão em um mundo ferido por ódio, violência, preconceito e desigualdade.
A diferença está no método
Leão XIV não surgiu como opositor de Francisco. Ao contrário, sua trajetória recente passou pelo próprio antecessor. Francisco o nomeou bispo em 2015 e o levou a uma função relevante no Vaticano em 2023, antes de sua eleição ao papado.
Leão foi um apoiador discreto do pontificado anterior e, nos primeiros meses, repetiu temas fortes de Francisco, incluindo os apelos pelo fim de guerras.
Francisco era conhecido por decisões rápidas, gestos inesperados e linguagem espontânea. Em seu primeiro mês, já havia decidido morar fora do Palácio Apostólico, nomeado seu sucessor em Buenos Aires e criado um grupo formal de cardeais conselheiros.
Leão XIV, no mesmo período, preferiu não anunciar grandes decisões, viagens ou nomeações relevantes.
Esse contraste se tornou uma das marcas do primeiro ano: Francisco acelerava pela força do gesto; Leão XIV avança pela construção de consenso.
A comparação entre os dois pontífices começa antes da eleição. Francisco, Jorge Mario Bergoglio, era o jesuíta argentino de forte perfil pastoral, eleito em 2013 aos 76 anos. Leão XIV, Robert Francis Prevost, foi eleito aos 69, depois de anos como missionário e bispo no Peru e de um período mais curto como cardeal e alto funcionário da Cúria Romana.
Francisco chegava com uma imagem pública mais nítida: pastor das periferias, crítico do clericalismo, reformador de costumes internos e defensor de uma Igreja “em saída”. Leão chegou como figura menos conhecida, mais administrativa e mais reservada.
Pessoas próximas o definiram como focado, metódico e inclinado a ouvir antes de decidir. Francisco, por sua vez, ficou marcado por entrevistas em voos, frases de impacto e respostas que muitas vezes mudavam o debate público em poucos segundos.
A continuidade ficou clara em setembro de 2025, quando Leão XIV indicou, em sua primeira entrevista ampla, que manteria políticas associadas a Francisco, como abertura pastoral a católicos LGBTQIA+, discussão sobre ordenação de mulheres e participação da China na indicação de bispos. Ao mesmo tempo, disse que não planejava grandes mudanças na doutrina da Igreja.
A fórmula resume o primeiro ano: seguir o caminho de Francisco, mas com freio institucional.
Isso significa que Leão XIV não desmontou o legado do antecessor. Também não tentou transformá-lo em uma revolução permanente. O pontificado começou com a ideia de consolidar, organizar e reduzir tensões internas.

Pobres continuam no centro
A primeira exortação apostólica de Leão XIV, Dilexi te, publicada em outubro de 2025, confirmou a centralidade dos pobres. O documento defende que a opção preferencial pelos pobres é fonte de renovação para a Igreja e para a sociedade. Também afirma que a condição dos pobres questiona sistemas políticos, econômicos e sociais.
Nesse ponto, a ligação com Francisco é direta. O próprio texto recorda que Francisco explicou sua escolha de nome depois de ouvir o apelo “não se esqueça dos pobres”. Leão XIV não abandona essa herança. Ele a reorganiza em chave mais doutrinária, apoiada na tradição social da Igreja.
A escolha do nome também reforça esse caminho. Leão XIII, papa entre 1878 e 1903, ficou associado à doutrina social moderna da Igreja, especialmente pela encíclica Rerum Novarum, sobre a questão operária.
Nos primeiros dez meses, Leão XIV evitou temas explosivos com frequência. Depois, ganhou voz mais forte.
A mudança ficou mais visível na viagem de dez dias à África, em abril de 2026, na qual o papa denunciou guerra, despotismo, violações do direito internacional e novas formas de poder neocolonial. Ele depois esclareceu que os discursos haviam sido escritos semanas antes e não tinham como alvo direto um líder específico.
No aniversário da eleição, em 8 de maio de 2026, Leão XIV visitou Pompeia e Nápoles. Em Pompeia, rezou para que líderes políticos superassem o ódio e buscassem a paz.
Relação com os Estados Unidos vira teste delicado
O fato de Leão XIV ser o primeiro papa nascido nos Estados Unidos não tornou sua relação com Washington mais simples. Pelo contrário, sua nacionalidade elevou a expectativa política sobre cada gesto.
O papa criticou políticas migratórias duras e a guerra no Irã, o que provocou reação de setores conservadores norte-americanos e críticas do presidente Donald Trump. Ainda assim, o Vaticano e representantes dos Estados Unidos buscaram preservar canais diplomáticos, como mostrou a reunião com o secretário de Estado Marco Rubio na véspera do primeiro aniversário.
A tensão expõe uma diferença importante em relação a Francisco. O argentino falava a partir do Sul Global, com uma distância natural da política norte-americana. Leão XIV fala como papa universal, mas carrega inevitavelmente a leitura de que suas posições também dialogam com conflitos internos de seu país de origem.
Tradição institucional
Uma das diferenças mais visíveis entre Leão XIV e Francisco apareceu na residência. Francisco escolheu viver na Casa Santa Marta, gesto que reforçava simplicidade e proximidade. Leão XIV, depois de morar no Palazzo del Sant’Uffizio no início do pontificado, tomou posse do apartamento papal no Palácio Apostólico em março de 2026.
A mudança não significa luxo pessoal, mas comunica outra visão de governo. Francisco fazia do deslocamento simbólico uma crítica ao peso da corte vaticana. Leão XIV parece preferir usar a estrutura tradicional, mas tentando dar a ela uma função de estabilidade.
Leão XIV também deu continuidade ao legado ecológico de Francisco. Em setembro de 2025, inaugurou o Borgo Laudato Si’, centro de formação ecológica e agricultura sustentável em Castel Gandolfo, inspirado na encíclica Laudato si’, de Francisco. A AP descreveu o projeto como uma tentativa de transformar a pregação ambiental da Igreja em prática concreta, com educação, formação profissional e produção sustentável.
O gesto tem peso simbólico. Francisco abriu Castel Gandolfo ao público e associou o local a uma conversão ecológica. Leão XIV manteve essa direção, mas a apresentou com perfil mais operacional: centro, formação, trabalho, produção e educação ambiental.
A agenda dos migrantes
A migração também continuou no centro. Leão XIV programou uma visita a Lampedusa, ilha italiana associada à chegada de migrantes vindos do Norte da África. A escolha ganhou atenção adicional por estar prevista para 4 de julho, data nacional dos Estados Unidos, em um contexto de disputas políticas sobre imigração.
Francisco fez de Lampedusa um símbolo logo no início de seu pontificado, em 2013. Leão XIV retoma o sinal, mas em outro contexto: um papa norte-americano, sob pressão de debates migratórios nos Estados Unidos e na Europa, reafirma a prioridade dos marginalizados sem abandonar a linguagem de ordem e reconciliação.
Ao completar um ano, Leão XIV parece ter definido sua primeira identidade: um papa de paz, de doutrina social e de ordem institucional. O sucesso de seu pontificado dependerá de transformar essa ordem em decisões concretas, sem perder a força pastoral que fez de Francisco uma referência global.

