
O Dia de Santa Bárbara, celebrado em 4 de dezembro, leva milhares de pessoas no Centro Histórico de Salvador, dando início ao ciclo das festas populares de verão na Bahia. A comemoração une devoção católica e culto afro-brasileiro, destacando o sincretismo religioso que marca a identidade cultural do estado.
Às seis da manhã, uma alvorada de fogos anunciou o início dos festejos. Depois, a Salva dos Clarins ecoou das sacadas do Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI). Em seguida, o padre da Igreja do Rosário dos Pretos, Lázaro Muniz, presidiu a missa campal, celebrada no Largo do Pelourinho, e acompanhada atentamente pelos devotos que agradeceram e renovaram os pedidos.
Entre eles estava a personal trainer Rosane da Luz, 50 anos, que acompanha a festa há mais de três décadas. “Todo ano eu venho agradecer. Santa Bárbara sempre me deu força nos momentos difíceis, e estar aqui hoje, no meio dessa energia, é renovar a fé e a coragem para seguir enfrentando as batalhas que surgem, e não têm sido poucas, viu? Continuo firme por aqui! Por ela e pela saúde do meu filho. Muito obrigada, minha mãe”, relatou.
Este ano, a celebração teve como tema “Com Santa Bárbara, de fronte erguida e rosto sereno, testemunhamos Jesus Cristo, nossa Esperança”, destacando a dimensão espiritual que atravessa séculos. Para o padre Lázaro Muniz, a Festa de Santa Bárbara traduz a espiritualidade popular do povo baiano e ultrapassa os limites da liturgia católica.
“Hoje abrimos o ciclo de grandes festas da nossa cidade. Santa Bárbara marca com sua presença, com a espiritualidade católica e dos irmãos de matriz africana, esse ciclo de louvor, graça, beleza, unidade e força feminina”, afirmou.
O prior da Irmandade dos Homens Pretos e Mulheres Pretas, William Justo, destacou o caráter sincrético da celebração.
“Os festejos populares da Bahia se dão a partir do sincretismo religioso. No dia 04 de dezembro, nós acolhemos os devotos de Santa Bárbara, assim como os devotos de Iansã e essa mistura, com suas simbologias e festividades, é que traz esse brilho para a nossa Bahia”, ressaltou.
Para o secretário de Cultura da Bahia, Bruno Monteiro, o dia 4 de dezembro carrega um simbolismo profundo para o estado. “É uma data muito especial para a Bahia. Nosso estado se pinta de vermelho e une fé, amor e devoção a Santa Bárbara e a Iansã. É a nossa identidade cultural sendo valorizada, com o povo nas ruas pedindo bênçãos, força, determinação e coragem. E nós, do Governo do Estado, temos a responsabilidade de salvaguardar essa festa, que é patrimônio imaterial da Bahia. Aqui está uma celebração respeitosa, que une diferentes religiosidades em torno da fé, do respeito e da esperança por dias melhores para a Bahia e para o Brasil”, declarou.
O diretor-geral do IPAC, Marcelo Lemes, destacou a importância das ações de valorização da festa.‘’A Festa de Santa Bárbara é uma celebração que atravessa gerações e mobiliza toda a cidade. Quando o IPAC apoia essa festa, estamos reafirmando a importância das manifestações que formam a identidade cultural da Bahia. Nosso trabalho é garantir que tradições como esta continuem acontecendo com organização, proteção e valorização, respeitando seus significados religiosos, históricos e simbólicos. É uma responsabilidade que assumimos com muito compromisso, porque essas expressões fazem parte daquilo que a Bahia é e representa para o Brasil”, afirmou.

Fé nas ruas do Centro Histórico
Depois da missa, uma procissão percorreu as ruas Gregório de Mattos, João de Deus, Terreiro de Jesus, Praça da Sé e Ladeira da Praça. Na Barroquinha, o cortejo fez a tradicional parada no Corpo de Bombeiros para homenagear a corporação. Em seguida foi pela Baixa dos Sapateiros, Rua Padre Agostinho e retornou ao Pelourinho, encerrando na Igreja do Rosário dos Pretos.
