
O Brasil pode criar, nos próximos quatro anos, o primeiro partido político formado pelos povos indígenas. A proposta, defendida pelo líder Marcos Terena, busca ampliar a representação dos povos originários nos espaços de poder e nas decisões nacionais que impactam a população brasileira.
Marcos Terena, nascido em Mato Grosso do Sul, atua há décadas na defesa dos direitos indígenas. Ele vive e trabalha em Brasília e defende que a criação de uma legenda própria segue em debate entre lideranças indígenas de diferentes regiões do país.
A declaração foi feita durante a participação de Terena na 25ª Sessão do Fórum Permanente sobre Assuntos Indígenas, em Nova Iorque. Neste ano, o encontro discutiu o acesso à saúde para os povos indígenas, inclusive em contextos de conflito.
Segundo Terena, os indígenas no Brasil não seguem uma única orientação política. Há representantes com posições de esquerda e de direita, além de pessoas ligadas ao agronegócio e a movimentos progressistas. Para ele, a criação de um partido indígena pode se tornar viável caso mais lideranças sejam eleitas para cargos como senador, deputado federal e deputado estadual.
O líder indígena afirmou que a ideia não deve ser abandonada, pois representa um projeto de participação política. Ele também citou a possibilidade de um Parlamento indígena com 300 integrantes, sem vinculação obrigatória a partidos, voltado a representar diferentes sociedades, línguas e povos dentro do Congresso Nacional.
A abertura do Fórum Permanente sobre Assuntos Indígenas contou com a presença do secretário-geral da ONU, António Guterres, e da presidente da Assembleia Geral, Annalena Baerbock. O evento reuniu mais de mil indígenas e representantes da sociedade civil.
Durante o encontro, Guterres destacou que os povos indígenas correspondem a 6% da população mundial, mas representam quase 19% das pessoas em situação de pobreza extrema no planeta.
À margem do fórum, Terena afirmou que houve avanços no Brasil e em outros países. Ainda assim, ele avalia que apenas uma força política dedicada aos povos originários poderia ampliar de forma mais consistente as melhorias nas condições de vida dos indígenas brasileiros.
Terena também defende a criação de um conceito ideológico indígena no Brasil. Para ele, crianças deveriam aprender desde cedo que fazem parte de uma nação formada também por povos originários, além de grupos de origem europeia e africana. Essa abordagem, segundo ele, iria além da forma como os livros escolares costumam tratar o encontro entre culturas e etnias.
O líder indígena criticou o modelo de educação oferecido hoje em muitas aldeias. Na avaliação dele, o ensino formal levado às comunidades segue a lógica do homem branco e não nasce dos sistemas educacionais próprios de cada povo.
Para Terena, esse modelo contribui para o enfraquecimento das línguas indígenas. Ele afirmou que muitas crianças deixam de usar sua língua materna ao longo da vida escolar, especialmente após a alfabetização em português, e passam a sentir vergonha da própria origem, tradição e identidade.
Em fevereiro deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral divulgou artigo sobre a participação de representantes indígenas em audiências públicas da Corte. Em um encontro realizado em Brasília, representantes dos povos Tikuna, da Amazônia, e Fulni-ô, de Pernambuco, defenderam o aumento das candidaturas indígenas.
O evento no TSE contou com interpretação nas línguas tikuna, yaathe, do povo Fulni-ô, e kaingang. A iniciativa integrou discussões sobre a presença de indígenas no processo político brasileiro.
A representação indígena no Congresso tem marcos recentes e históricos. Em 2018, Joênia Wapichana tornou-se a primeira mulher indígena eleita deputada federal. Antes dela, Mario Juruna havia sido o primeiro deputado indígena da Câmara, eleito em 1982.
Há três anos, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou o Ministério dos Povos Indígenas. Segundo a pasta, o Brasil reúne 305 povos indígenas e uma população superior a 1,7 milhão de pessoas.
No vídeo
Entrevista com o líder índigena Marcos Terena
