Suzana Varjão

O pai (ou retrato de uma família brasileira)


Foto: Suzana Varjão

— A gente tem que descer aqui.

Volta-se para a acompanhante, sem entender. Conhece de cor o trajeto de volta do colégio. Muitas vezes o percorre a pé, quando não há dinheiro para pagar as passagens de ônibus. E não estão sequer na metade do caminho. Mas não tem tempo de argumentar. A jovem a puxa pelo braço e a faz descer do coletivo.

Chove. Sem sombrinhas ou capas plásticas, são obrigadas a correr, sobre as pedras escorregadias dos paralelepípedos — óculos embaçados, livros e cadernos encharcando —, para alcançar a marquise da oficina mecânica, uma das poucas edificações daquela rua, onde haviam erigido o principal cemitério da cidade.

— Seu pai morreu...

Os pés perdem a pressa. Prossegue em silêncio, escutando apenas o ruído da enxurrada descendo pelos bueiros. Mas... Por que a notícia dada assim, tão sem jeito, por uma quase estranha? Não teria sido melhor deixá-la chegar em casa, dizer "precisamos-conversar-seu-pai-não-está-muito-bem", até o derradeiro "virou-estrela-no-céu"?

Seria alguma brincadeira de mau gosto? Uma coisa assim tão grave, e nem um telefonema para a escola, como de outras vezes, quando algo no cotidiano da família saia do lugar... A mãe e a irmã mais velha já saberiam da tragédia? Estariam no velório esperando-a? Por que, afinal, aquele clima de meias palavras, se o pior fora anunciado, sem qualquer cerimônia?

Vira o pai pela última vez há três semanas e dois dias. Era viajante, daí as ausências prolongadas. Não entendia muito bem o que fazia um viajante, mas fosse o que fosse, os retornos eram sempre uma festa — a alegria da presença somando-se à certeza de ter o que comer no café da manhã, no almoço, no jantar.

No campo-santo, percorrem um corredor de salas geminadas, repletas de soluços, flores mortas e gente falando miúdo — decerto sobre as qualidades do defunto, exemplo de retidão, ética, generosidade... A moça segue apurando a vista e repetindo, como que para si, os números grafados no alto das portas, até que se detém em frente à de número 27.

Acho que é essa...

Perscruta o interior do velório e avista um caixão de madeira com detalhes dourados, em torno do qual perfilam-se homens de terno e gravata e mulheres de salto alto, quase todos de trajes pretos e óculos escuros. À cabeceira da esquife, uma mulher, tão grisalha quanto sua mãe, rosto mergulhado nas pétalas de rosa púrpura que cobrem o finado, chora.

O que você tá fazendo aqui?

A voz lhe é familiar. Volve o corpo na direção do som e reconhece uma colega da escola primária, abraçada a um rapaz de idade equivalente, nariz e olhos vermelhos e inchados. Explica o infortúnio, a jovem lamenta a perda, "que infeliz coincidência, mas esse velório é o do pai dele, meu namorado, quem sabe o do seu não é o seguinte"...

Examina as roupas sem pompa e os colos sem joias do cerimonial vizinho — o pranto gritado e úmido contrapondo-se aos sussurros de olhos secos e indiferença mal contida do anterior. Sim, faria mais sentido ser essa a cerimônia fúnebre que procuram, não fosse o detalhe dos três caixões na sala...

Sente as vistas turvarem, ante o significado esboçado pelas evidências (o pai, a mãe, a irmã mais velha...), mas é arrastada de volta para o velório de número 27.

Deixe passar, deixe passar...

Conduzida para o centro da vigília, sente-se alvo de entreolhares, realçados por movimentos quase imperceptíveis de lábios rentes a orelhas, dos quais escapam falas entrecortadas, sequências sem nexo de palavras como "...a caçula...", "...traição...", "...a outra...", "...vagabundas...", "...barradas na entrada...".

Fita o corpo que repousa no ataúde de luxo da sala e reconhece, naquela face serena, a fisionomia do pai.

(porque hoje é domingo...)