Após o encerramento das cerimônias religiosas, a festa ganhou ainda mais força nos quatro largos do Pelourinho, onde nove atrações musicais deram continuidade às homenagens. Ao longo da tarde, rodas de samba, grupos tradicionais e artistas da cena afro-baiana movimentaram o Centro Histórico, unindo fé, música e ancestralidade e celebrando Santa Bárbara com alegria, devoção e resistência cultural.
Iansã
A santa católica, mártir do século III, advogada dos arquitetos, dos pedreiros, dos prisioneiros e dos bombeiro, protetora contra raios, trovões, tempestades e mortes repentinas é tradicionalmente associada no candomblé à orixá Iansã, divindade dos ventos, trovões e tempestades. Essa ligação entre as duas figuras religiosas transformou a festa em um dos eventos mais representativos da convivência entre as tradições cristã e africana na Bahia.
As comemorações começam com uma missa na Igreja do Rosário dos Pretos, localizada no Pelourinho. Após a celebração, a imagem de Santa Bárbara seguiu em procissão pelas ruas do Centro Histórico, acompanhada por fiéis vestidos de vermelho e branco, cores que representam tanto a santa quanto a orixá Iansã.
Ao fim do cortejo, os participantes se dirigiram ao quartel do Corpo de Bombeiros, no bairro do Comércio, onde a corporação prestou homenagens à sua padroeira. Lá, foram distribuídos carurus e comidas típicas, tradição que acompanha a festa ao longo das décadas.
Símbolo de fé e resistência cultural
A devoção a Santa Bárbara na Bahia ultrapassa fronteiras religiosas. A celebração atrai católicos, praticantes do candomblé, turistas e curiosos. Para os devotos, a santa representa proteção contra raios, tempestades e o fogo -- por isso também é invocada por profissionais como bombeiros, eletricistas e mineradores.
Ao longo dos séculos, a festa também se tornou um símbolo de resistência cultural e religiosa das populações negras, que utilizavam as imagens católicas para preservar seus cultos de origem africana durante o período colonial e imperial, quando a prática das religiões afro-brasileiras era proibida ou marginalizada.
Santa Bárbara e Iansã: fé que move multidões
De acordo com a tradição cristã, Santa Bárbara viveu no século III, na Nicomédia, atual Turquia. Foi morta pelo pai após se converter ao cristianismo. Acredita-se que, após sua morte, um raio o atingiu, o que associou a santa aos fenômenos naturais.
Já Iansã, no candomblé, é um orixá feminino ligado à tempestade, ao raio e ao fogo. É considerada uma guerreira, dona dos ventos, e tem forte presença nos rituais dos terreiros. No sincretismo religioso, a figura de Santa Bárbara passou a representar Iansã, permitindo que a religiosidade africana sobrevivesse sob a aparência de devoção católica.
O Dia de Santa Bárbara é reconhecido como patrimônio imaterial da Bahia, dada sua importância histórica, religiosa e cultural. A festa movimenta também a economia local, com grande circulação de pessoas nos bares, restaurantes, lojas e espaços culturais da região do Pelourinho.
Além da parte religiosa, a data inclui apresentações culturais, como grupos de afoxé, rodas de capoeira, e manifestações da cultura popular baiana. As homenagens atraem não apenas fiéis, mas também estudiosos da cultura afro-brasileira e turistas de todo o Brasil e do exterior.
Oração para Santa Bárbara
Ó Santa Bárbara, que sois mais forte que as torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me atinjam, os trovões não me assustem e o troar dos canhões não me abalem a coragem e a bravura.
Ficai sempre ao meu lado para que eu possa enfrentar, de fronte erguida e rosto sereno, todas as tempestades e batalhas da minha vida para que, vencedor de todas as lutas, com a consciência do dever cumprido, possa agradecer à Deus, criador do céu, da terra e da natureza, e que tem poder de dominar o furor das tempestades e abrandar a crueldade das guerras.
