Gina Marocci

Como era a moradia da classe média na Salvador do séc. 19

Eu nasci em abril de 1959, na casa dos meus avós maternos, no Rio Vermelho e de frente para o mar. Na época, meus pais não estavam em boas condições financeiras, então, o parto foi realizado no quarto deles, por um primo, médico obstetra, auxiliado por meu pai.

Por que estou falando de mim? Porque me sinto devedora desse testemunho sobre morar em uma casa de classe média típica do século XIX. Nela vivi por 26 anos, minha irmã um pouco mais.

Mas, primeiramente, vou apresentá-la a vocês, pois, garanto que muita gente que frequenta o Rio Vermelho já a viu. Pois bem, ela é essa casinha branca de porta e duas janelas, com muro alto e acesso por uma escada.

Meu avô comprou essa casa lá pela década de 1930 e foi ele quem construiu o muro alto (cada proprietário foi construindo sua parte), pois antes o acesso era lateral, por uma pequena ladeira. 

A fachada já mostra características do século XIX, influenciadas pelos artistas e arquitetos da Missão Artística Francesa (1816) que por aqui passaram, que se tornaram comuns em edificações de vários bairros da cidade, como Santo Antônio Além do Carmo, Nazaré, Saúde e outros. São as casas de porão alto, por causa do assoalho em tábuas que precisava de afastamento da umidade do solo.

Outra característica importante é a platibanda em lugar do beiral, antes enfeitado por cimalhas ou telhas sobre telhas, as famosas “beiras sobeiras”.

No século XIX imperou a platibanda de todos os jeitos: simples, como a da minha casa; rica, com estátuas, jarros, pinhões de louça, como em casas do Centro Histórico.


Fotografia entre 1870 e 1880, de Guilherme Gaensly


Casa na Rua Direita de santo Antônio

Além das janelas de guilhotina, outros modelos se instalaram com folhas com vidro e venezianas, postigos e bandeiras fixas, ornados com molduras de argamassa encimadas por guirlandas.

Os jardins, frontais ou laterais, aparecem nas casas e sobrados como na ladeira de São Bento (Figura 3), no final do século XIX.


Ladeira de São Bento com os jardins frontais nos sobrados

As casas de porta e janelas têm uma divisão interna muito parecida e aqui eu vou descrever a que nasci e vivi. A porta de entrada abre para um pequeno hall onde fica a segunda porta de entrada, que nós chamamos de grade. Dessa segunda porta, um largo e comprido corredor dá acesso a todos os cômodos, que ficam à direita. O primeiro, uma sala de visitas. Depois, seguem-se as alcovas, quartos sem janela que se abrem para o corredor, que termina numa grande sala de jantar. Daí tem-se um pátio pavimentado e um quintal.

A copa e a cozinha ficam à direita como um anexo da sala de jantar. A partir delas, seguem-se vários cômodos: um banheiro e dois quartos. Meu avô fez um sanitário dentro de casa com banheira esmaltada e pia de louça ornada com pequenos azulejos vitrificados. Na sala de jantar havia uma igual.

Apenas a sala de visitas e os quartos eram com tabuado; no resto da casa, ladrilhos hidráulicos compunham pequenos tapetes. Inicialmente, toda a casa era forrada com tábuas de madeira.

Com o tempo, o custo da manutenção pesou e alguns cômodos ficaram em telha vã, como o quarto do meio (que devia se chamar de quarto do medo, com aquela porta de uns 3 metros de altura sempre meio aberta!!!), e a sala de jantar, que ficou com um telhado encaibrado (só com caibros) que dá uma sensação de casa do interior.

Do mesmo modo que em milhares de casas em Salvador, as fachadas (frente e fundo) são em alvenaria mista de pedra e tijolo (o mesmo tijolo que servia como piso).

Lá em casa, as paredes internas são em adobe, com cerca de 40 cm de espessura, e em estuque que têm uns 20 cm de espessura.

A casa tem uma largura de 7 metros e a parede da cumeeira, onde fica o ponto mais alto do telhado, tem 7 metros de altura, em adobe!

O pé-direito alto dá uma sensação de amplidão em todos os ambientes.

Ainda havia vestígios da tubulação de água de chumbo, que foi refeita e instalada por minha mãe (danadinha!). Foi ela quem refez toda a fiação elétrica e também fazia a tinta a base de cal e tabatinga, não me lembro mais, obrigatória para a pintura de todo final de ano, claro.

A copa era pequena, com uma pia para lavar copos e garrafas e tinha um filtro.

A cozinha era para armazenar, e preparar os alimentos e tinha uma pequena bancada, um grande armário de madeira para colocar as panelas e um fogão a gás, que na década de 1960 ainda era raro nas casas de classe média e baixa.

Apesar de termos um sanitário com banheira dentro de casa, o banho era tomado no banheiro logo depois da cozinha. O problema é que quando chovia ficava difícil passar. Ele era grande e tinha o chuveirão gelado, sob um arco de alvenaria que sustentava o reservatório. Meu pai instalou outro chuveiro com aquecimento a gás, mas no inverno era dureza porque a telha vã deixava passar o vento frio do mar.

Minha mãe nos falava que a casa teve seu tempo de glória. A sala de visitas, enfeitada com cortinas de veludo, tinha móveis de jacarandá estofados com tecidos adamascados. As alfaias em louça e ferro banhado em prata enfeitavam os ambientes.

Eu cheguei no tempo das vacas magras, mas lhes digo que a casa em que nasci, quando era enfeitada para as festas, com o piso vermelho encerado, as colchas e toalhas de mesa de linho com bordado Richelieu, nos jarros palmas de Santa Rita e angélicas, vou lhes dizer, era um palácio!