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Apagão de energia em Cuba deixa
a ditadura em situação crítica

A situação acontece em meio a tensões com os Estados Unidos

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Uma falha em linha de alta tensão provocou apagão em quatro províncias do leste cubano, afetando 3,4 milhões de pessoas. O corte expôs a crise energética agravada pela queda no fornecimento de petróleo venezuelano, essencial para o país, e pela deterioração da infraestrutura elétrica nacional.

Um apagão parcial no sistema elétrico cubano, nessa quarta-feira (4 de fevereiro) deixou cerca de 3,4 milhões de pessoas sem energia em várias províncias do leste da ilha, informaram autoridades e empresas do setor.

O apagão ocorreu nas províncias de Holguín, Granma, Santiago de Cuba e Guantánamo, após uma falha numa linha de alta tensão de 220 quilovolts (kV) na província de Holguín que se desligou repentinamente. A interrupção provocou também o fechamento da central termoelétrica de Felton, uma das principais geradoras de energia na região, além de outra usina e de uma subestação.

Este é o segundo apagão parcial em pouco mais de quatro meses, refle­tindo uma crise energética profunda no país caribenho. Desde meados de 2024, Cuba enfrenta cortes frequentes de eletricidade que resultam em dias de apagões e longas horas sem luz em várias localidades.

Especialistas apontam que a fragilidade da infraestrutura elétrica decorre tanto de subfinanciamento crônico do setor energético estatal, quanto da escassez de combustível necessário para manter as usinas em funcionamento.

Os cortes de energia prolongados têm afetado serviços básicos e a rotina de milhões de cubanos, dificultando desde a preservação de alimentos até o funcionamento de estabelecimentos comerciais e serviços públicos. Além disso, a crise elétrica contribuiu para dificuldades econômicas mais amplas no país.

Fatores externos e contexto internacional

A situação também acontece em meio a tensões com os Estados Unidos e mudanças nos fluxos de combustível. Autoridades americanas advertiram que residentes e visitantes devem estar preparados para interrupções significativas de energia e protestos, à medida que a ilha enfrenta escassez de combustível e desafios políticos externos.

A empresa estatal de eletricidade Union Eléctrica de Cuba afirmou que equipes estão trabalhando para verificar as causas completas do incidente e restaurar a estabilidade do sistema, mas ainda não há um cronograma claro para a normalização total do fornecimento.

Cuba depende do petróleo venezuelano

Desde os anos 2000, Cuba passou a depender fortemente do petróleo enviado pela Venezuela, que era vendido em condições altamente subsidiadas -- ou seja, muito abaixo do preço de mercado -- como parte de acordos políticos e econômicos entre os governos dos dois países.

Cuba não produz óleo suficiente internamente para suas necessidades energéticas. Historicamente, o país tinha um consumo de cerca de 150 mil barris de petróleo por dia, enquanto a produção local era de aproximadamente 80 mil barris por dia, o que deixava um deficit considerável a ser coberto por importações.

Antes da crise entre Cuba e Venezuela em 2026, estudos e análises indicavam que Cuba recebia mais de um terço de seu petróleo da Venezuela, o que representava parte substancial da sua demanda energética total.

O combustível venezuelano era usado para geração de eletricidade, transporte público, manutenção de serviços básicos e infraestrutura industrial -- setores essenciais para o funcionamento do país. Sem esse fluxo, esses serviços ficam seriamente ameaçados ou interrompidos.

Em 2026, devido ao cerco e bloqueio americano sobre o petróleo venezuelano, os carregamentos de hidrocarbonetos de Caracas para Havana foram interrompidos ou muito reduzidos, deixando Cuba sem sua principal fonte de combustível.

Outros países, como México e Rússia, fornecem petróleo à ilha, mas em volumes muito menores do que o que a Venezuela historicamente fornecia -- ou seja, não substituem integralmente a dependência anterior.

Consequências da dependência

A fragilidade da matriz energética cubana, que depende de importações de petróleo e derivados, contribuiu para apagões elétricos, cortes de energia rotativos e crises de combustível, especialmente quando as remessas venezuelanas diminuíram.

A dependência externa mostra o quanto a economia energética de Cuba está vulnerável a flutuações geopolíticas e interrupções nas cadeias de suprimento.

Em resumo: por décadas, a Venezuela foi o principal fornecedor de petróleo para Cuba, cobrindo uma fatia grande das importações necessárias para manter o país funcionando. Quando esse fluxo foi interrompido ou reduzido, os impactos foram imediatos e severos, mostrando o grau real de dependência energética que Cuba tinha em relação ao petróleo venezuelano.

Protestos 

Em março de 2024, centenas de cubanos saíram às ruas no leste do país (por exemplo, em Santiago de Cuba) gritando por “energia e comida” em resposta a apagões prolongados e escassez de alimentos, demonstrando insatisfação pública com a crise energética e econômica.

Os cortes frequentes de energia continuam gerando protestos raros contra o governo, especialmente em cidades afetadas por apagões recorrentes.

Em protestos ligados aos apagões e escassez, autoridades cubanas reprimiram e prenderam manifestantes em várias províncias após grandes apagões em 2024, segundo relatos de detenção de cidadãos que protestaram nas ruas.