Saúde

Homens jovens lideram os casos
de transtornos mentais no País

Em 3 anos foram 91.697 mil internações de pessoas entre 25 e 29 anos no país

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Jovens entre 25 e 29 anos lideram internações por transtornos mentais no Brasil entre 2023 e 2025, com predominância masculina. Rio Grande do Sul tem a maior taxa. Especialista aponta estilo de vida e redes sociais como agravantes e defende mais prevenção e conscientização sobre saúde mental.

Uma análise da Agência Tatu com base em dados do DataSUS revela que a população de jovens adultos é a que mais precisa de internamentos hospitalares devido a transtornos mentais e comportamentais no Brasil. As informações mostram que entre janeiro de 2023 e novembro de 2025, foram contabilizadas 91.697 mil internações de pessoas entre 25 e 29 anos no país.

Outros grupos de idade com muitos casos estão no intervalo entre 35 e 39 anos com 90.367 pessoas, e 89.536 pacientes no grupo de 30 a 34 anos. A partir dos 45 anos os registros de internações por transtornos mentais reduzem gradualmente.

No cenário nacional, o Rio Grande do Sul lidera o índice de hospitalizações, com 355 registros para cada 100 mil habitantes, seguido por Santa Catarina (284) e Acre (170). Já no Nordeste, o Ceará aparece como destaque e ocupa a 10ª posição no ranking brasileiro liderando as estatísticas regionais, com uma taxa de 107 internações por 100 mil habitantes nos últimos três anos.

O perfil das internações por saúde mental no Brasil revela uma predominância masculina. Nos últimos três anos, os homens representaram 57% do total (438.787 casos), enquanto as mulheres responderam por 43% (329.125 registros). 

Em São Paulo, estado com o maior volume absoluto de internações, a disparidade se mantém, com 110 mil homens frente a 78.520 mulheres. No entanto, é no Piauí que a desigualdade de gênero é mais acentuada, onde a ala masculina concentra expressivos 69% de todas as hospitalizações do estado.

A análise considerou as internações classificadas no Capítulo V da CID-10, que abrange transtornos mentais e comportamentais. O grupo é extenso e inclui desde diagnósticos de esquizofrenia e transtornos de humor, como depressão e ansiedade, até condições decorrentes do uso de substâncias psicoativas, neuroses e síndromes associadas a disfunções físicas.

De acordo com Lucas Fragoso, que é médico psiquiatra e atende pelo SUS no município de Maceió, os transtornos mentais apresentam maiores índices de internação quando há risco iminente para o paciente ou para terceiros, ou ainda quando o indivíduo carece de uma rede de apoio para cuidados básicos.

No entanto, o médico ressalta que não é possível explicar o volume de internações sob uma única perspectiva pois existem múltiplos fatores que influenciam o processo de adoecimento. Porém, ele explica que a maior atenção e busca por cuidados em saúde mental tem sido um fator determinante para o aumento dos registros de internação.

“Isso é algo que chama atenção nesse sentido, que realmente pode acarretar um número maior de internações, porque esses indivíduos começam agora a se permitir enxergar como alguém que precisa de ajuda e a partir daí isso pode aumentar o número relacionado a essas demandas de internação”, comentou. 

Entretanto, o médico conta que o estilo de vida contemporâneo tem participação central no aumento de transtornos. Ele também destaca que a rede social é um fator de risco determinante no processo, pois baseiam-se em mecanismos de comparação social que potencializam o sofrimento psíquico.

 “Então você tá sempre se comparando com o outro a partir do que o outro coloca, o outro posta, o que o outro tem e cria-se ali um processo de comparação que muitas vezes tende o indivíduo a se questionar sobre como ele chegou onde ele está naquele patamar da vida, mas sem muitas vezes estar olhando para si”, explica.

Ele ainda explica que o cenário é ainda mais crítico para os homens devido a questões estruturais. Diferente das mulheres, que buscam cuidados preventivos com maior frequência, os homens tendem a resistir ao atendimento médico. Esse comportamento é reforçado por construções sociais de gênero que dificultam a busca por tratamento antes que o quadro se agrave.

“Muitas vezes não só por conta de uma falha no próprio sistema, mas por conta de uma falha interna e que o indivíduo traz isso com ele desde muito pequeno, que ele tem a função de provedor e que ele não pode adoecer, que o homem não pode estar levantando as suas dores com muita facilidade, porque tem uma série de repercussões em cima disso. Então, isso vai fazendo com que a coisa só chegue no cuidado na hora que tá mais agravada”.

Para mudar essa situação, o médico ressalta a importância de campanhas de conscientização e prevenção. Ele defende, acima de tudo, o cultivo de um pensamento de proteção neural, em que cada pessoa se atente à sua identidade e às suas atividades, entendendo o impacto disso em sua saúde mental.

 “A gente precisa voltar a se individualizar no sentido de olhar para si, olhar para dentro e a partir disso começar a se perceber como um indivíduo com as suas qualidades,  com os seus desafios como um todo, assim, entender que para que haja essa mudança, essa prevenção nesse processo, a gente tem que mudar a forma como a gente tá encarando o processo do viver. Ou seja, a gente precisa olhar para gente com uma perspectiva diferente”.