
Uma multidão ocupou as ruas de Salvador na manhã desta quinta-feira (2) durante o desfile do 2 de Julho, data que celebra a Independência do Brasil na Bahia.
O cortejo reuniu devotos, fanfarras, filarmônicas, grupos populares e participantes vestidos a caráter em torno dos carros do Caboclo e da Cabocla, símbolos populares da luta pela liberdade.
A celebração marca os 203 anos do episódio histórico que culminou, em 2 de julho de 1823, na retirada definitiva das tropas portuguesas da Bahia.
Segundo a programação oficial divulgada pela Prefeitura de Salvador, os atos desta quinta começaram às 6h, com alvorada no Largo da Lapinha, e seguem até a noite no Campo Grande.
Devoção ao Caboclo e à Cabocla abre as homenagens
Ainda ao amanhecer, devotos chegaram ao local para cumprir uma tradição do 2 de Julho: homenagear os carros do Caboclo e da Cabocla. Filhos e filhas de santo levaram alfazema, frutas e outros alimentos em gesto de reverência, pedido de bênçãos e memória dos que participaram da luta pela Independência.
O ativista Jadson Silva, conhecido no terreiro como Pai Ioiô, participa do desfile há 35 anos. Morador do Matatu de Brotas, ele afirmou que, nas religiões de matriz africana, os Caboclos são vistos como espíritos ancestrais ligados à luta pela liberdade.
“A nossa independência ainda não acabou. A luta continua, porque ainda são muitas as desigualdades sociais. Nosso pedido aqui é esse. E também relembramos aqueles que lutaram para que nós pudéssemos hoje estar aqui nessa caminhada. O desfile é o fortalecimento da nossa ancestralidade, e que nossa Bahia seja liberta da violência, da falta de educação e da falta de saúde”, disse Jadson.
Personagens e memória histórica tomam as ruas
As homenagens também foram feitas por participantes que escolheram representar personagens históricos por meio da vestimenta. O oficial Diranir dos Santos, de 65 anos, compareceu vestido a caráter para acompanhar a celebração.
“Somos a glória perene dos soldados brasileiros. Fiz uma referência aos heróis”, afirmou Diranir.
A emoção também marcou a participação de Pedro Raimundo Zambolo, de 66 anos. Há 44 anos, ele trabalha no Batalhão Quebra-Ferro, grupo responsável pela proteção e pelo cuidado dos carros dos Caboclos usados no desfile.
“Esse ano foi um pouco mais trabalhoso, por conta da Copa do Mundo; tivemos mais demandas, mas a expectativa é a melhor possível, com festa e muita alegria”, disse ele, emocionado.
Desfile teve alvorada, hasteamento e cortejo
A programação começou com alvorada no Largo da Lapinha. Em seguida, autoridades participaram das cerimônias cívicas, com hasteamento das bandeiras e execução do Hino Nacional pela Banda de Música da Marinha do Brasil.
O desfile começou por volta das 9h, com a presença dos Caboclos de Itaparica, fanfarras municipais, estaduais e da Região Metropolitana de Salvador, além de filarmônicas e grupos populares. O cortejo reuniu público entre a Lapinha e o Centro Histórico.
Durante o percurso, a programação prevê homenagens em pontos tradicionais da festa, como o Convento da Soledade, a Ordem Terceira do Carmo e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.
Cortejo segue até o Campo Grande
No fim da manhã, os carros do Caboclo e da Cabocla devem ser recolhidos nos caramanchões da Praça Thomé de Souza. À tarde, o cortejo cívico segue em direção ao Campo Grande, onde estão previstas as principais cerimônias oficiais da data.
A programação inclui hasteamento das bandeiras, execução de hinos militares, deposição de coroas de flores no Monumento ao 2 de Julho e acendimento da Pira do Fogo Simbólico. À noite, o público acompanha o tradicional Encontro de Filarmônicas, sob direção artística do maestro Fred Dantas.
Por que o 2 de Julho é celebrado?
O 2 de Julho marca a consolidação da Independência do Brasil na Bahia. A data lembra a entrada das tropas brasileiras em Salvador e a retirada definitiva do exército português da província, em 1823. A Fundação Cultural Palmares destaca que o episódio encerrou a guerra pela Independência na Bahia, iniciada em 1822.
Nas ruas, a celebração mistura cerimônia cívica, participação popular, devoção e memória histórica. O Iphan aponta que as festividades são centradas na figura do Caboclo, símbolo ligado à bravura do povo baiano e à fusão de referências indígenas e africanas.

