A jornalista morreu na madrugada desta quinta-feira (3 de abril), aos 74 anos incompletos, em Salvador, após complicações decorrentes de uma cirurgia de emergência para tratar um aneurisma da aorta.
Familiares da jornalista informaram que o enterro está previsto para acontecer no Cemitério Campo Santo, nessa sexta-feira(4), a partir das 13h.
Nos últimos meses, Wanda Chase vinha enfrentando problemas de saúde que se agravaram progressivamente. De acordo com familiares e amigos próximos, em fevereiro a jornalista contraiu uma virose que debilitou seu organismo. Mesmo após tratamento inicial, sintomas como cansaço, febre e dores abdominais persistiram, motivando novos exames e avaliações médicas.
Além disso, foi diagnosticada com infecções urinária e intestinal, condições que, devido à idade avançada e ao quadro de saúde fragilizado, exigiram cuidados médicos constantes. Durante esse período, a jornalista precisou se afastar de suas atividades profissionais, mas continuava acompanhando à distância as movimentações culturais e políticas na Bahia.
No início de abril de 2025, Wanda Chase apresentou uma piora significativa em seu estado de saúde, sendo levada às pressas para o Hospital Tereza de Lisieux, em Salvador. Após uma série de exames, foi diagnosticada com um aneurisma dissecante da aorta, uma condição médica crítica que ocorre quando há um rompimento na camada interna da aorta, resultando em um sangramento grave e comprometimento da circulação sanguínea.
O diagnóstico de aneurisma dissecante da aorta é considerado uma emergência médica e, frequentemente, exige cirurgia imediata para evitar o rompimento completo do vaso sanguíneo, o que poderia ser fatal. A equipe médica responsável por Wanda optou por realizar o procedimento cirúrgico na tentativa de conter a dissecção e estabilizar a saúde da jornalista.
A cirurgia foi realizada na madrugada desta quinta-feira. De acordo com boletins médicos divulgados pelo hospital, o procedimento durou várias horas e envolveu uma equipe de especialistas em cirurgia cardiovascular.
Durante a operação, foi necessário reparar a aorta rompida e conter o sangramento interno, um procedimento complexo. As complicações decorrentes do aneurisma e a condição debilitada de Wanda Chase dificultaram a recuperação.
A repercussão
Com mais de três décadas de atuação na Bahia, Wanda se tornou uma referência na cobertura do Carnaval e nas pautas culturais que exaltavam as raízes africanas do estado, tendo recebido o título de Cidadã Soteropolitana e, mais recentemente, uma indicação para o título de Cidadã Baiana.
A cantora Margareth Menezes, atual ministra da Cultura do Brasil, publicou em suas redes sociais: “Perdemos hoje uma mulher brilhante, que dedicou sua vida a promover e valorizar a nossa cultura. Wanda Chase foi uma voz essencial para a Bahia e para o Brasil. Sua luta não será esquecida”.
O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, decretou luto oficial de três dias no estado em homenagem a Wanda Chase. Em um comunicado oficial, ele destacou: “A Bahia perde uma de suas vozes mais autênticas e comprometidas. Wanda Chase sempre foi uma defensora incansável da cultura baiana e do seu povo. Seu legado jamais será esquecido”.
O prefeito de Salvador, Bruno Reis, lamentou a morte da jornalista.
“Ao longo de décadas, ela marcou uma geração de telespectadores com sua presença marcante, especialmente durante as coberturas do Carnaval de Salvador, se destacando como uma das grandes comunicadoras da nossa folia. Wanda inspirou muita gente e deixa um legado imenso”, disse o prefeito.
O forrozeiro Adelmario Coelho também falou sobre a morte da jornalista. "É um dia muito triste para o jornalismo e a cultura brasileira", postou em suas redes sociais.
O cantor Carlinhos Brown também se pronunciou, declarando que Wanda foi uma das primeiras jornalistas a dar espaço para seus projetos ligados à música afro-baiana. Durante uma entrevista à TV Bahia, ele afirmou: “Wanda era muito mais do que uma jornalista. Ela era uma amiga, uma irmã de luta, uma defensora das nossas raízes”.
A Associação Bahiana de Imprensa (ABI) emitiu uma nota oficial, destacando a importância de Wanda Chase para a valorização da cultura afro-brasileira.
O Bloco Olodum divulgou comunicado oficial agradecendo à jornalista por sua dedicação e apoio ao movimento cultural e afirmando que sua memória será sempre honrada durante as festividades do Carnaval de Salvador.
De Manaus, Amazonas

Wanda Chase nasceu no Amazonas
Wanda Chase da Silva nasceu em Manaus, Amazonas, em 19 de novembro de 1950. Desde cedo, demonstrou interesse pela comunicação e pela escrita, características que a levariam a se tornar uma das jornalistas mais respeitadas do Nordeste brasileiro.
