
A fatia das receitas dos Correios obtida com a distribuição de encomendas internacionais recuou de 22% em 2023 para 7,8% em 2025, segundo demonstrações financeiras da estatal publicadas no Diário Oficial da União nessa quinta-feira (24 de abril).
A redução é atribuída ao programa Remessa Conforme, do Ministério da Fazenda, que alterou as regras de distribuição de compras estrangeiras no país.
O Remessa Conforme foi criado em 2023. O programa passou a cobrar imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. Antes da mudança, essas compras eram isentas para empresas. A medida ficou conhecida como "taxa das blusinhas".
O programa encerrou a exclusividade dos Correios na entrega de encomendas internacionais no Brasil. Com isso, empresas de transporte também passaram a poder realizar o frete interno de mercadorias vindas do exterior.
De acordo com reportagem do G1, a mudança afetou as contas da estatal nos últimos dois anos. Em 2024, a receita dos Correios com encomendas internacionais foi de R$ 3,9 bilhões, valor R$ 530 milhões inferior ao registrado em 2023.
Em 2025, o montante caiu para R$ 1,3 bilhão. A retração foi de R$ 2,6 bilhões na comparação com o ano anterior.
Os Correios registraram um prejuízo de R$ 8,5 bilhões em 2025. O valor é mais de três vezes superior ao verificado em 2024, quando a estatal anunciou prejuízo e R$ 2,6 bilhões.
Em 2021, a estatal registrou um lucro superior a R$ 3 bilhões, considerado o melhor resultado em 22 anos.
Documento elaborado pela Diretoria Econômico-Financeira dos Correios afirma que o Remessa Conforme expôs dificuldades econômico-financeiras da empresa. O texto foi assinado pela diretora Loiane de Carvalho Bezerra de Macedo.
"A redução da participação de mercado no segmento de encomendas internacionais, que até agosto de 2024 representava uma espécie de “monopólio” para os Correios, evidenciou a ausência de reposicionamento negocial da Empresa, diante das transformações do comportamento da sociedade", afirmou o documento.
Segundo estudo produzido pela própria estatal no início de 2025, a implementação do programa provocou perda de receita de R$ 2,2 bilhões para os Correios.
Um documento interno da empresa aponta que o volume de encomendas internacionais transportadas caiu cerca de 110 milhões de objetos nos nove primeiros meses de 2025, em relação ao mesmo período de 2024.
A queda de receitas foi descrita pela própria estatal como parte de um ciclo de perdas. Segundo o documento, a deterioração da qualidade operacional reduziu a entrada de recursos e dificultou a regularização de obrigações financeiras.
"Formou-se, assim, um ciclo vicioso de perda de clientes e receitas, decorrente da baixa qualidade operacional, que reduziu progressivamente a geração de caixa necessária para regularizar as obrigações dos Correios", afirmou Loiane de Carvalho Bezerra de Macedo.
O documento também relaciona os prejuízos recentes da empresa à piora do desempenho operacional. A diretoria aponta que negociações com grandes clientes, responsáveis por mais de 50% da receita de vendas, ficaram mais sensíveis.
Mesmo diante do resultado negativo o presidente dos Correios, Emmanoel Schmidt Rondon, rejeita a possibilidade de privatização, como defendem correntes de economistas pró-mercado.“Esse assunto não está na pauta aqui. Estamos apresentando os resultados. Privatização ou não é uma decisão do controlador [o governo federal]. O que que a gente quer? Aqui estamos trabalhando em um plano de gestão de recuperação, para que a empresa permaneça íntegra, viável, que preste um bom serviço, dê resultado positivo”, afirmou.
Desgaste político
A cobrança sobre compras internacionais de baixo valor passou a ser vista dentro do governo como uma medida de alto custo político, apesar de sua relevância para a arrecadação, segundo apuração da Gazeta do Povo.
A avaliação é que a taxação se tornou um dos principais focos de insatisfação popular, especialmente entre consumidores afetados pelo preço de produtos importados mais baratos.
A possível revisão da chamada “taxa das blusinhas” ainda não tem decisão formal. Mesmo assim, integrantes do governo discutem a hipótese de extinguir a cobrança por meio de medida provisória.
O debate ocorre em meio a divergências internas. O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, defendeu publicamente um eventual recuo. “Se o governo decidir revogar, eu acho uma boa”, afirmou.
O vice-presidente Geraldo Alckmin adotou posição mais cautelosa. Segundo ele, o governo ainda não definiu se fará alguma mudança na cobrança. “Não há nenhuma decisão nesse momento sobre esse tema”, declarou.
De acordo com a Gazeta do Povo, a discussão é conduzida principalmente pela ala política do Palácio do Planalto. O ministro da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira, atua no debate, com apoio do ministro da Casa Civil, Rui Costa.
A possibilidade de revogar a cobrança encontra resistência em setores da indústria e do comércio. Esses segmentos defenderam a criação do imposto e sustentam que a medida contribuiu para proteger a produção nacional.
A Confederação Nacional da Indústria afirmou, em nota técnica divulgada na quarta-feira (22) que a taxação ajudou a conter importações, preservar cerca de 100 mil empregos e movimentar a economia brasileira.
A “taxa das blusinhas” impediu a entrada de R$ 4,5 bilhões em produtos importados no Brasil. A redução ajudou a preservar mais de 135 mil empregos e quase R$ 20 bilhões na economia brasileira.
“O objetivo principal da "taxa das blusinhas" não é tributar o consumidor, mas proteger a economia. Tornar a indústria brasileira competitiva é primordial para que nós possamos manter empregos e gerar renda", afirmou em nota o superintendente de Economia da CNI, Marcio Guerra.
No vídeo
A posição da CNI sobre a "taxa das blusinhas"
