Cassiano Antico

O que ainda nos traz esperança (diante da crueldade humana)

Pra mim a esperança é o sonho de quem acordou. E foi viver.

 
Isso na minha frente não é um muro, é uma porta
-- Lou Reed
Foto: Lucas Pezeta/Pexels/Creative Commons

A paternidade tem como premissa essencial a investigação. É ser uma espécie de detetive das próprias emoções. Não há como ensinar a criança a evoluir, a melhorar, a se entender, se nós não fazemos isso na prática. Não temos peixe a vender. Temos uma das tarefas mais difíceis que é a de preparar minimamente um ser humano para a vida.

Paternidade, alguém já disse, é a arte de se tornar desnecessário. E só através da investigação honesta e destemida que temos a oportunidade de olhar para nós mesmos com mais compaixão, para desatar certos nós, nos livrar de armaduras, aceitar nossa própria ferida com dignidade; porque a criança que aparece bem na nossa frente é generosa e boa como um dia fomos. E ela nos lembra disso.

Claro que o avivamento da dor e esse deleite são compreensíveis nos adultos: é o deleite de muitos insultados e ofendidos, oprimidos pelo destino e conscientes de sua injustiça, como está no livro "Humilhados e Ofendidos", de Dostoiévski.

Um velho sábio disse certa vez: "Os sete andares do céu e os sete andares da terra não podem conter Deus, mas o coração do homem pode. E, por isso, meu filho, tenha cuidado, para não machucar o coração do homem".

Quem é capaz entender uma oração assim? Que foi germinada por anos, anos e anos no silêncio...

As crianças e os cães podem. E ao perceber o olhar angelical e bondoso de um cão encoleirado, com o pescoço quase enforcado, constato como somos seres cruéis e sádicos.

Mas ainda há esperança quando vejo as crianças dividindo tudo que possuem com outras crianças e com os cães e com a vida.

Pra mim a esperança é o sonho de quem acordou. E foi viver.