Ainda na adolescência, começou a se envolver com o jornalismo por meio de pequenos projetos escolares e comunitários. A paixão pela escrita e pelo contato direto com as pessoas a motivou a buscar uma formação na área. Formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), onde começou a desenvolver habilidades que seriam aprimoradas ao longo de sua carreira.
O início de sua trajetória profissional se deu no jornal A Crítica, um dos mais tradicionais veículos de comunicação do Amazonas. Atuando inicialmente como repórter, Wanda destacou-se pela capacidade de investigar e relatar acontecimentos com precisão e clareza. Sua habilidade de contar histórias com sensibilidade logo chamou a atenção dos editores e colegas de profissão.
Após alguns anos em Manaus, Wanda decidiu expandir seus horizontes, buscando novas oportunidades fora do Amazonas. Durante esse período, trabalhou em Recife (PE) e Campina Grande (PB), onde acumulou experiência em diversas editorias, desde cultura até jornalismo investigativo.
Chegada a Salvador

Wanda Chase, cidadã de Salvador
Em 1988, Wanda Chase se mudou para Salvador, onde encontrou um ambiente cultural vibrante e diverso, que proporcionou o cenário ideal para o desenvolvimento de suas pautas focadas na valorização da cultura afro-brasileira.
A jornalista iniciou sua atuação na TV Bahia, afiliada da Rede Globo, onde permaneceu por 27 anos. Durante esse período, passou por diversas funções, incluindo repórter investigativa, apresentadora, comentarista de Carnaval e jornalista de cultura. Sua atuação na cobertura do Carnaval de Salvador, especialmente, a tornou uma personalidade conhecida e querida pelo público baiano.
Na TV Bahia, começou sua trajetória como repórter investigativa, cobrindo temas complexos e desafiadores que exigiam apuração rigorosa e coragem. No entanto, foi na cobertura cultural, especialmente do Carnaval, que ela se destacou de forma definitiva.
Sua abordagem diferenciada, que priorizava a valorização das tradições afro-brasileiras e a exaltação dos blocos afros, a consolidou como uma das principais comentaristas do Carnaval baiano. Ao longo dos anos, cobriu a festa mais popular do estado sob diferentes ângulos, sempre enfatizando a importância cultural e social dos blocos afros como Olodum, Ilê Aiyê e Filhos de Gandhy.
Além da TV Bahia, Wanda Chase passou pela TV Aratu, TVE Bahia e pelos portais de notícias iBahia e LEIAMAISba, onde atuou como colunista e comentarista, publicando artigos e análises sobre temas relacionados à cultura, arte e questões sociais.
Reconhecimentos e prêmios
Wanda Chase recebeu mais de 45 prêmios ao longo de sua carreira, reconhecimento de seu trabalho.
Entre as principais honrarias, destacam-se:
-- Prêmio Mulher Imprensa, pela sua atuação em jornalismo cultural.
-- Prêmio Braskem de Jornalismo, na categoria reportagem cultural.
-- Título de Cidadã Soteropolitana pela Câmara Municipal de Salvador, em 2002.
-- Prêmio Palmares de Cultura, concedido pelo Instituto Cultural Palmares, que reconheceu seu trabalho na promoção da cultura negra na Bahia.
-- Prêmio Zumbi dos Palmares, homenagem dada por movimentos sociais pela sua atuação contra o racismo.
Além desses, diversos grupos culturais, associações e instituições de ensino prestaram homenagens à jornalista por sua contribuição inestimável à valorização da cultura afro-brasileira.
Militância no movimento negro
Desde sua chegada a Salvador, Wanda Chase se envolveu ativamente com movimentos que lutavam pela valorização da cultura afro-brasileira e pela igualdade racial. Tornou-se militante do Movimento Negro Unificado (MNU), organização que luta pela defesa dos direitos civis e pela preservação das manifestações culturais de origem africana no Brasil.
Sua militância ia além das reportagens e coberturas jornalísticas. Participava de debates, conferências e eventos culturais, utilizando sua influência midiática para dar visibilidade às causas do movimento negro e promover discussões relevantes sobre racismo, desigualdade e identidade cultural.
Relação com os blocos afro
Wanda Chase foi conselheira e assessora de imprensa do bloco afro Olodum, um dos mais icônicos do Carnaval de Salvador e referência mundial na promoção da cultura negra. Sua relação com o Olodum foi construída sobre um profundo respeito pelo trabalho do bloco e pela visão de que o Carnaval deveria ser também um espaço de resistência e afirmação identitária.
Além do Olodum, Wanda manteve contato próximo com outros blocos afros, como o Ilê Aiyê e o Filhos de Gandhy, promovendo e divulgando suas atividades tanto em reportagens televisivas quanto em artigos e entrevistas. Sua paixão pela cultura afro-brasileira se refletia na forma genuína com que transmitia essas manifestações artísticas e religiosas ao público.